Globalização financeira: aspectos positivos e negativos

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O presente ensaio tem por objetivo analisar sucintamente, o fenômeno da globalização financeira, apresentando seus aspectos positivos e negativos, bem como seu impacto sobre a economia brasileira.

O primeiro destes impactos, diz respeito à maior integração entre os sistemas financeiros nacionais, destacando-se os países desenvolvidos e os "mercados emergentes" (como o Brasil, por exemplo). Esse fato manifesta-se, quando se percebe uma proporção crescente de ativos financeiros emitidos por residentes, nas mãos de não- residentes e vice-versa; ressaltando- se que os avanços tecnológicos na informática, principalmente com o advento da internet, na telefonia e na mídia, contribuíram de modo fantástico para tal integração.

O segundo impacto, dá-se com o aumento da concorrência nos mercados internacionais de capitais, fato manifestado por transações financeiras internacionais, envolvendo bancos de um lado, e instituições financeiras de outros. E o terceiro, ocorre com a extraordinária expansão dos fluxos de capitais (títulos, ações, empréstimos, financiamento, moedas e derivativos), em todos os mercados integrantes do sistema financeiro internacional.

O balanço de vantagens e desvantagens da globalização financeira tem especial importância para as nações em desenvolvimento, surpreendidas, pela explosão desse fenômeno e com a intensidade de seus efeitos.


Aspectos positivos da globalização financeira

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Os aspectos considerados positivos são mais facilmente identificáveis e de maior aceitação. De modo geral, supõe-se que a maior oferta de capitais disponível aos países emergentes, o acesso desimpedido de seus governos e empresas aos recursos de uma poupança virtualmente mundial e os baixos custos de informação e de transação prevalecentes, devem contribuir para se obter:

- maior disponibilidade de poupança, condição necessária para a elevação da taxa de crescimento econômico;

- maior eficiência nos investimentos, direcionando os recursos existentes para as oportunidades mais produtivas;

- disponibilidade de instrumentos para melhor gerenciamento de riscos financeiros, por parte de governos e empresas;

- maior facilidade de financiamento de déficits fiscais, já que os governos deixam de depender apenas dos mercados domésticos.


Aspectos negativos da globalização financeira:

O rol dos problemas encarados pelos países em desenvolvimento, devido à súbita exposição às tentações e rigores de um mercado financeiro globalizado, aumenta cada vez mais. Os riscos macroeconômicos da maciça entrada de capitais nas economias de países em desenvolvimento merecem especial destaque, em virtude da rapidez com que suas conseqüências podem ser sentidas. Cumpre mencionar, inicialmente, os efeitos cambiais e monetários.

Em um regime de câmbio fixo, uma entrada líquida de capitais externos implicará a emissão de moeda por parte do Banco Central em montante equivalente, de modo a honrar seu compromisso de adquirir as divisas estrangeiras pela taxa de câmbio oficial. Percebe-se, assim, que, tudo o mais constante, a entrada de capitais provocará o efeito de expansão monetária, com possíveis impactos sobre a taxa de inflação doméstica.

Contrariamente, uma súbita reversão do fluxo financeiro, com saída líquida de capitais, acarretará o efeito oposto de contração monetária, trazendo em seu núcleo uma provável recessão doméstica, à mercê da contração do crédito. Mais importante do que tudo, porém, é o fato de que a política monetária perde toda a eficácia e torna-se completamente passiva, dependente dos fluxos exógenos de capitais. O governo vê-se, portanto, privado de um importante grau de autonomia na condução da política econômica.

Já em um regime de câmbio flexível, o efeito de uma entrada maciça de capitais não se manifesta diretamente sobre a quantidade de moeda, mas, sim, sobre a própria taxa de câmbio. Inevitavelmente, nessas condições, o aumento da oferta de divisas estrangeiras levará a uma valorização do câmbio (isto é, ao aumento do valor da moeda nacional em referência à moeda estrangeira), com os reflexos já conhecidos em termos de perda de competitividade comercial do país receptor de capitais.

Um outro perigo ao qual freqüentemente, estamos sujeitos, é a súbita reversão de expectativas do mercado, possibilidade cada vez mais presente em vista da rápida transmissão de choques, permitida pela integração dos mercados financeiros. Em geral, portanto, a atual fase de globalização financeira faz com que os países emergentes se defrontem com dificuldades e vários problemas, como riscos de volatilidade cambial, de elevação de juros, de aumento do passivo interno, e de vulnerabilidade a choques externos.

Há um outro aspecto, porém, que talvez represente a síntese do novo cenário em que os governos das nações em desenvolvimento se vêem forçados a atuar. Trata-se do fato de que a integração dos mercados financeiros minou consideravelmente a eficácia dos instrumentos tradicionais de condução da economia. De fato, a política monetária não mais pode ser considerada à parte da política cambial. Quaisquer medidas domésticas que afetem os juros também afetarão os fluxos de capital e, por conseguinte, o câmbio.

Em contrapartida, quaisquer decisões sobre o câmbio limitarão o nível dos juros disponíveis para o governo. Por seu turno, decisões de política fiscal também exercerão influência direta sobre as expectativas de mercado e, em conseqüência, sobre o fluxo de capitais, acarretando, ainda, no caso de países com mercados de títulos de longo prazo, influência sobre o nível dos juros domésticos.

Concluindo, os governos perderam, vários graus de liberdade para este ente indefinido e misterioso, o chamado "mercado". Naturalmente, este debate encontra- se no início, suas consequências e os rumos que estão por vir, estender-se-ão no futuro, que caberá a nós contemplar e vivenciar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

:

GONÇALVES, Reinaldo [et al]. A nova economia internacional: uma perspectiva brasileira. Rio de Janeiro, Campus, 1998.

GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Quinhentos anos de periferia. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Editora da Universidade/UFRGS, 1999.

HALLIDAY, Fred. Repensando as relações internacionais. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1999.

OLIVEIRA, Odete Maria (coord.). Relações internacionais e globalização – grandes desafios. Ijuí: Unijuí, 1998.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

YONEKURA, Sandra Yuri. Globalização financeira: aspectos positivos e negativos. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 263, 27 mar. 2004. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/5006>. Acesso em: 23 set. 2014.


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