A arte da Política como a conhecemos não só mudou, de fato ela está se tornando mais e mais impossível de ser entendida e realizada

Sou de esquerda! Costumava dizer isto. Coerente com minha opção fui  filiado do PT em Osasco-SP. Durante alguns anos estudei obras de Marx e Lênin e de outros autores comunistas e socialistas. Algumas delas publicadas pela saudosa editora Progresso.

Promovi a ideologia de esquerda na Faculdade que cursei e em congressos estaduais e nacionais de estudantes de Direito. Fui estagiário da FNT e atuei em ações possessórias em defesa dos sem terra em meados da década de 1980. Fiz trabalho voluntário no Centro de Assistência Jurídica dos Alunos da Faculdade de Direito de Osasco, associação de alunos que prestava assistência judiciária à população carente de Osasco e Carapicuíba. Durante quase 10 anos também atuei como estagiário e, depois, como advogado de sindicatos filiados à CUT. Ajudei a fundar alguns sindicatos.

Minha história e formação me fazem compreender a Política como fruto da atividade coletiva. Um partido, associação ou sindicato de esquerda organiza coletivos com base em unidade de interesses (reforma agrária, reforma urbana, melhorias das condições de trabalho e remuneração, etc...) e cria um impasse (invasão, ocupação ou greve) para forçar negociações políticas que podem resultar em conquistas concretas (acesso á terra ou moradia, aumento de salários, etc...). Os movimentos políticos podem ser locais, regionais e nacionais. Portanto, algum tipo de coordenação e liderança é sempre desejável e necessário.

Tenho notado, contudo, que a esquerda se fragmentou com o surgimento daquilo que chamei de movimentos fashionistas*. Refiro-me aos movimentos ecológico, gay, vegano, a favor da liberação da maconha, etc... Cada um destes grupos tem sua própria moralidade que, salvo algumas exceções, conduz à intolerância, insulamento e impede ou dificulta algum tipo de unidade de ação política baseada na idéia de classe social (como ocorria no passado).

Os contatos que tive com os militantes da nova esquerda ou da esquerda fashionista, todos muito mais jovens do que eu (que já tenho 50 anos de idade) tem sido frustrantes. É impossível manter qualquer identidade com um vegano que o acusa de ser assassino porque você come carne. Se você disser que almoçaria com ele num restaurante vegano se ele almoçasse com você num restaurante em que você pode comer carne a discussão geralmente degenera em acusações e ofensas desagradáveis. Os ecologistas são refratários ao desenvolvimento do país e não querem compreender que a transformação do Brasil num paraíso ecológico não necessariamente sustentará uma população de 200 milhões de pessoas. Fui ameaçado de morte na internet por gays e simpatizantes por ter ousado dizer que o SUS não deveria custear operações estéticas para mudança de sexo.

Através do Facebook, um garoto de 23 anos que vi nascer e que participa de marchas em favor da liberação da maconha e é simpatizante do movimento gay, referiu-se a mim como “Petista homofóbico...” e complementou “Eu li um cara de esquerda falando de heterofobia? Marcos Feliciano e bolsonaro curtiram isso... qualquer semelhança cum beato reacionário é mera coincidência.” https://www.facebook.com/photo.php?fbid=851103001653893&set=a.111442552286612.16352.100002626049097&type=1&theater&notif_t=photo_reply. É óbvio que ele queria me ofender. E para falar a verdade não gostei muito de ser comparado a Marcos Feliciano e a Bolsonaro só por ter dito jocosamente que os óculos de um amigo comum era “Totally gay”, até porque tenho criticado os dois em textos que provavelmente já foram lidos por aquele garoto.

A rejeição violenta do outro em favor da própria moralidade é evidente. No fundo, aquele garoto (assim como os veganos que me chamaram de assassino porque eu como carne, ecologistas que me detestam porque não sou contra o desenvolvimento do país e gays que me ameaçaram de morte por ser contra operações de troca de sexo pelo SUS) não conseguem pensar senão em termos de COMIGO ou INIMIGO. A intolerância de alguns membros dos movimentos fashionistas de esquerda é evidente e, de certa maneira, semelhante àquela fomentada pelos evangélicos politizados (que também rejeitam o outro, o diferente, em favor de sua própria moralidade). Como construir ou manter um partido de esquerda com pessoas que possuem moralidades que se excluem mutuamente?

Os problemas enfrentados por Dilma Rousseff são colossais. Mas eles seriam menores se nossa presidenta tivesse um partido político de esquerda grande com uma forte identificação classista e uma vasta base sindical coesa.

Alguns consideram a fragmentação da esquerda brasileira e o crescimento dos fashionismos um indício de modernização política do Brasil. Impossível não perguntar o que este fenômeno causou na política dos EUA, país cuja classe média foi impiedosamente destruída justamente no período em que a esquerda se fragmentou. Nos EUA os fashionismos de esquerda apenas conseguiram uma coisa: reforçar o poder dos militares sobre a política externa norte-americana. Não gosto nem de pensar no resultado que este fenômeno pode produzir na política interna do nosso país.

Não sou jovem. Portanto, o futuro não me pertence. Em breve serei obrigado a dizer: “Não, não sou de esquerda! Tampouco sou de direita. Sou apenas um esquerdista old fashion!”

Fashionista: em inglês fashionist vocábulo derivado de fascist + fashion utilizado no filme Iron Sky (2012) 



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