Este trabalho busca ressaltar que apoiar radicalmente o capitalismo predatório é garantir, ainda mais, uma espécie de sociedade e direito para os ricos, desumana; e ser adepto radical do comunismo é atentar contra o próprio direito democrático.

I INTRODUÇÃO

A construção da sociedade como a conhecemos hoje se deu, de forma mais intensa, a partir da Revolução Industrial, do conflito entre o Socialismo versos Capitalismo. Essas duas correntes influenciaram – e ainda influenciam – grandes pensadores, mudou a forma de fazer política de muitos líderes, gerou guerras, dividiu o mundo em duas partes: uma liderada pela antiga União Soviética; outra, pelos Estados Unidos. As grandes invenções, as armas de destruição em massa, a ida do homem à lua – se é que ela existiu à época -, tiveram como força motriz a disputa ideológica e política entre o socialismo-comunismo contra o capitalismo.

Com o fim da Guerra Fria os países socialistas, que experimentavam o comunismo, foram aderindo aos ideais capitalistas e a forte tensão entre as duas partes do mundo foi se acabando, ganhando protagonismo os ideais capitalistas. Hoje, o mundo é capitalista, porém, enganam-se aqueles que acreditam ter o marxismo morrido com Marx. Na verdade, indubitavelmente, enquanto existir capitalismo existirá o marxismo, porque este é ideia contrária àquele e, lutando por sua superação, o socialismo só poderia deixar de existir quando o capitalismo fosse totalmente superado para a vivência universal do comunismo.

Não podemos esquecer, jamais, que a existência e a disputa entre estes dois foram e são de enorme importância para construção de uma sociedade melhor, mais humana e desenvolvida. O que não podemos aceitar são os radicalismos de ambas as partes.       

Os radicalismos devem ser combatidos porque demonstram uma doença social. Os radicais que defendem o comunismo a qualquer preço ou querem assumir o poder e tornarem-se déspotas ou estão cegos ao não enxergar que toda forma de comunismo acaba em ditadura. Por outro lado, os que defendem o capitalismo predatório ou são multimilionários ou já foram abstraídos pelo próprio sistema vigente. Sabe-se que a mercantilização de tudo desumaniza, cada vez mais, o que ainda resta-nos de humano.

Não se quer, aqui, relevar um sistema sobre o outro, mas defender a existência dos dois, pelo menos a luta ideológica entre eles, para construção de uma sociedade mais humana e desenvolvida, com a permanência da democracia social. A simples prevalência de uma só ideia já se configura ditadura.

Ao longo deste trabalho pretende-se mostrar a importância do marxismo para construção de uma sociedade mais humana, apresentando fatos que demonstram inúmeras conquistas sociais, principalmente no campo dos trabalhadores, na inserção do povo na política, e no avanço de direitos e deveres iguais – ao menos formalmente – para todos, e a busca destes, materialmente, observadas nas decisões do STF, objetivando suprir atrasos culturais entre as classes econômicas e raças do Brasil.

Terar-se-á como fundamentação teórica as contribuições de COUTINHO (1997) que apresenta didaticamente algumas notas interpretativas sobre Marx e as categorias centrais do capitalismo – a mercadoria e o capital, e SÁNCHEZ VÁZQUEZ (2007) que com sua filosofia da práxis possibilita a compreensão real do marxismo e sua importância social.  

Na primeira parte apresentar-se-á alguns conceitos aprofundados por Marx, como mercadoria, trabalho e valor, e mais-valia; na segunda, discutiremos a necessidade de existência do marxismo como contraponto para o equilíbrio social e construção de uma sociedade melhor, dentro do capitalismo.

Finalmente, mostraremos que toda e qualquer forma de radicalismo tende a não ser bom, porque o radical não enxerga o outro, apenas a si, aos seus ideais, e que é importantíssimo a existência e equilíbrio de ideias contraditórias para o avanço da própria sociedade, ressaltando-se que apoiar radicalmente o capitalismo predatório é garantir, ainda mais, uma espécie de sociedade e direito para os ricos, desumana; e ser adepto radical do comunismo é atentar contra o próprio direito.


II UMA BREVE APRESENTAÇÃO DA MERCADORIA, TRABALHO-VALOR E MAIS-VALIA EM MARX

Indiscutivelmente Karl Marx foi um crítico voraz ao capitalismo. Tendo estudado-o profundamente, como ninguém, o construtor do materialismo histórico aproximado à economia política por “atração, rejeição e, simultaneamente, pela dificuldade em entender a natureza de uma ciência dedicada à compreensão da lógica expansiva do sistema econômico por meio de uma relação-síntese, a taxa de lucro” (COUTINHO, 1997, p. 45), apresentou análises complexas sobre como se dava a exploração no sistema capitalista. Apresentar-se-á, didaticamente, a mercadoria, a relação do trabalho-valor e a mais-valia, como bases do sistema marxiano.

II.1 A MERCADORIA

Para compreendermos bem, sem análises complexas, a mercadoria, faz-se necessário uma breve análise histórica para chegarmos até o conceito de mercadoria como conhecemos hoje. Para isto, voltaremos a tempos remotos, desde as primeiras relações entre homens e mulheres e a sua evolução e complexidade das relações.          

Há cerca de 8.000 anos, no período neolítico, onde o homem começou a aperfeiçoar sua forma de trabalho, as relações entre homem-trabalho e entre homem-homem começaram a ficar complexas. Foi a partir da divisão do trabalho e de novas técnicas e instrumentos que alguns agricultores começaram a produzir excedentes e trocar bens de consumo. Neste contexto surge o comércio, não como hoje, com o equivalente geral, mas através da troca de produtos (escambo). Como uns produziam e trocavam mais produtos começaram a enriquecer e, estes, não queriam mais dividir os produtos, produzidos por todos, como existia nas aglomerações do período paleolítico; começaram a surgir as propriedades privadas e hierarquias sociais.

Para Marx, a mercadoria foi ponto de partida, porque “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma imensa coleção de mercadorias, e a mercadoria individual como forma elementar[1]”. Porém, como dito anteriormente, o objetivo deste trabalho não é aprofundar nos temas marxianos, mas mostrar a importância do marxismo para a construção de uma sociedade mais humana.

Observa-se, na explicação histórica, acima, que os bens quando eram trocados um pelo outro, sem a intenção do acúmulo, ainda não se constituíam mercadorias porque eram apenas para a subsistência dos que trocavam alimentos ou objetos. Os produtos eram, para ambos, exclusivamente para uso. A mercadoria começou a existir com a própria propriedade privada. Destarte, de forma resumida e simplificada, mercadoria é o produto posto no comércio, com o objetivo do lucro; é um produto que pode ser seu ou de qualquer outro que o deseje através da compra, ou troca, pelo equivalente geral (dinheiro).

II.2 A RELAÇÃO TRABALHO-VALOR

Antes de entrarmos nas discussões marxianas sobre a relação trabalho-valor é interessante mostrarmos uma evolução da forma como se concebe o trabalho no tempo e espaço e mostrar, adiante, a importância do marxismo na conquista de melhores condições de trabalho e como se constitui, de forma simplificada, a mais-valia.          

Na Grécia Antiga, o homem que exercia o trabalho físico era considerado indigno, escravo, não-cidadão. Naquele tempo, o único trabalho valorizado era o abstrato, exercido exclusivamente pela força do pensamento. Essa compreensão acerca da relação trabalho-homem vigorou por séculos.

Com a Revolução Industrial e a necessidade do homem acompanhar o ritmo da máquina, exigiu-se uma especialização. Agora não mais intelectual, mas técnica. Foi o marco da especialização mecânica do homem, em decorrência das exigências sociais. Especializar-se naqueles tempos era saber manusear os maquinários necessários para produzir o máximo de mercadorias, mesmo que não se soubesse seu fim.

Na sociedade contemporânea, graças às contribuições e críticas marxianas, entendemos o trabalho como um instrumento dignificador do homem. Hoje, o mercado de trabalho exige um trabalhador que domine a teoria e prática, que seja competente no que faz.          

Feito esse breve transcurso da evolução de como enxergamos o trabalho, apresentar-se-á a relação trabalho-valor em Marx.

Ao analisar o acúmulo de riquezas e buscar uma explicação para a produção de excedentes, Marx chegou à conclusão de que o trabalho humano gerava valor. Para o grande criador do socialismo, quanto mais tempo se demorasse para produzir um produto, mais ele valeria como mercadoria. Alerta-se, aqui, que o que gera valor, para Marx, não é o trabalho individual, mas social. Este, corresponde ao montante entre todo o trabalho produzido para gerar a mercadoria. Ou seja, estaria incluído no produto o trabalho de todos os trabalhadores – que colheram a matéria prima; que produziram os maquinários; que vendiam sua força de trabalho.

Disso se depreende que “n´O Capital´, a dialética do trabalho é mediada pelo valor, vale dizer, pelo fato de o produto do trabalho ser mercadoria”[2]. Esse valor abstrato, estabelecido pelo trabalho de todos os trabalhadores, se deu através da própria mercantilização do trabalho.

Através desta descoberta, se pode conhecer como o excedente desviava do trabalho humano dos produtores para os bolsos dos exploradores, gerando a mais-valia. Porém, relembrando que nosso objetivo não é aprofundar nos conceitos de Marx, foi através das análises marxianas que estabeleceu-se um valor para o trabalho – ainda inferior ao que se deveria ganhar – e conseguiu-se, através da luta política, iluminada pelos ideais socialistas, garantir direitos de segunda geração aos trabalhadores.


III CONCLUSÃO

O equilíbrio depende das duas partes com peso e proporcionalidades iguais, mas com cores, intenções e crenças diferentes. Qualquer desnível de uma forma de ideia, sobrevalendo sobre outra, é motivo de preocupação. Daí que não podemos esquecer, em pleno século XXI, da utopia, do sonho de uma sociedade melhor, mais humana, justa, livre e democrática. Não podemos deixar de pensar diferente, mas com equilíbrio e bom senso.          

Não se pode negar que a economia capitalista mutaciona-se celeremente e que esta mutação produz e acelera o conhecimento. Não se pode deixar de falar, também, que o controle da produção e a concentração de renda nas mãos de uma pequena minoria são fatores a serem discutidos e superados. Vale reafirmar que a pobreza é fruto de uma realidade produzida, não natural. Isso é inquestionável porque se todos passassem fome não existiria pobreza. A pobreza é fruto da própria desigualdade social.

Por outro lado, não podemos querer adequar a sociedade contemporânea, complexa, à interpretações e teorias que prevaleceram, fortemente, do seu surgimento até o século passado. Nem podemos, também, esquecermo-nos delas, mas fortificá-las, atualizá-las, sem dogmatismo, para a construção de uma sociedade com ideais verdadeiros de democracia participativa.

O marxismo não morreu, nem deverá morrer porque ele é o contraponto do sistema capitalista e, como tal, serve de equilíbrio para a própria manutenção da sociedade que sonhamos e vivenciamos; como luz da humanização do homem.  

Finalmente, o marxismo é de fundamental importância porque a sua eliminação traria incontáveis danos à essência humana. O capitalismo, por si só, prega uma liberdade que aliena o próprio homem, fazendo-o aceitar uma falsa liberdade; doutro modo, o comunismo tiraria a liberdade de grande parte dos homens e mulheres – ou a traria aos que tivessem a consciência socialista. A dominação de ideais capitalistas prevalecendo sobre todo o mundo deve ter um contrapeso socialista para que seja garantida a verdadeira democracia, que surge do confronto de ideias, de quereres, valores e interesses: da luta entre os contrários.


REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo (Org.). A Dialética do Trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004.

CECEÑA, Ana Ester (Org.). Os desafios das emancipações em um contexto militarizado – Tradução de Cecília Martha Botana - 1ª ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2008.

COUTINHO, Maurício Chalfin. Marx: Notas sobre a Teoria do Capital. São Paulo: Editora Hucitec, 1997.

QUINTANEIRO, Tânia (Org.). Um Toque de Clássicos – Marx, Durkheim e Weber. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Filosofia da práxis – 1ª ed. – Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales – CLACSO. São Paulo: Expressão Popular, Brasil, 2007.


NOTAS

[1] Kapital, p. 45.

[2] COUTINHO, 1997, p. 59.


Informações sobre o texto

Trabalho apresentado como requisito avaliativo da disciplina Sociologia Geral, 1º semestre, ano 2012.1, do Curso de Direito da Faculdade São Francisco da Paraíba – FASP.


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Comentários

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    José Alves Pontes

    Gosto do seu pensamento. Não é uma teoria querendo suplantar a outra. No entanto, o pensamento de Marx, não tem tanta relevância nos dias de hoje, naquilo que é palpável. Basta olharmos para a antiga união Soviética. Ela deixou de existir por que o Marxismo Leninismo não a sustentaria. Olhe para a Cuba de Fidel Castro! No entanto, quando olhamos para a China que é comunista, ela sobrevive e alcançou a segunda economia do mundo, por causa do capitalismo. Olhe para uma das Koréas, a que é comunista e a outra que é capitalista! Qual sobrevive melhor? Não concordo com o capitalismo selvagem, bruto e irracional. Mas o capitalismo tem segurado os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Quero te dar um exemplo de um capitalismo irracional. O Brasil. Os governantes da nossa nação, são diferentes das outras nações desenvolvidas. A cultura deles é trazer sustentabilidade para todos. Não para um grupo de pessoas. No Brasil, o Marxismo é tirar de uns e dar a outros apenas o dinheiro. Dá o peixe e não ensina a pescar. Os bolsista recebem o dinheiro e gastam. No dia que o governo deixar de dar bolsas, o povo que as recebe, voltará a vida de miséria que tinha antes. Isto é, não tiraram as pessoas da miséria. Elas continuam miseráveis do mesmo jeito. Agora, se o dinheiro gasto com elas fossem de maneira inteligente, racional, ajudando-as a desenvolverem um negócio próprio, mesmo pequeno, mas que dessem a elas o direito de continuar vivendo e desenvolvendo seu negócio, elas deixariam o estado de miséria que estavam. Infelizmente, não é o que acontece com a política Marxista no Brasil. O marxismo é paternalista no Brasil. Não é o que Marx queria. Ele na verdade queria uma distribuição de renda onde todos fossem participantes e se desenvolvessem. O marxismo é bom quando onde o capitalismo segura e desenvolve uma nação.

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