Para entender a controvérsia criada pela Câmara dos Deputados acerca do financiamento dos partidos é preciso estudar a história do Brasil e a do liberalismo.

conflito gerado pela conduta do Presidente da Câmara dos Deputados esta semana – num dia ele amargou a derrota do financiamento privado de campanhas eleitorais e no outro conseguiu aprovar a privatização dos partidos políticos – não é novo. De fato ele está na origem da destrutiva oposição parlamentar que paralisou o governo João Goular e desembocou no golpe de 1964. Impossível esquecer que o Ipês, um biombo para uma operação coberta da CIA no Brasil, distribuiu milhões de dólares aos candidatos de direita em 1962. Sobre este assunto videhttp://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/69660/golpe+de+64+saiba+como+o+ipes+desestabilizava+o+governo+jango.shtml

É preciso dizer, contudo, que esta tensão (decorrente do conflito entre a natureza pública da atividade parlamentar e governamental e os poderosos interesses privados que pretendem se abrigar à sombra do Estado financiando eleições) não é um fenômeno recente, tampouco é uma coisa que ocorre apenas no Brasil. Na verdade o moderno Estado liberal já nasceu com este dilema, como notou com precisão Harold J. Laski. Ele afirma que ao final da Revolução Inglesa o ideal de Estado que prevaleceu:

“... no fue la de Lilburne o Winstanley, o la que en los debates sobre el ejército propugnó con pasión el  coronel Ramsborough. Es el ideal de Ireton para quien el Estado es uma sociedad de proprietarios; y en el  fondo es ése también el ideal de Locke. La inconformidad con la ingerencia es uma inconfirmidad con las limitaciones sobre el derecho de propriedad a disponer a su antojo de los suyo. El buen ciudadano es el hombre que ha logrado, o está logrando, la prosperidad; la ley debe ser la que el concibe como necesaria. Las liberdades que busca son las liberdades que necesita. Los peligros contra los que deben tomarse precauciones son los que amenazan su seguridad.” (El liberalismo europeo, Harold J. Laski, Fondo de Cultura Econômica México –Buenos Aires, México, 1961, p. 134)

Não é de se estranhar que os mesmos políticos que apóiam o financiamento privado de campanha (porque consideram que o Estado é uma extensão necessária e assecuratória de sua propriedade e um instrumento indispensável para aumentá-la) são aqueles que querem reduzir os direitos dos trabalhadores universalizando a terceirização. A preservação da pobreza ou a disseminação desta é um corolário do liberalismo, quer porque fragiliza aqueles que não são proprietários (impedindo-os de conquistar o poder político pelo voto ou através da revolução violenta), quer porque permite um aumento da propriedade daqueles que já a tem através da sujeição da maioria do povo ao trabalho mal remunerado:

“Una doctrina que empezó como método de emancipación de la classe media se transformo después de 1789 em um método de disciplina para la classe trabajadora. La liberdad contratual que buscaba emancipo a los proprietários de sus cadenas; pero em el logro de esta liberdad estaba envuelta la esclavitud de quienes solo podían vender su fuerza de trabajo. El expediente doctrinario más sencillo justifico la victoria de los conquistadores. Declararon que su liberdad era también la de la nación; insistieron en que no podrían perseguir sus intereses propios sin satisfacer al mismo tiempo los de quienes de ellos dependían. He tratado de señalar que esa concepción estaba implícita en la enseñanza práticamente de todos los que deseaban especular sobre asuntos de constitución social. Cuando debieron enfrentarse a los frutos de su filosofia, tuvieron escasa dificuldad en reconciliarse con sus consecuencias. O bien, como los autores de la resurreción evangélica, predicaron al pobre uma doctrina que hacía de la resistência a la miseria social um ataque contra la providencia de Dios; o, como Pitt y sus sucesores, aterrorizaron a sus críticos sometiendolos por uma aplicación inflexible del poder coercitivo del Estado. Em 1806 Patrick Colquhoun puso en uma forma concisa la justificación que les satisfacía: ‘Sin uma gran proporción de pobreza no pude haber riqueza, puesto que las riquezas son el producto del trabajo, em tanto que este solo puede provenir de um estado de pobreza. La pobreza es aquel estado y condición em sociedad em que el individuo no tiene sobra de trabajo almacenado, o, en otras palabras, ni propried o medios de subsistencia, sino los que se derivan del ejercicio constante de la industria en las diversas ocupaciones de la vida. La pobreza, por lo tanto, es um ingrediente necesarísimo e indispensable em la sociedad, sin el cual las necesidades y comunidades no podrían existir en um estado de civilización.”  (El liberalismo europeo, Harold J. Laski, Fondo de Cultura Econômica México –Buenos Aires, México, 1961, p. 178/179)

No Brasil, aqueles que se julgam os “donos do poder” (como afirmou Raymundo Faoro) devem com justiça ser chamados de liberais, pois para eles Estado, propriedade e sucesso pessoal são a mesma coisa. O desprezo que eles sentem pelas classes subalternas (e o ódio que eles difundem contra os partidos que representam os trabalhadores e os pobres, como é o caso do PT na atualidade) também não é um fenômeno novo, pois:

“El liberalismo siempre ha estado afectado por su tendencia a considerar a los pobres como hombres fracasados por su propria culpa. Siempre ha sufrido por su inhabilidad para darse cuenta de que las grandes posesiones significan poder sobre los hombres y mujeres lo mismo que sobre las cosas. Siempre ha rehusado ver cuán poco significado existe en la liberdade de contrato cuando está divorciada  de la igualdad en la fuerza de negociación.” (El liberalismo europeo, Harold J. Laski, Fondo de Cultura Econômica México –Buenos Aires, México, 1961, p. 220)

Também não é novidade que em situações de grave crise econômica ou em períodos históricos em que tenha perdido o poder político, os ricos (que se consideram não só proprietários das riquezas, mas inclusive e principalmente proprietários do Estado que garante o direito de propriedade) comecem a descrer da democracia e a fomentar o fascismo.

“La esencia del fascismo es la destrucción de las ideas e instituciones liberales en beneficio de los que  posseen los instrumentos del poder económico. Sin duda las causas de su crecer son complicadas; pero es inequívoco el propósito de su acción. Lo que há hecho, dondequiera que ha conseguido el poder, es, sobre todo, destruir las defensas características de la clase trabajadora; sus partidos políticos, sus sindicatos, sus sociedades cooperativas. Paralelo a esto ha sido la supresión de todos los partidos políticos, excepto el fascista, de la discusión libre y del derecho de huelga. Bien frecuentemente, los facistas han proclamado, antes de su advenimiento al poder,  objetivos de sabor socialista. Pero resulta notable, primero, que hayan conseguido siempre el poder en concierto con el ejército y los grandes negocios, y que, después de su logro, hayan dejado prácticamente intocada la propriedade de los meios de producción. El fascismo, en resumen, surge, como una técnica institucional del capitalismo en su fase de contración. Destruye el liberalismo que permitió la  experiência de la expansión con objeto de imponer a las masas esa disciplina social que cre las condiciones bajo las cueales esperan poder continuar obteniendo utilidades. Esto explica por qué em los países fascistas el patrón de vida de la clase trabajadora ha ido em continuo descenso desde la supresión de las ideas e instituciones liberales.” (El liberalismo europeo, Harold J. Laski, Fondo de Cultura Econômica México –Buenos Aires, México, 1961, p. 210/211)

No Brasil, o PSDB (partido supostamente social democrata) é justamente aquele que votou em peso na privatização das eleições, que apóia a terceirização (precarização do trabalho e o empobrecimento da população para aumentar a propriedade e o poder dos ricos), que pretende destruir midiática e juridicamente o PT e que tenta, de todas as maneiras, derrubar a presidenta Dilma Rousseff. Portanto, o partido fundado por FHC e liderado por José Serra, Aécio Neves e Geraldo Alckmin já se transformou num típico partido fascista. Isto explica a proximidade entre os tucanos e os malucos que pregam um golpe de estado, defendem intervenção militar e fazem apologia da tortura nas ruas. Este partido fascista só não chegou ao poder por três motivos: resistência eleitoral da população e dos empresários que acreditam nas virtudes administrativas e liberais do PT; ausência de apoio das Forças Armadas e; medo de um contra-golpe violento que leve à aniquilação total da base social e econômica em que os fascistas tucanos se sustentam.    

A impossibilidade de golpe de estado, contudo, não resolve a tensão insuperável existente entre os defensores da privatização da política (financiamento privado das campanhas ou dos partidos) e a natureza pública da atividade parlamentar. Em algum momento este nó terá que ser desfeito por bem ou por mal. Espero que o financiamento público de campanhas seja aprovado e aceito. Caso contrário, os dias dos tucanos no Brasil podem estar contados. 



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