Análise do discurso da presidenta durante a entrevista dada ao veterano apresentador de televisão.

Na atualidade somos diariamente bombardeados por uma quantidade imensa de informação. Um tsunami de lixo, pornografia, redundância, história, ciência, humor, violência, terror, política, guerra, economia, propaganda, etc… do passado e do presente se misturam na internet obrigando todos nós a filtrar o que consumiremos, a distinguir o que realmente interessa do que pode ser descartado e a escolher as informações que requerem mais atenção e as que podem ser apreciadas de maneira despreocupada. Nesse contexto, a credibilidade de cada fonte de informação também deve ser avaliada.

O desenvolvimento cognitivo imposto pelo consumo de tanta informação é bem maior do que no passado. Mas isto não quer dizer que no passado fosse fácil para alguém compreender, por exemplo, a dinâmica da programação de televisão, em que pequenas peças de informação distintas (os comerciais) eram veiculados entre os segmentos de um programa mais longo que sofria interrupções.

Há mais de três décadas minha mãe contratou para trabalhar e morar em casa uma adolescente que havia sido criada na roça no Vale do Ribeira, região pobre do Estado de São Paulo. Aquela moça não tinha tido muito contato com TV antes de chegar em nossa casa. Em razão disto, ela estava sempre querendo entender como um comercial se ligava ao outro e como todos eles entravam na história da novela da Rede Globo preferida pela minha mãe. A falta de hábito cognitivo daquela moça a impedia de compreender e aproveitar a programação de TV e as perguntas constantes que ela fazia causavam riso e irritação. O tsunami de informação na internet também pode produzir o mesmo fenômeno, mas isto ocorre no isolamento e/ou no insulamento de uma comunidade virtual.

A longa entrevista que Dilma Rousseff deu a Jô Soareshttp://gshow.globo.com/programas/programa-do-jo/videos/t/videos/v/assista-a-entrevista-completa-de-dilma-roussef-no-programa-do-jo/4250014/ aborda diversos temas. A presidenta falou da personalidade dela e do seu passado na prisão e falou do vice-presidente, de economia, infraestrutura, educação, minha casa minha vida, aeroportos, pré-sal, petrobrás, das inovações legislativas aprovadas no Congresso Nacional, etc...  Os temas foram sendo introduzidos pelo experiente e paciente entrevistador que deixou a presidenta bem à vontade.  

Aos 24 minutos da entrevista, a presidenta Dilma Rousseff falou sobre inflação e economia. Diz a presidenta:

"Eu sei que é passageiro…"

"Fico preocupada…"

"Faremos o possível e impossível para o Brasil ter uma inflação bem estável e dentro da meta…"

"Depende de coisas que também nós não controlamos…"

"Avaliações de mercado apontam para uma queda da inflação…"

Estas cinco frases abordam temas distintos: a percepção pessoal da presidenta com base nas informações que ela dispõe; o estado emocional dela em razão da situação; a disposição da presidenta de fazer o que é necessário; as dificuldades impostas por fatores que independem da ação do governo e da economia do Brasil; os prognósticos futuros daqueles que tem poder econômico para distorcer o “campo político” e que tudo fazem para ter lucro sem se preocupar com o bem estar da população brasileira.

Estas frases/temas abordados na entrevista de Dilma Rousseff poderiam render vários livros.  E certamente serão interpretadas de maneira diferente por cada brasileiro/estrangeiro segundo seus interesses, refinamento cognitivo, poder ou impotência política e econômica para interferir no presente ou modelar o futuro, etc…

Os adversários da presidenta certamente amplificarão as frases  “Fico preocupada…” e “Faremos o possível e impossível para o Brasil ter uma inflação bem estável e dentro da meta…”. Os aliados de Dilma Rousseff podem perfeitamente tirar proveito das frases “Eu sei que é passageiro…” “Depende de coisas que também nós não controlamos…” “Avaliações de mercado apontam para uma queda da inflação…” . Os indiferentes levarão em conta apenas a frase “Depende de coisas que também nós não controlamos…”. Os economistas, banqueiros e operadores do mercado podem contestar ou não a frase “Avaliações de mercado apontam para uma queda da inflação…”.

Os observadores astutos podem apontar a contradição aparente entre as frases “Fico preocupada…”/”Depende de coisas que também nós não controlamos…” e as frases “Eu sei que é passageiro…/”Faremos o possível e impossível para o Brasil ter uma inflação bem estável e dentro da meta…”. Quem sabe que algo é passageiro não tem motivos reais para alimentar preocupações. A preocupação deriva do pessimismo ou de se saber algo que não se pode ou não se pretende revelar ao respeitável público? O Brasil está no mundo, a economia brasileira é globalizada. Portanto, o desempenho do país realmente depende de fatores que nós não controlamos. A presidenta sugere, contudo, que o Brasil pode sair da crise por contra própria ao fazer o possível e o impossível.

A História demonstra, porém, que os fatores econômicos externos destrutivos são sempre mais fortes que a disposição interna de um governo brasileiro de superar crises internacionais gravíssimas. Nosso país fez o possível e o impossível para salvar a economia cafeeira após a quebra da Bolsa de Valores de NY em 1929. Nada do que foi feito naquela época conseguiu evitar os estragos da crise financeira na economia brasileira. O possível nem sempre é o bastante, o impossível as vezes não pode ser atingido. Esta é uma lição de humildade que os governantes devem aprender. Iludir o público pode não ser uma boa estratégia, especialmente quando quase tudo “Depende de coisas que também nós não controlamos…” .

Iconografia é política. Vladimir Putin, presidente da Rússia, demonstrou sua coragem para enfrentar sanções econômicas ocidentais caçando sem camisa. Imediatamente os russos passaram a ridicularizar o presidente dos EUA, arquiteto destas sanções, postando no Facebook fotos do delicado e sorridente Barack Obama ao lado dos musculosos peitorais do indômito presidente da Rússia utilizando uma espingarda de caça.

Dilma Rousseff não é delicada como Obama, nem aprecia a iconografia machista utilizada com sucesso por Putin. Impossível deixar de notar, entretanto, que nossa presidenta se apresentou bem mais magra nesta entrevista. Fazer um regime é algo que dependeu exclusivamente da força de vontade dela. Mas a perda de peso pode ter sido imposta à presidenta pelos seus médicos. A nova imagem da presidenta também pode ser considerado um elemento discursivo.  É possível reduzir a massa corporal sem risco de morte. A perda de peso pode nos deixar mais belos e saudáveis.

Assim como Dilma Rousseff fez um sacrifício para emagrecer nós também devemos estar dispostos a fazer sacrifícios. O discurso corporal da presidente é eloquente e provavelmente mais eficaz do que os sorrisos inofensivos do presidente norte-americano (disposto a fazer mal aos russos para demonstrar a hegemonia planetária dos EUA) e certamente é infinitamente menos agressivo que o discurso corporal do musculoso presidente russo (que faz questão de se mostrar disposto a caçar os inimigos da Rússia). Contudo, suprema ironia, o discurso corporal de Dilma Rousseff é desmentido por Jô Soares, que segue sendo um obeso saudável, bonitão, inteligente e agradável.



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