Quem quiser entender o neoliberalismo deve olhar para o passado.

Os filósofos e pensadores da Antiguidade Clássica não conseguiram desenvolver o conceito de “inflação” e aprimorar mecanismos para combater o fenômeno. O desabastecimento e aumento dos preços eram conhecidos, mas o fenômeno era chamado de “carestia”. Cito abaixo um episódio ocorrido em Roma nos primórdios da República, ocorrido por volta de 439 aC, e que é assim narrado por Tito Lívio:

“Tendo enviado inutilmente, por terra e por mar, inúmeras delegações aos povos vizinhos, somente da Etrúria  Minúcio conseguiu obter um pouco de trigo, que em nenhum momento foi suficiente para abastecer a cidade. Levado a racionar as provisões, obrigou os cidadãos a declarar o trigo que possuíam e a vender o que excedesse do consumo de um mês, diminuiu a ração dos escravos, acusou e entregou à cólera do povo os negociantes de trigo, conseguindo com essas rigorosas medidas apenas tornar mais evidente a penúria sem, contudo, poder atenuá-la. Perdidas as esperanças, muitos plebeus preferiram cobrir a cabeça e precipitar-se no Tibre a arrastar-se em meio a tais tormentos.” (Ab Urbe Condita Libri, Tito Lívio, Volume 1, editora Paumape, São Paulo, 1989, p. 317)

As “dívidas” também eram velhas conhecidas dos romanos e quase sempre resultavam em graves conflitos entre patrícios e plebeus. O episódio abaixo transcrito ocorreu por volta de 466 aC:

“Os tribunos da plebe declaravam que não se devia tolerar a burla. Os senadores esquivavam-se de apresentar as listas oficiais, que revelariam a fortuna de cada um. Não queriam revelar ao povo o montante das dívidas, que demonstraria que uma parte dos cidadãos era devorada pela outra. Enquanto isso,  lançavam o povo endividado contra novos inimigos, e procuravam a guerra indistintamente e por toda a parte.” (Ab Urbe Condita Libri, Tito Lívio, Volume 2, editora Paumape, São Paulo, 1989, p. 47 e 48)

Os “juros” também eram conhecidos dos romanos, mas são de fato bem mais antigos. Já eram praticados pelos egípcios durante o Novo Reinado (1573 a 712 aC).

“Records of loans of various kinds have also come down to us. In these transactions the rate os interest amounted usually to 100 per cent. per annum; at the end of each year the interest was added to the capital and a further 100 per cent. was charged on the resulting total.” (Legacy of Egypt, edited by S.R.K, Glanville, Oxford University Press, London, 1957, p. 203)

A “inflação”, fenômeno cientificamente descrito há alguns séculos, pode ter várias causas:

“O aumento no nível dos preços pode ter uma causa monetária (impressão de dinheiro pelo governo), causas psicológicas (agentes ajustam o preço porque acham que outro também vai ajustar) ou uma causa real (um desajuste entre a oferta e a demanda por bens e serviços).”http://br.advfn.com/economia/inflacao/brasil/causas

Para o Mercado, porém, a inflação só pode ter uma solução: o aumento dos juros. Os financistas não estão preocupados com a economia do Brasil, menos ainda com o bem estar da população. A única coisa que lhes interessa é o que podem ganhar no final da semana. Mas se juros forem altíssimos e isto lhes permitir ganhos diários eles certamente não ficarão tristes.

O conflito entre Estado e Mercado é evidente. Ao contrário do Mercado, o Estado tem que cuidar da economia como um todo e deve se preocupar com o bem estar da população. Se a inflação for moderada, a qualidade de vida da população será reduzida. Mas sem dúvida o povo sofrerá ainda mais se os juros forem elevados demais, pois isto produziria recessão e desemprego. Toda retração da economia acarreta redução da arrecadação e isto fragiliza o Estado diante do Mercado. Quando arrecada menos o Estado é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado para pagar suas despesas correntes. E para continuar fazendo isto terá que pagar uma taxa crescente de juros, com benefícios evidentes para o Mercado financeiro. A recessão, portanto, não interessa ao próprio Estado.

O Mercado, este Leviatã privado que quer comandar o Estado e que não produz nada além de crises financeiras, exigiu e conseguiu um aumento da Selichttp://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mesmo-apos-alta-da-selic-mercado-projeta-aumento-na-taxa-de-juros-em-2015,1680673 . Impossível esquecer que o Mercado apoiou a candidatura de Aécio Neves e flertou com o movimento do impedimento. Nenhuma novidade. Para os financistas FHC foi o melhor de todos os presidentes do Brasil, pois sob seu governo o país pagava aos banqueiros juros 4 vezes maiores do que os que estão sendo pagos pelo governo Dilma Rousseff.

Os bancos privados aproveitaram o aumento da Selic para aumentar os juros no varejohttp://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2015/05/bancos-privados-decidem-aumentar-os-juros-do-credito-imobiliario.html . A legislação não garante aos clientes o direito de discutir qual será a taxa de juros cobrada. O Judiciário raramente considera abusivas as cláusulas dos contratos de adesão que permitem aos Bancos estipular os juros que cobrarão dos seus clientes.

O aumento da taxa de juros não empurra o nosso país para o futuro, mas para o passado. Não para um passado recente e tucano e sim para um passado distante e egípcio, quando as taxas de juros eram de 100% ao ano. Não só isto, em algum momento o endividamento da população empurrará o Brasil para o “American way of war”.

Após o fim da II Guerra Mundial os EUA viveu um longo período de tranquilidade em que a classe média norte-americana foi ensinada a poupar para consumir. Nas duas últimas décadas, porém, a esmagadora maioria dos norte-americanos trocou a poupança pelo consumo imediato mediante endividamento. Como ocorreu em Roma em 466 aC., os EUA estão empurrando os pobres endividados para uma guerra permanente no exterior. Isto é feito não só para garantir a lucratividade do império, mas também para que eles não vejam que estão sendo devorados por outros norte-americanos (aqueles que são os proprietários das dívidas deles) e que querem continuar desfrutando o suntuoso padrão de vida que adquiriram.  

A questão dos juros não é só uma questão econômica. Há algo bem mais importante sob a superfície da economia neoliberal e que precisa começar a ser discutido com profundidade.



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