Precisamos mergulhar na nossa cultura para não nos afogarmos na sua mediocridade.

A expressão “Sabe com quem você está falando?” é bastante usada no Brasil. Aqueles que querem se distinguir da população em geral (que acintosamente chamam de massa ignaraou de tigrada) costumam usar a mesma para tentar calar a boca das pessoas que consideram subalternas. É difícil dizer quando e onde especificamente esta pergunta retórica, que pressupõe distinções sociais e relações assimétricas, foi usada pela primeira vez. Talvez uma expressão semelhante tenha sido trazida de Portugal e adaptada ao contexto social que foi se desenvolvendo na Colônia à medida que a mesma ia sendo desbravada, ocupada e explorada mediante o extermínio de índios e a brutalização de negros-coisas.

Muitos de nós já nos deparamos com situações em que “Sabe com quem você está falando?” foi usada para nos humilhar. E alguns dos leitores deste texto provavelmente já utilizaram ou foram tentados a usar esta expressão para colocar alguém no seu devido lugar, como se uns tivessem o direito natural de se colocar em posição superior e dominante e outros pudessem ser rebaixados. No fundo, toda vez que esta expressão é usada no Brasil estamos diante do eco distante de uma tropa de bandeirantes invadindo uma maloca para matar e aprisionar índios ou de um Capitão do Mato chicoteando um negro-coisa diante do senhor da Casa Grande.

O uso desta ferramenta linguística que hierarquiza o diálogo e separa os interlecutores verticalmente não está presente somente em nossa cultura. Ela pode ser vista e consumida através do cinema norte-americano.

No filme O Senhor da Guerra (1965) há uma cena em que Draco, o irmão de Chrysagon de la Cruex, discute com o padre num salão da Torre. Ele tenta calar a boca do religioso dizendo que é um cavalheiro e o padre replica dizendo que sabe escrever cartas. Cada um a seu modo lança mão de versões distintas do bordão  “Sabe com quem você está falando?”para encurralar o oponente: https://www.youtube.com/watch?v=9P8t0Bk5_Yo .

Em Tróia (2004), o herói Aquiles tem uma séria altercação verbal com o rei Agamemnon por causa de Briseis, uma jovem troiana que foi feita prisioneira. Agamemnon diz que a história lembra dos reis e que apenas os nomes dos reis são gravados na pedra. Aquiles afirma que os reis estavam distantes da batalha que foi vencida pelos soldados:https://www.youtube.com/watch?v=QHhXSTSWXi0 . Neste caso também cada interlocutor hierarquiza o mundo levando em conta sua própria régua e a usa para agredir o oponente.

Citei estes dois casos porque eles emblemáticos. Pessoalmente, estou convencido de que ambos não passam de meras projeções do presente no passado. Os diálogos foram construídos para dar a impressão de que os personagens poderiam lançar mão de variações do famoso  “Sabe com quem você está falando?” na Antiguidade e na Idade Média. Em ambos os casos, porém, seria bem improvável que algo parecido ocorresse.

Mesmo sendo rei em sua ilha, Aquiles não ousaria desafiar abertamente Agamemnon, líder de um vasto exército que poderia sem dificuldade alguma mandar cortar a cabeça dele. Durante a Idade Média o cavalheiro que desafiasse um clérigo correria o risco de ser excomungado, perdendo em razão disto todos os seus privilégios, propriedades e, dependendo da gravidade do incidente, a própria vida.

Apesar de estar impregnado de ecos do passado colonial brasileiro e norte-americano “Sabe com quem você está falando?” é um fenômeno do presente. Fruto talvez de algum recalque. Seu uso não deve causar apenas indignação. Deve também causar riso e até comiseração.

Desde a Revolução Francesa todos os homens são iguais perante a Lei sem qualquer distinção. Ninguém pode ser rebaixado ou almejar superioridade sem que isto produza resultados desagradáveis (ações de indenização e processos criminais por ofensas contra a honra). A hierarquia pressuposta na expressão “Sabe com quem você está falando?”  é, portanto, uma miragem produzida pelas diferenças econômicas que levam os ricos a acreditarem que merecem melhor tratamento do que os demais (muito embora eles não possam exigir isto em virtude do princípio jurídico que iguala todos os homens perante a Lei).

Aqueles que costumam dizer “Sabe com quem você está falando?” de fato não sabem o que falam, não sabem com quem falam e provavelmente falariam de maneira diferente se soubessem as consequencias do que estão falando.



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