Presente, passado e futuro estão todos presentes no espaço geográfico em que habitamos.

A política só existe no espaço voluntariamente criado por pessoas desiguais. A moderna Europa unida é, de certa maneira, fruto desta tese de Hannah Arendt.  Mas nem sempre os europeus habitaram o mesmo espaço político. Uma das cenas mais marcantes do cinema é aquela que abre o filme Joyeux Noël (2005): meninos franceses, alemães e ingleses aprendem nas escolas a odiar os inimigos dos seus países. O ódio entre os europeus sobreviveria à I Guerra Mundial e o totalitarismo (fenômeno também estudado por Hannah Arendt) transformaria o temor e o ódio pelo “outro” em política de Estado cujo ápice macabro seria a solução final adotada pelo III Reich e o bombardeio indiscriminado dos Aliados às cidades históricas alemãs.

Os estragos provocados por duas guerras mundiais e o medo pavor de uma guerra nuclear mantiveram sob controle os nacionalismos europeus durante a Guerra Fria. Com o fim da URSS e do equilíbrio do terror, os europeus ficaram livres para se odiar uns aos outros e as guerras nacionalistas retornaram ao solo da Europa. Primeiro na antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia, agora na Ucrânia. Partidos nacionalistas e de extrema direita renasceram e crescem na França, Espanha, Itália e Alemanha. O ódio aos imigrantes da África sai das ruas e dos cafés europeus para Parlamento da UE. As fronteiras da Europa foram fechadas.  

A Europa não me surpreende. Bem fizeram meus antepassados quando a deixaram aquele continente no século XVI. Com todos seus defeitos, o Brasil é de longe muito melhor do que aquela terra de bárbaros ferozes que desde os tempos romanos se definem menos pelo que eles são e podem fazer pela humanidade e mais pelo ódio que devotam aos vizinhos e pelo desprezo que nutrem aos povos dos outros continentes. Sob o verniz da civilização cristã é possível ver nos europeus modernos algumas das piores atavismos dos seus antepassados sujos, desgrenhados e mal cheirosos que se intitulavam francos, alamanos, suevos, alanos, godos, visigodos, celtas, ostrogodos, germanos, vândalos, gépidas, hunos, etc… Como no passado, os europeus seguem se preparando mais para a guerra que para a paz. Eles parecem condenados a destruir o que construíram. Ao menor sinal de perigo, estigmatizam a diferença e cogitam o uso da violência.

Alguns de seus descendentes no Brasil seguem o mesmo padrão. Em nome de uma suposta superioridade moral e, eventualmente, racial, pequenos grupos de extrema direita pipocam aqui e ali. Eles exigem a pena de morte, batem panelas quando Dilma Rousseff faz pronunciamentos na TV, hostilizam em público quem estiver usando roupa vermelha, vandalizam sedes do PT e aplaudem com euforia a caça às bruxas promovida por Sérgio Moro com a esperança de ver Lula exibido numa jaula. Entre eles há aqueles que enforcam bonecos de Lula e de Dilma, que discriminam nordestinos nas redes sociais, que agridem gays nas ruas, que promovem linchamentos de suspeitos e que pregam o ódio aos imigrantes do Haiti. Bem fizeram meus antepassados quando vieram para o Brasil?

Nos EUA, “land of the free” como os norte-americanos gostam de dizer, negros são mortos por policiais brancos como se fossem moscas. Nem mesmo a Igreja é um lugar seguro para as vítimas da intolerância racial. Fugir não é uma opção. De fato, não temos mais para onde ir. Onde quer que estivermos seremos obrigados a ficar e a lutar contra a barbárie espalhada por racistas, supremacistas, elitistas, nazistas, fascistas e, no caso específico do Brasil, por tucanos anti-petistas. Todas as fronteiras estão novamente fechadas, onde quer que estejam amigos e inimigos são prisioneiros do mesmo destino. Bem vindo ao admirável mundo velho.

Roma criou os “bárbaros”, pois eles mesmos não reconheciam senão como francos, alamanos, suevos, alanos, godos, visigodos, celtas, ostrogodos, germanos, vândalos, gépidas, hunos, etc… Foi o historiador grego Políbio (203 aC — 120 aC) que forneceu à Roma sua utopia: a de civilizar os bárbaros. Aos povos que foram submetendo os romanos passaram a oferecer o “modo de vida romano” e, eventualmente, a cidadania romana. Quando o Império chegou ao seu ápice, não havia diferença entre um romano nascido em Roma e um originário do norte da África, da Espanha ou mesmo do Oriente Médio. Em pouco tempo cidadãos originários dos mais distantes cantos do império galgaram postos importantes na administração romana. Alguns deles chegaram ao posto de imperador.  A utopia inventada por Políbio, contudo, nunca deixou de ser um fardo amargo e doloroso para os escravos que viviam sob o jugo romano. A utopia que precisamos deve, portanto, se afastar do paradigma romano.

Há aqueles que acreditam na criação de um Estado planetário. Duvido muito desta utopia. Afinal, os Estados seguem existindo e agindo segundo seus próprios interesses, dentre os quais se destaca o de continuarem a ser independentes uns dos outros. Chineses são ensinados a desdenhar o “American way of life”. Russos não querem de maneira alguma ser norte-americanos. Norte-americanos sequer cogitam o absurdo de serem chineses. Europeus consideram africanos indesejáveis. Latino-americanos estão descobrindo, enfim, o prazer de ser apenas latino-americanos.  Africanos só querem fugir da África porque lá os Estados estão falidos. O ódio entre os povos fermenta dentro e fora das fronteiras nacionais. Além disto, como disse Hannah Arendt, o pior governo é o governo de ninguém. Em razão disto, uma tirania perfeita seria aquela em que a burocracia estivesse mais distante dos cidadãos que supostamente deveria proteger.

Não temos para onde fugir. Todas as utopias acabaram. A única utopia que nos restou está no espaço pode existir dentro de cada ser humano onde quer que ele esteja. Fomos finalmente condenados a combater a barbárie não no outro e sim dentro de nós mesmos.



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria