A imprensa está desfigurando o instituto da delação premiada para utilizá-la como arma de destruição partidária.

Ao narrar a primeira revolta de escravos em Roma, Tito Lívio (Ab Urbe Condita Libri) afirma que para a felicidade de patrícios e plebeus a sedição foi denunciada “...por dois de seus cúmplices, os culpados foram detidos e castigados.” Segundo Tito Lívio os delatores "... receberam do erário público dez mil asses pesados cada um, o que representava na época uma fortuna, e ainda a liberdade, como prêmio.” Durante e logo após a sedição as relações entre patrícios e plebeus se pacificariam por algum tempo. Afinal, os escravos representavam um perigo comum para todos os romanos livres, obrigando patrícios e plebeus a se unirem contra este inimigo comum interno.

O episódio destacado prova que a delação premiada remonta aos primórdios da República de Roma.  Atualmente o instituto tem sido muito utilizado no Brasil, especialmente para desmontar imensas redes de corrupção ligando interesses privados e públicos. O instituto de Direito Penal moderno permite que o delator seja beneficiado caso ajude o Estado a perseguir e punir outros culpados por atos igualmente criminosos. Sua eficiência judiciária é discutível, pois as palavras do delator não são suficientes para incriminar ninguém e apenas fornecem ao Ministério Público indicações para futuras investigações que liguem os delatados aos crimes que lhes foram atribuídos.

Os efeitos jornalísticos da delação premiada, porém, são evidentes e puderam ser vistos nas últimas eleições. Com o intuito de prejudicar uma candidata (Dilma Rousseff) e beneficiar seu adversário (Aécio Neves), os jornalões, revistinhas e telejornais eleitoralmente teleguiados pela oposição transformaram em fato inquestionável acusações feitas contra petistas e que ainda devem ser apuradas. Não só isto, os veículos de comunicação omitiram deliberadamente que diversos tucanos (e até o próprio Aécio Neves) podem ter sido beneficiados pelos esquemas de corrupção que prejudicaram a Petrobras e beneficiaram diversos partidos políticos (o PSDB entre os tais). O PT era sempre citado pela imprensa como principal beneficiário da corrupção. As informações prestadas pelo delator sugerem que o PSDB também se beneficiou do esquema delitivo, mas aquele partido foi poupado dos ataques jornalísticos durante as eleições.

A delação premiada está se transformando rapidamente num prêmio eleitoral para a imprensa e para a oposição aos governos petistas. Usando cirurgicamente as informações fornecidas pelos delatores, vazadas pro policiais federais, editando os depoimentos, omitindo informações relevantes e transformando em criminosos aqueles que deveriam ser considerados apenas suspeitos, a imprensa usa a deleção premiada como uma arma de destruição partidária. A vítima é quase sempre o PT e os petistas. Os líderes da oposição que foram igualmente delatados raramente são cruelmente molestados pelos jornalistas.

Os direitos atribuídos ao PT pela legislação eleitoral são desprezados. Os direitos da personalidade atribuídos aos petistas pela CF/88 e pelas convenções internacionais de direitos humanos têm sido sistematicamente pisoteados. Contrariando o que Tito Lívio disse em outro fragmento de seu magnífico seu livro (“...os vencidos deviam submeter-se às condições que lhes fossem impostas e não tinham o direito de ditá-las...” ), os tucanos foram derrotados e querem governar, querem impor ao governo Dilma Rousseff um programa econômico neoliberal que acarretará desemprego, redução de direitos trabalhistas e destruição dos programas sociais.

É evidente que a imprensa trata o PT como um partido ilegal e que os jornalistas consideram os petistas tão perigosos quanto aqueles escravos romanos que uniram patrícios e plebeus durante a revolta narrada por Tito Lívio. Cabe ao PT e aos petistas defenderem seus direitos, caso contrário eles terão o mesmo fim que aqueles escravos romanos rebelados. Uns foram destruídos pela delação premiada e outros o serão através da premiação jornalística de alguns delatados. 



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