Resenha crítica do livro de Julian Assange.

A leitura deste livro publicado pela Boitempo é leve e agradável. A tarefa de refletir e resenhar a obra nem tanto. O livro é composto por alguns artigos escritos por Assange e pela transcrição da conversa informal que ele teve com Eric Schimit, Jared Cohen, Lisa Shields e Scott Malcomson. A discussão entre estes dois jogadores que atuam no “campo virtual” envereda por diversos caminhos. Eles discutiram sobre questões tecnológicas, economia, política e arriscaram palpites sobre o futuro.

A revelação por Edward Snowden da espionagem em massa feita pela NSA com ajuda da Google, Windows, Facebook e outras empresas de tecnologia, que resultou em iniciativas diplomáticas importantes do Brasil e da Alemanha, prova que o futuro não pode ser previsto. Como já disse Hannah Arendt:

"A falha lógica nessas construções hipotéticas dos eventos futuros é sempre a mesma: aquilo que antes aparece como uma simples hipótese - com ou sem as suas consequentes alternativas, conforme o grau de sofisticação - torna-se imediatamente, em geral após alguns poucos parágrafos, um 'fato', o qual, então, origina toda uma corrente de não-fatos similares, daí resultando que o caráter puramente especulativo de toda empreitada é esquecido. Não é preciso dizer que isso não é ciência, mas pseudociência, 'a desesperada tentativa das ciências sociais e comportamentais', nas palavras de Noam Chomsky, 'de imitar as características superficiais das ciências que realmente têm um conteúdo intelectual significativo. E a mais óbvia e 'mais profunda objeção a esse tipo de teoria estratégica não é sua utilidade limitada, mas o seu perigo, pois ela pode nos levar a acreditar que temos um entendimento a respeito desses eventos e um controle sobre seu fluxo, o que não temos', como indicou recentemente Richard N. Goodwin em um artigo de revista que tinha a rara virtude de detectar o característico 'humor inconsciente' de muitas dessas pomposas teorias pseudocientíficas." (Sobre a violência, Hannah Arendt, Civilização Brasileira, 2009).

Google e WikiLeaks estão em campos antagônicos. O primeiro se colocou a serviço da espionagem em massa praticada pela NSA (e até lucrou com isto) o outro sofre intensa pressão econômica e criminal por ter divulgado documentos secretos dos EUA que desconstruíram a boa imagem daquele país artificialmente produzida pela mídia privada mundial enredada nas redes de influência e lucro que se esticam desde Washington até os confins do planeta. Entre Google e WikiLeaks há o império norte-americano, fonte de lucro e de punição. Mas este não foi abertamente o tema principal da conversa entre Assange e seus “colegas” do Google. O próprio “coleguismo” entre eles é colocado em dúvida pelo fundador do  WikiLeaks quando ele reflete sobre a maneira como a conversa foi utilizada no livro “A nova era digital”, de Eric Schimit e Jared Cohen.

Assange demonstra ter algumas idéias sofisticadas sobre política, jornalismo, cibercultura e tenta realçar o papel da organização que criou. Sobre seus colaboradores ela fala bem pouco. Em alguns momentos, Assange dá a entender que ele é ou deve ser considerado o único interprete de si mesmo e do  WikiLeaks:

“Quando você está envolvido numa coisa, como eu estou envolvido no  WikiLeaks, e conhece todos os lados desta coisa, você lê o que dizem na grande imprensa e vê que é uma sucessão de mentiras deslavadas. Você sabe que aquilo que o jornalista sabe é mentira, é mais do que um simples erro. Então as pessoas repetem essas mentiras e por aí vai.” (WikiLeaks - Quando o Google encontrou o WikiLeaks, Boitempo, São Paulo, 2015, p. 92)

Suponho que qualquer autoridade dos EUA, do Presidente ao agente do FBI que investiga as ações de Juliam Assange ou os programadores da NSA que praticam vigilância em massa, poderia dizer algo bem parecido com pequenas alterações:

“Quando você está envolvido numa coisa, como eu estou envolvido no governo dos EUA (ou no FBI, na NSA, e assim por diante), e conhece todos os lados desta coisa, você lê o que dizem na grande imprensa e vê que é uma sucessão de mentiras deslavadas. Você sabe que aquilo que o jornalista sabe é mentira, é mais do que um simples erro. Então as pessoas repetem essas mentiras e por aí vai.”

Idem para o Google, a quem Assange dirigiu algumas críticas bem ácidas nos demais textos que compõe o livro. No fundo, me parece que o fundador do  WikiLeaks repete o mesmo erro dos seus adversários: todos eles criaram imagens distorcidas e imensas de si mesmos e das organizações a que pertencem (ou que fundaram) e são incapazes de lidar com o inevitável conflito que resulta da produção e difusão de segredos. A diferença está na escala e na gravidade dos segredos que foram revelados por Julian Assange e na absoluta desproporção dos meios de coação que existe entre um império planetário (ou que acredita ser planetário) e o ativista virtual que se encontra ilhado na Embaixada do Equador em Londres sem poder exercer  o direito de asilo que lhe é conferido pela legislação internacional.

Assange tem consciência disto, mas não quer ser um mártir. Ele disse isso abertamente:

“Sempre evito  dizer que todo mundo deveria sair por ai e virar mártir. Não acredito nisso. Acredito que os melhores ativistas são aqueles que lutam e fogem para lutar outro dia, e não aqueles que lutam e se martirizam.” (WikiLeaks - Quando o Google encontrou o WikiLeaks, Boitempo, São Paulo, 2015, p. 98)

O criador do WikiLeaks também revela isto ao narrar suas ações de guerrilha, quando podia fugir de uma jurisdição para outra antes de encalhar no problema que não foi muito discutido no livro: as acusações criminais que pesam contra ele na Suécia por um fato que não tem relação com sua atividade ciberpunk. E já que tocamos neste assunto, vale lembrar que há alguns dias a imprensa noticiou que a Suprema Corte da Suécia manteve a ordem de prisão de Assange. Portanto, agora as opções dele agora são bem reduzidas: ficar 10 anos na Embaixada do Equador até prescrever a ação criminal movida na Suécia; se entregar às autoridades inglesas para ser enviado à Suécia correndo o risco de cumprir pena naquele país ou ser enviado para os EUA, onde poderá ser condenado a 35 anos de prisão, à pena de prisão perpétua ou até ser a morte dependendo de como o império manipular sua própria legislação militar para vingar os vazamentos que causaram intensa reação diplomática.

Julian Assange não é um teórico. Ele não consegue vislumbrar a irrelevância de sua própria conduta no momento presente e o efeito devastador que a mesma poderá acarretar a longo prazo. Os impérios são conduzidos por dinâmicas sócio-econômico-políticas que não podem ser controladas e por interesses mesquinhos que se esticam em diversas direções. Raramente um império consegue corrigir seu curso. A História prova satisfatoriamente que os impérios crescem, crescem, crescem até entrarem em colapso por fatores naturais, militares, econômicos, políticos ou religiosos. O império dos EUA está com os dias contados, mas não sabemos ainda como e, principalmente, quando ele cairá.  O aumento das tensões diplomáticas provocado pelas revelações de Assange e Snowden apressará a queda do império norte-americano? O imenso esforço realizado pelos EUA para derrubar o WikiLeaks e desacreditar, prender ou até matar Julian Asssange pode ser considerado, sem dúvida alguma, um indício de que as autoridades norte-americanas temem a queda do império que administram.

Em alguns momentos Julian Assange parece acreditar que o império baseado no moralismo e na mentira não conseguirá resistir à verdade que revela a hipocrisia intrínseca de suas ações diplomáticas e a brutalidade desmedida e criminosa de suas operações militares. Em alguns momentos o livro “WikiLeaks - Quando o Google encontrou o WikiLeaks” me fez lembrar as palavras de Eliot Weinberger:

“Um ‘consultor senior’ de Bush, cujo nome não foi revelado, declarou recentemente ao jornalista Ron Suskind que pessoas como Suskind eram membros ‘do que nós chamamos de comunidade baseada na realidade’: aqueles que ‘acreditam que as soluções emergem do estudo judicioso da realidade discernível’. Contudo, ele explicou, ‘esta não é mais a forma através da qual o mundo realmente funciona. Nós somos um império agora e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E, enquanto você estiver estudando esta realidade [...] agiremos mais uma vez, criando outras novas realidades, que você poderá analisar também, e é assim que se organizam as coisas. Somos os atores da história e você, todos vocês, são encarregados de estudar o que fazemos.” (Cronicas da Era Bush - o que ouvi sobre o Iraque, Eliot Weinberger, Record, Rio de Janeiro, 2006, p. 199)

Um império que já acredita poder criar sua própria realidade só poderá ser destruído quando todas as realidades que ele criou também forem destruídas e, principalmente, se for privado totalmente dos meios para construir novas realidades. Há os que acreditam que as flores (virtuais ou não) podem vencer os canhões. No atual estágio de desenvolvimento militar dos EUA, o império norte-americano só deixará de existir se uma imensa plantação de cogumelos nucleares for cultivada no território norte-americano. Tudo ou nada. As autoridades e os militares dos EUA jogam este jogo diariamente, inclusive no Facebook. “Destruiremos o planeta se formos atacados” dizem tranquilamente os norte-americanos sempre que se sentem ameaçados. E a Casa Branca segue subvertendo a política nos outros países, fomentando guerras civis, abastecendo terroristas com armas e dinheiro e, quando percebe que é seguro, fazendo guerras externas com armamentos convencionais contra inimigos militarmente irrelevantes.

O império norte-americano está no centro das lucrativas atenções e atividades do Google.  Portanto, Eric Schimit provavelmente não voltará a conversar com Julian Assange. Novas realidades serão criadas pelo império norte-americano até que o mesmo seja militarmente destruído. Julian Assange fez algo grandioso, mas tudo que ele construir se desmanchará no ar em razão da inevitável continuidade amoral e imoral da dinâmica imperial. Novos vazamentos ocorrerão e outras perseguições terão que ser feitas. Quem lembrará do WikiLeaks daqui a 10 anos caso Assange resolva esperar a prescrição do crime imputado contra ele na Suécia?

Francamente… se quer realmente apressar o desmantelamento moral do império Assange deveria se oferecer em sacrifício. Roma crucificou milhares de escravos liderados por Spartacus na Itália. Na Judéia,  os romanos cansaram de crucificar sediciosos e pretensos messias. Até que um dia eles resolveram crucificar um homem inocente cuja mensagem era politicamente irrelevante: dai a César o que é de César; amai-vos uns aos outros. Alguns séculos depois a própria Roma estaria de joelhos diante da imagem deste homem. A mensagem de Assange não é tão poderosa quando a daquele galileu, mas o sacrifício do fundador do WikiLeaks pelo império, dentro do império e sem a resistência da vítima certamente sacudiria os mitos em que os norte-americanos estão mergulhados. Na pior das hipóteses, o martírio de Assange mostraria ao mundo a face cruel, mesquinha, ridícula, brutal e intolerável da cultura norte-americana.

Se não quer encenar o mito cristão, Assage poderia perfeitamente se oferecer em sacrifício como uma espécie de Rei Crodo Ciberpunk. De fato, as próprias autoridades norte-americanas que odeiam e  perseguem o fundador do  WikiLeaks já o elevaram à condição de inimigo mítico virtual que comanda de maneira inequívoca os exércitos de hackers que atormentam Pentágono, NSA, FBI e Casa Branca. O que pode ser mais perigoso do que prender ou assassinar um mito?



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