Um país que não faz justiça só pode fazer uma coisa: observar a justiça que os outros países fazem.

Os juízes brasileiros, que ganham tão bem ou mais que seus colegas europeus e russos, são orgulhosos do Poder Judiciário que lhes garante rendimentos fartos, diversos complementos salariais e gordas aposentadorias. A Justiça que eles distribuem é bem conhecida.

Cadeia no Brasil é lugar de preto, pobre, p... e petista, não necessariamente nesta ordem. José Dirceu, ex-presidente do PT, foi condenado apesar da inexistir prova de sua culpa. Condeno porque a literatura permite, disse uma Ministra do STF. Condeno porque ele não provou que é inocente, disse o colega dela. Daniel Dantas, banqueiro, ganhou um HC com supressão de instância no STF porque não podia ser condenado apesar das provas que foram convenientemente lacradas num cofre por decisão judicial.

O caso do Azeredo, embrião do que acarretou a condenação de José Dirceu, foi silenciosamente encaminhado do STF para a prescrição em Minas Gerais. Nenhum tucano paulista suspeito de comandar a roubalheira do Metrô foi denunciado. Contra eles, não tem valor jurídico a teoria do domínio do fato empregada contra José Dirceu.

A justiça da Rússia não é tão cara quanto a brasileira e funciona de forma um pouco diferente. O dono da maior empresa petrolífera russa aprontou, apostou que poderia enfrentar o Estado e ganhou um julgamento público dentro de uma jaula. Foi condenado, perdeu o controle da empresa e apodreceu numa cadeia.

José Maria Marin, suspeito de longa data de ter cometido uma longa lista de crimes (a começar por ter instigado o assassinato de Vladimir Herzog), nunca foi incomodado pela Justiça brasileira. Acostumado à sua impunidade no Brasil ele foi para a Suíça cuidar dos seus interesses na FIFA (e, provavelmente, de outros interesses também). Está preso e corre o risco de morrer numa prisão. Que bom, não…

Não. Não podemos dizer “Que bom”. Não ainda. De fato, a única coisa que podemos dizer neste momento é a seguinte: o Brasil tem uma justiça de m... ou, melhor, não tem justiça nenhuma dependendo da qualidade sócio-econômica do culpado e da quantidade de dinheiro que ele dispõe. Cá os ricos bem nascidos são sempre inocentados e até premiados. Só os “menos iguais” sentem o peso de condenações apressadas, mal fundamentadas e eventualmente encomendadas (caso dos jornalistas que incomodam demais tucanos asquerosos e poderosos).  Enquanto aguarda tranquilamente a prescrição da lentíssima ação criminal promovida contra ele promovida pelas mesmas razões que levaram José Dirceu a ser rápida e injustamente condenado e preso, Azeredo ganhou um emprego com salário de 25 mil reais. Coitadinho…

A prisão de José Maria Marin na Europa deveria ser considerada motivo de vergonha máxima para os juízes brasileiros. Não acredito, porém, que eles estejam particularmente preocupados com o fato de terem sido ridicularizados internacionalmente. O mais provável é que os juízes continuem desfrutando alegremente as regalias que garantem para si mesmos.

Suponho que alguns juízes, aqueles que acreditam no “ativismo judicial” devem estar ligando para seus amigos na CBF para lamentar o ocorrido e para garantir que no Brasil tudo será diferente. Afinal, a justiça brasileira sempre foi, é e será amiga dos ricos bem nascidos. “Rasguem seus passaportes, não viagem para o exterior e tudo ficará bem” será a mensagem do Ministro do STF predileto dos tucanos que são amigos de Marin?



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