Neste artigo são feitas algumas considerações sobre o trabalho da imprensa e sobre a controvérsia acerca dos delatores da Lava Jato.

Toda boa narrativa começa com uma disputa entre dois personagens potencialmente poderosos. Após ter sido criado um contexto social, histórico, geográfico e emocional para a história ocorre a complicação. Em razão da ação ou omissão de uma das personagens o conflito entre elas passa a dominar a narrativa. A tensão vai sendo amplificada à medida que ocorrem vários embates entre os antagonistas, de preferência em situações e locais diferentes. O clímax ocorre quando um dos personagens consegue, enfim, sobrepujar totalmente o adversário. A restauração da harmonia ou a criação de um novo conflito encerra a narrativa.

Desde que foi inventada, a imprensa sempre utilizou as técnicas de narração para manter a atenção do leitor e continuar vendendo seu produto. A disputa entre Sérgio Moro e Dilma Rousseff foi criada pela e para a imprensa.

Em razão da estrutura constitucional do nosso país, o chefe do Poder Executivo (o Presidente da República) não tem como interferir no trabalho de um membro do Poder Judiciário (o juiz de primeira instância encarregado da operação Lava Jato). Em razão da super exposição midiática concedida a Sérgio Moro (e desejada por ele), Dilma Rousseff foi constrangida a manifestar sua opinião sobre os delatores. Ato contínuo, o juiz desautorizou publicamente a Presidenta.

A imprensa instiga esta disputa como se a mesma realmente existisse. A verdade, porém, é que este confronto de titãs nem mesmo pode existir. Não compete a Sérgio Moro julgar Dilma Rousseff, pois a Presidenta da República tem foro privilegiado. Quaisquer que sejam as convicções de Dilma Rousseff sobre os delatores da Lava a Jato isto não poderá limitar o trabalho do juiz. A Lei garante a Sérgio Moro o poder/dever de julgar o caso de acordo com sua convicção racional formada a partir dos elementos existentes nos autos do processo.

Os jornalistas não poderiam continuar cobrindo um conflito que não existe e nem pode existir. Em razão disto, a imprensa - que em tese deveria manter o respeitável público informado - é obrigada a paradoxalmente seguir escondendo dos leitores a impossibilidade de um confronto entre Moro e Dilma. É preciso que o conflito entre o juiz (transformado em celebridade pelos jornalistas) e a Presidente (odiada intensamente por alguns barões da mídia) tenha existência para que continue a atrair a atenção do público, possa ser usado como instrumento de chantagem ou moeda de troca e, principalmente, produza lucro para os mercadores das guerras de palavras.

Sem a atuação da imprensa Sérgio Moro teria obrigação funcional de fazer seu trabalho e Dilma Rousseff poderia governar tranquilamente. A imprensa quer impedir a presidenta de fazer o trabalho dela, por isto usa um juiz que se deixa usar para criar e sustentar o conflito entre ambos. Ao criticar os delatores, contudo, Dilma fez o que lhe compete: interferiu num debate que está poluindo o “campo político”. Ao defender publicamente os delatores, Sérgio Moro passou a ser juiz e advogado dos mesmos.

Tenho dito aqui mesmo que o juiz da Lava Jato se complica mais e mais cada vez que sai do “campo jurídico” para jogar no “campo político”. Um juiz que defende as pessoas que deve julgar não está mais em condição de proferir qualquer julgamento sobre as mesmas. Sérgio Moro é experiente, conhece seu ofício. Em razão disto, fica parecendo que ele está deliberadamente comprometendo sua isenção para permitir uma futura anulação do processo da Lava Jato. A conferir.



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