O estudo problematiza casos de linchamentos urbanos a partir da perspectiva sociológica abordada por Zygmunt Bauman em sua obra Em Busca da Política.

O problema é que F. J era inocente! A frase foi repetida reiteradas vezes no mês de maio deste ano de 2014, inundando os periódicos impressos, os canais de televisão, as rodas dos bares e de vizinhos, a mídia nacional e internacional. F. J., dona de casa, 33 anos, foi brutal e publicamente assassinada, na presença de mais de 100 pessoas, ao ser confundida com o retrato falado de uma suposta sequestradora de crianças para prática de magia negra.

O linchamento de F.J. desencadeou narrativas fragmentadas, e a tragédia tomou proporções maiores mais pela descoberta da inocência da vítima, do que pela barbárie da prática adotada. Um dos suspeitos, o eletricista V. B., 48 anos, que desferiu golpes com pedaços de madeira sobre F.J., já amarrada e caída, explicou ao ser preso: ."Aconteceu e aconteceu. Não posso fazer mais nada. Eu também tenho filhos e o papo que rolava é que estavam matando crianças. Não sabia se ela era inocente ou não. A foto era idêntica (ao retrato falado)”.

 V.B não apresentou resistência à prisão. E disse que ficou “mal” ao saber que a dona de casa não tinha cometido o crime. Outro suspeito L.L., pedreiro, de 19 anos, que supostamente é identificado nos vídeos que circulam pela internet como aquele que passou com a bicicleta sobre a cabeça de F.J., justificou : “Diante da gritaria das pessoas que tinham reconhecido a mulher, não tive dúvidas de participar do tumulto".

Além deles, outros teriam participado ativamente das agressões físicas, praticadas sob os olhos de uma plateia de mais de 100 pessoas, vizinhos do bairro onde F.J. morava com seu marido e duas filhas, na periferia de Morrinhos, na cidade do Guarujá, São Paulo.

Comentando esses recentes acontecimentos, Eliane Brum, escritora, documentarista e jornalista brasileira, escreveu o artigo: “E se Fabiane Maria de Jesus fosse culpada?” (BRUM, 2014).

Brum focalizou a existência de um horror, “o linchamento”, e de outro horror por trás do horror, que denomina como “ a “exacerbação da inocência da vítima”. A repórter enfatiza o fato de não serem todas as pessoas que estiveram ali, as que teriam a coragem ou a iniciativa de pegar um pedaço de pau e iniciar um linchamento. No entanto, o permitiram e, ao final, participaram do grande o coro de pessoas que proclamaram “Era uma inocente”.

Mas é a inocência de F. J. que importa? Sobre isso, voltamos a Brum (2004), no artigo citado:

Mas talvez seja na exaltação da inocência que nossa violência se revele em sua face mais odiosa. O que pensamos ser luz, prova de nossa boa índole, é feito da matéria de nossas trevas mais íntimas. É a exacerbação da inocência que mostra o quanto nós – mesmo os que não lincham pessoas na rua – somos perigosos. E continua: e se ela fosse uma mulher que praticasse magia negra com crianças? Seu assassinato por um bando de pessoas na rua estaria justificado? Então alguém poderia agarrá-la, outro arrastá-la e um terceiro passar com a roda da bicicleta sobre a sua cabeça? É isso o que estamos dizendo quando nos espantamos mais com a inocência de Fabiane do que com o seu assassinato?

 O que unia aquele grupo de 100 pessoas que participou, quer ativa, quer passivamente do linchamento coletivo? Estavam em busca de algo mais além do cerco e da aniquilação de um inimigo público comum? Pessoas que em nenhum momento de sua vida demonstraram interesse na participação da vida pública ou tendências agressivas estavam ali agora unidas num propósito único?

 Evidentemente, haverá diferentes justificativas para os casos de linchamento ao longo do tempo, mas cuidaremos aqui, de uma perspectiva sociológica tratada por Zygmunt Bauman na obra Em Busca da Política.

Bauman (2000, p.11) identifica esses movimentos, ora de alegria, ou de compaixão, ora de ódio, como “oportunidades de extravasão”, surgidas em “festivais de compaixão”, “caridade” e às vezes “eclosões de agressão acumulada contra um inimigo público”.Para Bauman (2000, p.10), essas oportunidades de extravasão solidária são incentivadas no fato de estarem quebradas (ou não construídas) as pontes de comunicação entre as causas privadas e as causas públicas. Sem o espaço adequado, é impedida a tradução das demandas coletivas da sociedade, o que somente seria eficazmente realizada em locais apropriados ao debate. Sem essas pontes, a comunicação esporádica entre o privado e o público seria efetuada através de “balões” solitários, que teriam o alcance máximo de levar as agonias pessoais ao espaço público sem que essas agonias tivessem o potencial de alcançar o status de uma causa efetivamente pública .

Sabendo-se que o ser humano já nasce condenado a se relacionar com o outro, a falta dessas pontes sólidas para o exercício da tradução retira da sociedade dos indivíduos as condições para sua emancipação, para a busca de práticas transformadoras, consolidando um presente sem expectativas, num crescente desperdício de experiência. A ausência da crença em outras possibilidades de vida concentra o indivíduo na obtenção da segurança, sendo este, o único desejo que pode ser concretamente vislumbrado por esse indivíduo e ofertado pelo poder público. Não há campanha eleitoral que seja vitoriosa que não passe pela promessa de criação de prisões, aumento do efetivo de policiais, rigor nas fronteiras, redução de maioridade penal, combate ao crime e outras que parecem resumir o Estado à questão penal.

No entanto, o indivíduo pós-moderno vai também em busca de formas particulares de garantir a segurança por não acreditar mais na segurança por vir. É cada um por si. Se a sociedade falhou na reciclagem do lixo urbano, e não havendo fossos ou muros de proteção, esse lixo vai bater à sua porta e os indivíduos, enjaulados em sua possibilidade de liberdade privatizada, passam a frequentar “cursos de Karatê” (BAUMAN, 2000).

Na percepção de Bauman, esses rompantes de desejos comunitários, como o caso da dona de casa F.J. , que conseguem reunir centenas de pessoas no propósito de uma causa aparentemente comum, e que na maior parte das vezes têm seus contornos muito poucos definidos e compreensão absolutamente turva, pela inconsistência dos laços e pela falta concreta de uma demanda coletiva, desfazem-se com enorme rapidez.

Aqueles indivíduos, são solidão e multidão ao mesmo tempo. E passado o flash de união, cujo encontro, no caso específico, resultou num ato de barbárie, a massa de solitários retornará mais solitária ainda para o interior de suas residências.

 O que fazer? É que o Bauman (2000) nos indaga. Se a liberdade individual foi efetivamente conquistada, como explicar que entre os troféus da vitória não esteja a capacidade humana de imaginar um mundo melhor e de fazer algo para concretizá-lo? E que extensão de liberdade é essa que desestimula ou até mesmo aniquila a imaginação e tolera a impotência das pessoas livres em questões que dizem respeito a todos?

Embora não exista uma fórmula que indique o trajeto a ser perseguido, de como a humanidade pode resolver os problemas que a acometem, o enfrentamento desses questionamentos talvez possa favorecer o iniciar da construção de um saber clinico sobre a realidade (BOURDIEU, 2004. p. 17-42), e o refletir sobre uma nova possibilidade .

O julgamento e execução sumários de F. J. não têm sido fatos isolados. Nos cantos das cidades reiteram-se os relatos de mortes por linchamentos, ou agressões físicas coletivas. É certo que a violência em nossa sociedade sempre existiu, remontando ao brutal modelo de colonização, de escravização, que insiste persistir, às vezes de modo disfarçado, até os dias de hoje. Mas quais outros fatores podem estar levando multidões a participarem desses momentos comunitários de agressão, ainda que na condição de espectadores? A neutralidade e a privacidade da sociedade liberal se enredam com justificações pacifistas e com o discurso sobre a necessidade de acabar com a violência política tão virulentamente assentada na tradição moderna. Outrora, os “movimentos” violentos provinham de repressões estatais, o medo visível era da “bota do soldado prensando a cabeça do indivíduo”. Hoje se vivencia um medo que provém do privado e do indivíduo.

Ao analisar uma mobilização de indivíduos na porta da delegacia da cidade de Yeovil, onde se encontrava preso o pedófilo Sidney Cooke, Bauman (2000, p.17), citando consideração efetuada pela repórter do The Guardian, Decca Aitkenhead sobre o episódio, traz a tona algumas considerações. A primeira delas, o fato de não existir nada mais eficaz para levar as pessoas às ruas nos dias de hoje do que o boato de um pedófilo. E a segunda, relacionada à motivação desses protestos.

O que se indaga: teríamos condições de afirmar que a reunião dessas pessoas nesses “momentos solidários de agressão” têm efetivamente algo a ver com o desejo de aniquilação daquele indivíduo que foi concebido por todos como um suposto inimigo comum? Como responder positivamente se na maior parte desses “momentos”, alguns com práticas sacrificiais medievais, não se tem sequer a certeza, quiçá, um mínimo conhecimento, sobre os fatos que envolvem os supostos agressores? O que realmente pode motivar a união de pessoas, de todas as idades e credos, e que jamais manifestaram engajamento social, em torno de uma causa de contornos nebulosos? Há alguma outra motivação escondida na sombra do inimigo coletivo?

Ainda citando Aitkenhead, Bauman (2000) expressa seu sentimento: o que o pedófilo Cooke, e todas essas pessoas oferecem é uma das raras oportunidades de se odiar alguém em alto e bom som, e com a sensação de absoluta impunidade, exercícios no que resta de um sentimento comunitário.

No entanto, os indivíduos reunidos, que se auto investem de poderes na luta do bem contra o mal, por não terem suas atuações canalizadas por quaisquer instituições públicas e, portanto, não sendo legitimadas com o selo da causa pública, são intrusos, “gatunos”, que rondam o espaço público sem serem convidados (BAUMAN, 2000, p. 18). Os políticos, de quem se espera operarem “profissionalmente a causa pública”, raramente se veem preparados para se “defenderem da invasão dos intrusos” (BAUMAN, 2000, p. 19). A reação do poder público além de não ajudar na reconstrução da sociedade que grita, normalmente prejudica.

O que torna a atmosfera mais explosiva é que as causas se sucederão infinitamente, são válvulas de escape, infinitos medos públicos e pânicos morais (BAUMAN, 2000, p. 17-18).

Para Bauman, o que precisa ser retomado em nossa sociedade é a ágora (2000, p.92).

A tradição grega contemplou esse espaço intermediário entre a esfera privada doméstica (oikos) e a esfera pública política (a eclésia). Seu caráter híbrido e bicéfalo, nem público, nem privado e ao mesmo tempo, em parte público e privado, representa o espaço em que a comunidade tomava as decisões mais importantes (BAUMAN, 2000, p. 92).

Agnes Heller, em seus estudos sobre o cotidiano, ressalta que o comportamento global do ser humano é transformado quando se vê colocado diante do público, diante de seus olhos e diante de seu julgamento. Colocado frente ao público, esse homem se vê de forma mais intensa no dever de representar a sociedade, de dar o exemplo. Segundo Heller, ao soar o grito de “viva à pátria” no patíbulo, ou ao declarar no leito de morte seu legado moral à família reunida, ao ver proclamadas verdades pelo aluno em relação ao professor em sala de aula, esses atores superam-se a si mesmo, sob a luz do público. Assim como os próprios erros são melhores vistos diante do público. Isso porque, para Heller, “a presença da comunidade funciona como um catalisador” (HELLER, 2011, p. 119).

A questão é que o liberalismo que se expandiu com furor durante o século XX se incumbiu de aniquilar totalmente o espaço das comunidades. Há uma demanda escassa desses locais públicos/privados, sendo que, os poucos que sobrevivem, ficam a maior parte do tempo, vazios. Assim, as velhas ágoras foram desfeitas e as decisões mais importantes passam a ser tomadas fora dela e mesmo fora do espaço público politicamente institucionalizado. E aqui, nesses espaços despolitizados, as ansiedades e agonias individuais são levadas sob o pretexto de uma demanda comum, quando, na verdade, aquele grupo de pessoas nada mais representa do que um ajuntamento de amedrontados solitários (BAUMAN, 2010, p. 65-110 ) em busca de inimigos que possam ser comuns. No entanto, naquele amontoado de gente, cada um exerce um papel perante o grupo. Em suas mentes, não está presente a comunidade, e sim, suas agruras pessoais. E acabado o furor, todos retornarão a suas casas, tão ou mais amedrontados que antes. E o que estiver sido feito, estará feito.

Escreve Heller: "Nesse caso, o homem em público representa um papel, um papel em sentido literal, 'dá seu espetáculo', expressa opiniões, estados de espírito, julgamentos etc., que talvez nada tenham em comum com os que lhe são próprios (2011, p. 120).Em Bauman (2000), enquanto esse exercício de tradução não conseguir alçar ao estágio das pontes, as únicas queixas veiculadas em público não se convertem em questões públicas, tampouco se condensam em causas comuns só pelo fato de estarem em exibição pública.

No signo do neoliberalismo, a comunidade é tida como inimiga de um projeto de autonomia sem concessões e de uma liberdade individual soberana. Essa proposta é o núcleo central do ideário neoliberal. No entanto, as ânsias de privatização e de despolitização do credo neoliberal, amparadas num concreto argumento de neutralidade, trazem contradições ao próprio projeto que preconiza, na medida em que apesentam propósitos diversos dos proclamados, permitindo uma politização de outras esferas da vida, como o mercado, deixando ao desamparo a materialidade da vida do sujeito, as possibilidades políticas da eclésia e a as condições de existência da ágora (BRINGAS, 2004).

A alegada neutralidade idealizada pelo neoliberalismo se contradiz a partir da constatação de que em verdade o que se procura é construir politicamente o contrário do que se propõe. A liberdade e autonomia que são invocadas para a privatização da vida acabam por se converter num projeto público coercitivo, esvaziando a potencialidade e riqueza que têm como direitos: o direito de liberdade, enquanto expressão abstrata dos direitos civis e políticos, se transforma num modo de entender os direitos num sentido único e fechado, hierarquizados em níveis com distintas gradações morais, respondendo assim às máximas do imaginário liberal. O direito de liberdade, expressão, associação, pensamento, adquire proporções ilimitadas.

Há um paradoxo, uma vez que enquanto a retórica da liberdade adquire um volume e elasticidade inesperados, as consciências individuais se veem aturdidas pelas poucas oportunidades em que se pode exercer a esperada liberdade. Como exercer com essa liberdade, uma liberdade de ação real e concreta? A dificuldade é inerente à natureza e estrutura de toda a proposta liberal. A privatização da vida leva consigo a privação da liberdade com sua concreção social e normativa. Portanto, a tão falada ilimitada autonomia proposta pelo projeto neoliberal alcança, no máximo, a uma pequena elite privada, que é fruto e resultado de toda uma política de privatização vinculada com unhas e dentes aos pressupostos liberais de liberdade e autonomia, fundamentos reduzidos de compreensão dos direitos civis e políticos.

A privatização da liberdade e o enfraquecimento da política tem importado numa mudança de paradigma, e a ágora segue assediada: ou pelo totalitarismo, ou pelo setor privado. O que antes era considerado um local destinado aos eventos de natureza coletiva, relativos a fenômenos que não poderiam ser invocados na esfera privada, hoje é o espaço onde os particulares expõe seus interesses particulares (BAUMAN, 2000, p. 92-95).

É o que Thomas Mathiesen denominou sinóptico em substituição ao panóptico. Não se trata, como no Estado panóptico, de controlar o privado disciplinarmente para submetê-lo ao público (FOUCAULT, 2002). Trata-se de ingressar todo o público no sentido privado de vida e existência, no grande bazar em que hoje mora e reside o indivíduo (MATHIESEM,1997, p.182). A sociedade do espetáculo!Nos dias atuais não há mais necessidade de investimento em ferramentas de vigilância do privado. Exacerbada a liberdade individual, o privado, a intimidade é que se abre, nas redes sociais, nos talk shows. Se outrora poucos vigiavam muitos, na sociedade sinóptica, são muitos (os indivíduos) que querem ser vigiados e vigiar os poucos (as personalidades). Esta é a lógica das redes sociais (BAUMAN, 2010, p. 105). Tudo é voluntariamente visto, filmado e publicado.

Bauman reconhece que esses movimentos podem parecer algo que nos remeta à velha ágora. No entanto, nesses ambientes não se está discutindo o bem estar da sociedade, não se está debatendo sobre o que necessita ser feito para abolir, reparar os problemas sofridos pela coletividade. Há apenas confissão de questões pessoais muitas íntimas. A matéria trazida ao ambiente público passa a ser o que desperta a curiosidade pública.

É o começo da revolução pós-moderna, na concepção de Bauman (2000), eis que as pessoas começam a confessar publicamente aquilo que outrora era a personificação da máxima intimidade, algo que somente era confidenciado ao padre, no confessionário, ou ao amigo mais íntimo. Aqui, a ágora não foi invadida propriamente pelo totalitarismo, mas especificamente pela privacidade, pela exacerbação do conceito de liberdade individual de expressão. Há câmeras no confessionário, instaladas não pelo Estado, mas pelo próprio indivíduo.

À falta de virtudes públicas a serem copiadas, à falta de agentes públicos tradicionais com capacidade de ação eficaz, os indivíduos buscam modelos de vida pessoais para seguir, sem perspectiva de mudança do que já está posto. Num paralelo à teoria de Fukuyama (1992), é o fim da história. A melhor representação ao sinóptico é assim, a figura do super-homem, com seus superpoderes. Longe de ser um revolucionário, o super-homem devolve a ordem posta à sociedade que vive no medo, não enunciando outra alternativa, senão lutar para a manutenção do status quo (BAUMAN, 2000, p. 106). E o super-homem não está no Estado, não pertence à política, não discute as condições de vida da comunidade que protege, tampouco propõe mudanças que possam proporcionar a diminuição da desigualdade ou da pobreza. Este super-homem, focado num EU personificado, e que despido de sua capa e das luzes do espaço público volta à solidão de sua condição de homem comum, persegue, detém e aniquila inimigos, assim eleitos como tal pelo clamor da sociedade, das redes sociais e, muitas vezes, por ele próprio. E seus atos, são sempre seguidos de aplausos públicos e de legitimação pela sociedade. O Estado, que não deu conta de resolver os problemas de base que desencadeiam o estado de incerteza e insegurança, acaba por validar, em discursos ideológicos sombrios, a atuação deste indivíduo em prol da segurança.

Então o problema era que F.J era inocente?

Eis que novamente surge Brum. A exacerbação da inocência de F.J. denuncia que o motivo da comoção pública ao linchamento se deu unicamente pelo fato de se estar diante de um inocente.

Como ressaltado pela pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Ariadne Natal, autora de tese sobre casos de justiçamentos sumários ocorridos na cidade de São Paulo e região metropolitana, entre 1980 e 2009, “Qualquer pessoa que tenha participado do linchamento da Fabiane vai dizer que tinha certeza de que a dona de casa era o mal encarnado [...]”, “Que era preciso linchá-la para expiar o mal que atribuíam a ela. Ou seja, estão equivocadas ao acreditarem fazer justiça, mas não estão agindo irracionalmente” (RODRIGUES, 2014). E qual é a racionalidade?

A construção de Brum, quanto a um “horror” do “horror”, reproduz com maestria no que o discurso dos Direitos Humanos vem se transformando: numa agressão comunitária legitimadora da violação dos direitos humanos daqueles que “supostamente” os violam. O suposto “violador” é transformado, do dia para a noite, pela indústria do medo, num mostro, em uma besta selvagem que deve ser aniquilada sem que haja o mais mínimo questionamento. Perde o caráter do humano.

Consciente de que a vida é a fonte de todo critério e valor, o neoliberalismo converte em verdadeira vocação política a apropriação da vida, submetendo-a, usufruindo-a, rentabilizando-a, para o que se faz, necessário, primeiramente, a criação de mitos e inimigos comuns e hostis. Se existem inimigos, o recurso da guerra é necessário. E assim, planta-se a comoção pela “guerra justa”. Moldam-se as formas jurídicas como suportes ao seu próprio projeto e, em concreto, interpretam-se os direitos humanos segundo a leitura de suas próprias proposições.

A questão, diz Bauman (2000, p. 22), é que a retirada da eclésia da ágora, a apatia da política que sucumbiu frente à força do mercado neoliberal, a desagregação do espaço público e a privatização da liberdade, focada que está, no indivíduo, limitou a agenda política à questão da segurança, já que o mundo contemporâneo “é um recipiente cheio até a borda de medo e frustração à solta que buscam desesperadamente válvulas de escape”. A apatia politica frente às forças do mercado, a ausência de poder sobre a agenda econômica, transfere a agenda politica para as práticas que assegurem a manutenção de seus representantes em seus cargos. E a segurança é uma delas.

Aqui entramos no que Bauman trata como a economia política das incertezas, concepção que reflete o novo altar na qual está enraizada a política, e a nova avenida através da qual passará a economia. Essa nova etapa abriu caminhada para a economia como eixo de articulação para o último exercício da ação política, e não para um programa apolítico e anônimo como o liberalismo inicial proclamava. A trindade neoliberal se revela em forma de desregulamentação, flexibilização e não intervenção, que bloqueiam e descontroem os anteriores modelos de ação política, e propõem um novo modelo, com senhas e identidades próprias: a política como expectativa privada e doméstica. Trata-se de quebrar e anular todos os freios e barreiras, controles e regulamentações que impedem o livre fluxo do capital. Precarizar o trabalho, fragmentar as instituições coletivas, aniquiliar os vínculos de solidaridade. Vive-sem em plenitude os sofrimentos humanos, bem reproduzidos na palavra alemã Unsicherheit, que reúne a um só tempo o tríplice veneno da insegurança, incerteza e instabilidade (BAUMAN, 2000, p. 164). Não há mais garantias, não há certezas, não há segurança. E neste contexto, “quando o estado reconhece a prioridade e superioridade das leis do mercado sobre as leis da pólis, o cidadão transforma-se em consumidor” (BAUMAN, 2010, p. 157-159).

Essa politica é favorável aos negócios.

A compreensão da sociedade neoliberal e seus problemas passa, inevitavelmente, pelo mistério da mercadoria (ALMEIDA, 2006, p. 60). A essência da estrtura da mercadoria se baseia no fato das relações entre as pessoas tomar o caráter de uma coisa, assumindo uma “objetividade fantasmagórica” que, “em sua legalidade própria [...], rigorosa, aparentemente racional e inteiramente fechada, oculta todo traço de sua essência fundamental: a relação entre os homens” (LUKÁCS, 2003, p. 171). Assim, a mercadoria, célula mãe da sociedade capitalista, torna-se a medida do mundo.

A pós-modernidade traz uma funcionalização e formalização da liberdade, que ao separar-se da carnalidade que lhe outorga sua ontologia, a vida, acaba por estabelecer uma grande fissura e um grande abismo entre as necessidades do sujeito e o projeto político neoliberal calcado na suficiência espiritual do indivíduo. Isso resulta, inclusive, no paradoxo da admissão do sacrificio de vidas humanas se com essa prática se cumprem os dogmas propagados pelo neoliberalismo. Estamos diante do tratamento biopolítico da vida, desenvolvido por Foucault : “Os instrumentos que o governo se dará para obter esses fins [atendimento as necessidades e desejos da população] que são, de algum modo, imanentes ao campo da população, serão essencialmente a população sobre o qual ele age” (1978, p. 277-293).

Carl Schmitt (2001) supõe que expressões tão politizadas como luta, soberania, critica, hegemonia, poder, sociedade civil, direitos humanos e o que constitui, para ele, o coração e a essência da política – a estruturação de toda a prática política em torno da relação amigo/inimigo – desaparecem da receita liberal. Em seu lugar irrompe uma gama de medidas e programas que proclamam o reinado da liberdade do individuo como fonte de todo o valor e possibilidade, temperada com neutralidade, privacidade e apoliticidade. No entanto, essa despolitização liberal tem um sentido profundamente politico, ou seja, a politica do individualismo possessivo. Não se trata de liquidar a figura do individuo nem seu marco social de possibilidades e vivências, mas sim recuperar um senso socializante na politica no âmbito das decisões do individuo. Mostrar que a realização individual e a realização social não são questões antagônicas: são questões que necessariamente deverão completar-se, o verso e o reverso de um mesmo processo. O desenvolvimento da liberdade do indivíduo num necessário local onde se desenvolvam as liberdades coletivas, num processo emancipador.

Não se trata igualmente de frear o desenvolvimento da liberdade do individuo aqui entendida como o direito a não interferência em seu âmbito soberano de decisões. Porém, paralelamente e complementarmente a esse direito de liberdade deve ser possibilitado, de uma maneira republicana, exercitar o direito de cidadania e de interferir na vida pública da pólis, e na construção das condições para que o sujeito promova uma história emancipada e livre de alienações. É permitir que o indivíduo possa se autolimitar, libertando-se quer da ditadura das necessidades imposta por um estado totalitário, quer da ditadura do mercado.

Recorre-se à crítica de Marx ao assinalar que o grande mal do liberalismo é a completa separação entre a sociedade civil (âmbito privado) e o Estado (âmbito publico). Essa dicotomia fundante do liberalismo se traduz e se concretiza na privatização da liberdade individual, na tirania do indivíduo frente à comunidade e na desconstrução da política por sua futilidade. Para isso promove uma “politização” da sociedade civil através de um discurso de uma necessária despolitização social e desaparecimento do Estado, ao passo que as relações sociais são os pressupostos para o exercício da liberdade individual (GALLARDO, 2000, p. 234-236).

BAUMAN (2000, p. 15) utiliza o bisturi crítico ao afirmar que não há possibilidade de exercício de liberdade individual a não ser através da garantia da liberdade coletiva. No entanto, o fluxo caminha para a privatização dos meios a assegurar a liberdade individual, no melhor estilo “salve-se quem puder”. O indivíduo, originalmente social e comunitário, transita à condição de indivíduo isolado, à condição de um mero ser corporal vivente.

Mas o problema, como ressalta Bauman (2000, p. 183), é saber “onde a faca da ação política pode ser usada com maior eficácia”. Recorrendo a uma metáfora, Bauman exemplifica: é como se estivessemos dentro do avião e de uma hora para outra descobrissemos que a voz que vinha da cabine não era do piloto e sim, uma gravação. A cabine está vazia. E questão não é só saber o que fazer, mas QUEM, poderá fazer? QUEM poderá assumir a direção?


REFERÊNCIAS

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BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Em busca da política. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

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CAMPANHA, Diógenes. Não sabia se ela era inocente diz eletricista preso em Guarujá. Folha de São Paulo, São Paulo, 06 mai. 2014. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/05/1450459-nao-sabia-se-ela-era-inocente-diz-eletricista-preso-em-guaruja.shtml. Acesso em 15 de out. 2014.

FOUCAULT, Michel . Microfísica do poder. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

_____ Vigiar e Punir (trad. Raquel Ramalhete). 28ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

FUKUYAMA, Yoshihiro Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

GALLARDO, Helio. Política y transformactión social. Discusión sobre derechos humanos. Quito, Ecuador : Escuela de Formación de Laicos y Laicas : Servicio Paz y Justicia (SERPAJ), 2000.

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MATHIESEN, Thomas. The viewer society: Michael Foucault´s Panopticon. Theoretical Criminology, 1997, pp 215-234. Disponível em http://tcr.sagepub.com/content/1/2/215.short?rss=1&ssource=mfc. Acesso em 15 out. 2014.

RODRIGUES, Alex. Linchamentos não são aleatórios e atingem mais pobres, defende pesquisadora. Agência Brasil, Brasília, 06 mai. 2014. Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-05/linchamentos-nao-sao-irracionais. Acesso em 13/10/2014.

SCHMITT, Carl. El concepto de la política. In: AGUILAR, Héctor Orestes (org.) Carl Schmitt teólogo de la política. México: Fondo de Cultura Económica, 2001.


Autor

  • Ana Paula Rodrigues Luz Faria

    Master en Teoría Crítica en Derechos Humanos da Universidade Pablo De Olavide ( Sevilha, Espanha), Pós graduada em Direito Público pela Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte, MG. Mestranda em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitória- FDV; Membro do Grupo de Estudo Pesquisa e Extensão em Direito à Saúde, Políticas Públicas e Bioética (Biogepe).

    Textos publicados pelo autor


Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

FARIA, Ana Paula Rodrigues Luz. O problema é a inocência da vítima? A tirania do medo e a busca pelo espaço coletivo: das conectividades sociais à barbárie na perspectiva de Zygmunt Bauman. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4356, 5 jun. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/34246>. Acesso em: 18 jul. 2018.

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