Apesar de permitir a circulação de muita bobagem, a rede social criada por Mark E. Zuckerberg sugere discussões importantes que interessam aos cidadãos.

Há muita bobagem circulando no Facebook, mas a rede social criada por Mark E. Zuckerberg  tem pelo menos uma virtude: proporcionar aos usuários um panorama do jornalismo mundial sem que cada qual precise abrir os websites de cada jornal no início do dia.

Hoje por exemplo tomei conhecimento das duas notícias abaixo através do Facebook:

http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/2015/01/garotas-sao-apreendidas-por-usarem-blusas-com-estampa-de-maconha.html

http://rt.com/news/224295-german-police-petty-crimes/

Ambas se referem ao mesmo fenômeno: a atividade policial. Enquanto no Brasil os policiais efetuaram a prisão de meninas usando camisetas com estampa de maconha, na Alemanha se afirma que os casos menos importantes (inclusive envolvendo o uso de drogas leves) não devem ser objeto de preocupação policial.

A obsessão das PMs brasileiras com drogas é um fato trágico evidenciado pela notícia do G1. Não há qualquer Lei proibindo o uso camisetas com estampas de maconha. Se houvesse, crime mais grave teria sido cometido o industrial que fabricou o tecido e o que manufaturou a camiseta ou importou produto. O comerciante que vendeu as camisetas, a julgar pelo imaginário dos policiais que efetuaram as prisões, deveria ter sido algemado e jogado no fundo de um camburão sob intensa cobertura jornalística.

Na Alemanha a polícia se desembaraça de casos irrelevantes (como este referente à prisão de pessoas usando camisetas não proibidas) para cuidar de casos mais importantes que dizem respeito à preservação da paz pública e da segurança da população. No Brasil a apreensão de 450 Kg de cocaína num helicóptero não resultou nem em processo criminal. O material apreendido pelos policiais será devolvido ao seu proprietário sem que ele precise temer qualquer represália?

O caso da camiseta que supostamente faz apologia da maconha é exemplar. Sua usuária foi presa porque estava vestida. Se tirasse a camiseta não poderia ser detida já que não a estava usando. Mas neste caso, despida em público, ela correria o risco de ser autuada em flagrante delito por atentado ao pudor. Resumindo: o que quer que a pessoa faça num caso como este é irrelevante, pois a PM a tratará como criminosa. A mera suspeita de que ocorreu um crime equivale ao crime porque o que está em questão durante a atividade policial não é a conduta do cidadão, mas a situação sócio-econômica da vítima do abuso policial. Duvido muito que aqueles mesmos policiais efetuassem a prisão de uma celebridade com camiseta semelhante.

A atividade policial é um dever do Estado. Os cidadãos (sem distinção de cor, raça, credo, sexo, idade, condição social, etc...) tem direito à segurança pública, sem a qual a vida em sociedade e o desenvolvimento humano, cultural e econômico não podem ser alcançados. Estados falidos são, sem dúvida alguma, aqueles que não protegem seus cidadãos. Os Estados que abusam sistematicamente dos cidadãos são tirânicos. O Brasil é uma democracia, mas os policiais parecem querer transformar nosso território num imenso Gulag onde algumas pessoas (as em situação sócio-econômica mais fragilizada) podem sofrer abusos policiais até por causa de suas roupas.

De que tipo de atividade policial a sociedade brasileira precisa? De uma polícia cuide com rigor e dentro da Lei dos casos mais importantes ou de uma que fica prendendo jovens que usam camisetas não proibidas? Esta foram,  enfim, as perguntas sugeridas pelas matérias compartilhadas na minha linha do tempo no Facebook hoje. 



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