A indústria cultural e a indústria de armamentos operam em sentidos opostos, mas são complementares. No presente estágio da história da humanidade, o ocidente está bem melhor equipado que o oriente para fazer as duas coisas.

Ontem fui ao cinema ver este filme lançado em 2013. Por razões que ignoro ele somente começou a ser exibido no Kinoplex-Osasco recentemente.

A trama é singela. Durante a Idade Média inglesa um órfão se torna aprendiz de um prático meio picareta que pratica uma medicina rudimentar. Ele conhece um médico judeu que o informa sobre um grande mestre que pratica medicina na Pérsia. O jovem resolve se tornar aluno do mestre oriental. Fingindo ser judeu ele chega ao Oriente Médio e rapidamente ganha sua confiança do mestre e se torna seu discípulo.

Ibni-Sina, o grande médico persa, é adversário dos mulás locais e serve ao Xá, um autocrata que se coloca acima dos fanáticos religiosos e governa de maneira despótica. O Xá defende seu reino contra uma horda de nômades igualmente fanática, os seljúcidas. A peste negra é introduzida na cidade pelos seljúcidas depois que o Xá mata o emissário deles sem saber que ele é filho do líder do bando nomade.

O inglês aventureiro ajuda a cuidar dos doentes e sobrevive à peste negra. Junto com Ibni-Sina ele descobre que o mal é transmitido pela pulga do rato. Estudando a anatomia no cadáver de um paciente que praticava o zoroastrismo, o falso judeu descobre a cura para a apendicite (chamada de doença do lado, a mesma que matou sua mãe). Um conflito explode na cidade, pois os mulás culpam Ibni-Sina e sua ciência pelas tragédias que se abatem sobre o reino. O conflito é agravado em razão dos islâmicos descobrirem que o aprendiz judeu dissecou um cadáver. Os mulás julgam o aprendiz e Ibni-Sina, mas o Xá usa a força para impedir a execução de ambos.

A guerra externa se torna interna. Os mulás se unem ao seljúcidas para derrubar o Xá, que tem uma crise de apendicite e é operado pelo aprendiz de Ibni-Sina. No final, o Xá é derrotado no campo de batalha e o protagonista e vários judeus fogem da cidade para não serem morto pelos mulás fanáticos que a entregaram aos fanáticos seljúcidas. O inglês retorna à Inglaterra onde se estabelece como um grande médico.

A trama conduz o cinéfilo por um labirinto de conflitos. Nem todos os judeus são virtuosos. Nem todos os persas são repugnantes. Ibni-Sina é descrito como um colosso, mas não age com arrogância. O Xá é um tirano insensível, mas tolera os judeus e manda descer o sarrafo nos mulás quando é necessário. Os mulás e os seljúcidas, porém, são todos fanáticos e repugnantes.

É impossível deixar de notar que no filme em questão não há nenhum mulá ou seljúcida capaz de despertar algum tipo de empatia. Eles são a negação da civilização, os receptáculos de todo mal. Um mal que não pode ser contornado e que precisa ser combatido à qualquer custo. O cinéfilo é levado a odiar mulás e seljúcidas, pois eles representam exatamente o oposto que Ibni-Sina, seu discípulo inglês,  judeus,  persas e o Xá. Portanto, os mulás e seljúcidas do filme O Físico podem ser facilmente identificados com os milicianos do Estado Islâmico que se tornaram uma realidade jornalística para os brasileiros nos últimos meses. O que sabemos sobre os últimos: que eles são terroristas que executam prisioneiros deitados a tiros de fuzil e degolam pessoas na frente das câmeras de TV.

A imprensa nos faz odiar os milicianos do Estado Islâmico assim como o filme O Físico faz o cinéfilo odiar os mulás e os seljúcidas que foram caracterizados como veículos de todo o mal. A maioria dos cinéfilos não sabe ou sabe e não se importa muito com o que ocorreu no Oriente Médio nas últimas décadas. De filme em filme, de telejornal em telejornal, somos levados a encarar de maneira positiva os norte-americanos e tudo o que eles fazem.

Os nazistas também se esforçavam muito para construir uma imagem pública que os fizessem ser amados pelos alemães. Os norte-americanos parecem fazer o mesmo para serem amados em todas as Américas e na Europa. Quando se trata de política externa, porém, há uma brutal semelhança entre eles: o III Reich e a Casa Branca nunca hesitaram em bombardear inocentes por razões economicas dizendo agir por motivação humanitária.

O ódio é sempre irracional. Mas a irracionalidade pode ser alimentada através da imprensa e da arte (esta foi a grande lição aprendida e ensinada pelos nazistas alemães). E é exatamente isto que a imprensa ocidental e o cinema norte-americano tem feito, sempre com o propósito de legitimar as ações dos EUA onde quer que as tropas ou os espiões daquele país atuem. Eles estão atuando no Brasil neste momento para garantir um resultado eleitoral favorável à elite financeira dos EUA que pretende sucatear as Forças Armadas do Brasil para poder explorar livremente o pré-sal e devorar financeiramente Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDS?

Operação Ajax. Este foi o nome dado ao conjunto de truques e artimanhas políticas utilizadas pela CIA no Irã no princípio dos anos 1950 para derrubar o governo constitucional, tolerante, laico e moderadamente nacionalista de Mossadegh. No Iraque os norte-americanos não usaram luvas de pelica. Os vídeos liberados pelo Wikileakes provaram que os norte-americanos despedaçaram impiedosamente jornalistas, crianças e inocentes com milhares de tiros disparados por metralhadoras montadas em helicópteros. Qual é mesmo diferença entre os norte-americanos e os milicianos do Estado Islamico? Posso citar pelo menos duas importante: 1- os primeiros tem mais armas e matam a distância com eficácia industrial e os “outros” também matal só que numa escala menor e amadora; 2- ao contrário dos norte-americanos, os milicianos do Estado Islamico nunca foram e provavelmente nunca serão representados diariamente nos telejornais e nos filmes como sendo mocinhos virtuosos.

O século XI oriental é representado no filme O Físico com um certo anacronismo. Através deste filme, o cinéfilo é transportado para um passado distante de uma terra distante, mas paradoxalmente é levado a encontrar lá o mesmo tipo de dicotomia maniqueísta utilizada pela imprensa atualmente para construir uma realidade cotidiana pró-EUA. A história dos próprios seljúcidas é omitida não por uma razão estética, mas por uma necessidade ontológica: o que eles são para o filme (receptáculos de todo mal) não é exatamente o que eles foram para a história da civilização. Os seljúcidas construíram um império, o império deles teve seu apogeu e declínio legando coisas importantes à humanidade. Mas nada de positivo interessava aqueles que se esforçaram para construir uma imagem negativa dos mulás e dos seljúcidas no filme O Físico.

A agressão cultural ao Oriente Médio cometida pelo filme O Físico não se resume ao anacronismo maniqueísta acima referido. Ibni-Sina não se suicidou, nada indica que ele tenha sido ou seja odiado pelos mulás, numa de suas obras ele descreveu as válvulas do coração e seu legado foi conservado e divulgado pelos sultões seljúcidas.. Mas no filme, quem descreve as válvulas do coração é o aprendiz inglês travestido de judeu, os mulás odeiam Ibni-Sina, ele se suicida antes da conquista da cidade pelos seljúcidas, sua biblioteca é queimada e o que resta de sua obra é conservada porque foi levada para a Inglaterra pelo falso judeu. A enfase num papel positivo do Ocidente e numa suposta face obscura e negativa do Oriente, a apropriação da imagem de Ibni-Sina e sua reconstrução  ideológica com o desprezo pela História sugerem que O Fisico é um perfeito exemplo de obra orientalista (sobre o assunto consulte a resenha do livro Orientalismo de Edward Saidhttp://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/orientalismo-resenha-do-livro-de-edward-w-said ).

Só resta dizer uma coisa. No mundo real, sub-lunar, fenomênico, a agressão sempre precede a apropriação. O Iraque precisou ser bombardeado e invadido pelas tropas dos EUA para que os norte-americanos pudessem se apropriar da riqueza petrolífera daquele país (diretamente, mediante a concessão de áreas de exploração às empresas ocidentais; indiretamente através da reconstrução do país por empresas ocidentais pagas pelo novo Estado com os royalties arrecadados em razão da exploração de petróleo).

No plano cultural, ideológico, apropriação precede a agressão. Foi o que ocorreu no filme O Físico. A História da Pérsia e de Ibni-Sina, que pertencem a uma outra região, nação e população, foram remodeladas, estilizadas e distorcidas pelo escritor ocidental para atender à necessidade daqueles que desejam fazer os cinéfilos odiar algo (aquilo que o filme apresenta como “o mal”). A estilização, distorção e remodelação da história alheia constitui, sem dúvida alguma, uma agressão.

A indústria cultural e a indústria de armamentos operam em sentidos opostos, mas são complementares. No presente estágio da história da humanidade, o ocidente está bem melhor equipado que o oriente para fazer as duas coisas. É por isto que as agressões reais praticadas pelos EUA parecem ser sempre tão legítimas. Mas em algum momento a roda do mundo vai girar. E quando isto ocorrer a população norte-americana será agredida sem que a agressão desperte qualquer piedade nos outros povos, pois como diria Ibni-Sina "...está na potencia da sensibilidade tornar em ato o similar do sensível..." (De anima).



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

4

  • 0

    Rubens Mazzini Rodrigues

    O comentário do Matheus Berlofa Ferreira traz um questionamento interessante. De fato, epidemia de Peste Negra Europa ocorreu no século XIV. Mas a doença é bem mais antiga e foi descrita pela primeira vez pelo médico árabe Al-Razi (conhecido no ocidente como Rasis ou Rhazes) no século X. A chamada Peste Negra é causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida através da pulga do rato. Antes disso, a chamada peste Peste Justiniana, também causada pela Yersinia pestis, que ajudou na derrocada do Império Romano no império de Justiniano grassou no século V, matando milhões de pessoas. Nessa época a doença se espalhou também pela Síria, Europa e Ásia Menor (atual Turquia). Portanto, não é impossível que os Seujúcidas, que atacaram Isfahan, tivessem usado a técnica de introduzir a Peste na cidade. Os Mongóis também o faziam catapultando corpos de mortos pela doença para interior das muralhas de cidades sitiadas.Trata-se da mesma doença que causou várias epidemias e que recebeu nomes diferentes ao longo da história.

  • 0

    Matheus Berlofa Ferreira

    Ahh...e um anacronismo grave e que infelizmente também está no livro é a questão da peste negra: O livro/filme se passa no século XI, mas a peste negra ocorreu no século XIV. Acho totalmente sem sentido adiantar um acontecimento histórico em 300 anos só para acrescentar umas ações na história, ainda mais que, pelo menos no livro, nem se dá tanta atenção aos acontecimentos da peste negra: O que é mais um erro, pois em O Físico a Peste Negra dá a impressão de durar dois ou três meses (pelo menos no livro) e logo as pessoas param de morrer, enquanto que na vida real a peste negra teve um AUGE de pelo menos uns 2 anos embora trouxe efeitos, mesmo que em declinio, durante uns 5 anos. E as sociedades se reconstruiram completamente após a peste negra, reinos cairam e camponeses que passavam fome e sobreviveram à peste passaram a ter propriedades enormes e capacidade de cultivar frutas de primeira linha, por exemplo. Pelo menos no livro a peste negra dura menos, causa menos efeitos e acontece 300 anos antes do que na vida real

  • 0

    Matheus Berlofa Ferreira

    Triste então. Pois no livro, embora haja anacronismos e uma certa visão má dos mulás, é bem menos intenso pelo que tu fala do filme e muito é diferente: O Ibn Sina não é perseguido pelos mulás em momento algum do livro, nem judeus. O Ibn Sina não é nenhum gênio do futuro e tem seu conhecimentos científicos restritos pelas crenças religiosas tanto quanto qualquer outro personagem. o Ibn Sina não se mata e não há nenhuma cena em específico dizendo que seus livros foram queimados, e muito menos Rob leva algum, tirando um que havia comprado antes do fim da guerra, para a viagem de volta. E por fim, não se pode dizer que Rob se torna um médico de sucesso na Inglaterra, a Inglaterra é um poço de médicos ignorantes que trancam o desenvolvimento da carreira do Rob vindo de um lugar com conceitos mais desenvolvidos e a cabeça diferente. Vendo sua resenha cheguei a conclusão de que nem vale a pena perder meu tempo vendo o filme, valeu!

  • 1

    Paulo Alexandre

    Gostei muito de sua análise e até usarei seu texto com meus alunos (sou professor de história e também estudante de direito).

Livraria