Os arautos do neoliberalismo não querem apenas se apropriar da Petrobras, eles querem destruir o capitalismo.

Os reservatórios da Sabesp estão quase vazios. De fato, desde 2004 a empresa deveria ter feito e não fez obras para impedir a crise hídrica. A qualidade da água distribuída piora à medida que o volume morto vai chegando ao fim. Em alguns bairros de São Paulo o único produto distribuído pela empresa se tornou raro, em outros bairros a Sabesp cobra caro para distribuir ar obrigando os consumidores a fecharem seus registros.

A Petrobras explora diversos campos petrolíferos que ainda não foram esgotados. A empresa tem condições técnicas e financeiras para explorar muitos outros que foram localizados e que valem vários trilhões de dólares. Os lucros da Petrobras são dezenas de vezes maiores que os da Sabesp.

Apesar da situação real destas empresas ser muito diferente (a Sabesp deixou esgotar a água que distribui, a Petrobras seguirá explorando imensas jazidas de petróleo descobertas), as ações da Sabesp estão valorizadas e as da Petrobras desvalorizadas. Esta discrepância entre a potencialidade econômica das empresas e a apreciação de suas ações não pode ser explicada com base na teoria da mão invisível. Afinal, segundo Adam Smith o mercado deveria equilibrar naturalmente as relações econômicas, reduzindo o preço das coisas sem valor e valorizando o preço daquelas que sempre serão valiosas.

É evidente que quem tem ações de uma empresa que não vale nada não quer vendê-las pelo seu real valor de mercado. Isto não seria lucrativo. Também não seria muito lucrativo comprar ações de uma empresa valiosa enquanto as mesmas estiverem valorizadas.

O mercado, que supostamente é livre e que deveria ajustar o valor das ações da Sabesp e da Petrobras levando em conta o valor real das empresas, fez exatamente o oposto. Estamos diante de um paradoxo: o capitalismo não funciona segundo os princípios capitalistas definidos por Adam Smith. Em razão do que está ocorrendo, devemos concluir que existem agentes econômicos privados, internos e internacionais, dotados de poder suficiente para amarrar a mão invisível do mercado com o intuito de desequilibrar os preços das ações das empresas (valorizando as ações de uma companhia sem valor e desvalorizando as de uma empresa extremamente valiosa). Os interesses do mercado, que pressupõe a livre formação dos preços com base na concorrência livre e saudável, não são levados em conta quando há predomínio avassalador de um ou de alguns agentes econômicos.

Os neoliberais e seus "canetas" na imprensa chamam este desequilíbrio de "exuberante irracionalidade do mercado". Este pseudo princípio econômico parte de um pressuposto errado: não há mercado se a formação do preço não é determinada por relações livres num ambiente de concorrência. Se alguns agentes econômicos são capazes de produzir prejuízo a outros para maximizar seus lucros estamos diante de uma verdadeira tirania financeira.

A única solução para corrigir os desequilíbrios impostos ao mercado pela tirania financeira é o fortalecimento do Estado. Afinal, o Estado é o único agente econômico que tem muito mais poder econômico e político do que cada um dos agentes privados isoladamente considerados. Militarmente, apenas o Estado está em condições de se impor dentro do seu território. Ele não deve abdicar de suas funções regulatórias, caso contrário os atores financeiros com maior poder econômico atacarão as empresas valiosas como se fossem tubarões famintos diante do último cardume de baleias feridas. Cada qual querendo devorar a maior quantidade de carne no menor espaço de tempo conseguiria apenas um resultado: a extinção de seu próprio alimento.

O verdadeiro Papai Noel do capitalismo é o Estado que limita o poder dos poderosos agentes financeiros, impedindo que os próprios capitalistas destruam o capitalismo (como tem sido feito até o presente momento no Brasil).



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