Trata-se de um pequeno texto onde se discute de forma simples e sucinta a banalização do mal dentro do ambiente de trabalho e que transforma o assediador, pela perda da capacidade de separar o bem e o mal, também em vítima do sistema capitalista.

Muito já se escreveu mas, evidentemente não o suficiente, sobre o assédio moral e o assédio organizacional no ambiente de trabalho. Na sua grande maioria os textos publicados privilegiam o assediado, tendo o assediador como alguém sem escrúpulos, vinculado ao mal e à necessidade de humilhar e excluir o outro.

Este pequeno ensaio busca trazer uma nova visão deste problema. Pretende-se analisar um pouco a pessoa do assediador, em especial em razão de que é ele o agente causador do dano, quer assédio moral quer assédio organizacional, mas em especial e maior grau aquele.

O assediador pode praticar o assédio moral por dois motivos.

Primeiro porque efetivamente é pessoa desprovida de limites éticos e morais, desconectada da sociedade e sem preocupação com o outro e com a inclusão do outro. O outro, no caso o empregado (subordinado ou não) não tem nenhuma importância, senão aquela de ser um meio para que possa ele chegar a um fim.

Contudo há aquele assediador que se preocupa com o outro. Que respeita a diversidade de opiniões e que baliza sua vida pela ética e moral. Educa seus filhos com base no que é certo, devendo eles respeitar o outro e incluir o outro. Mas como pode esta pessoa tornar-se um assediador moral?

A resposta não é tão simples. Ela está relacionada com o sistema organizacional das empresas e com a transformação da natureza do homem em seu ambiente de trabalho. As pressões corporativas fazem com que este tipo de assediador perca, no ambiente de trabalho, um dos elementos centrais de sua existência: a capacidade de discernir o que é certo do que é errado. Pelo medo de quem sabe perder o emprego em razão de baixa ou média produtividade, estrutura organizacional o pressiona de forma veemente, pressão esta que desemboca na ponta da estrutura laboral, ou seja, no trabalhador via assédio descendente ou mesmo ascendente.

O problema disso está não no fato de este assediador agir de forma agressiva e desrespeitosa. Está, antes de tudo, no fato de ter perdido a capacidade de diferenciar o que é certo do que é errado. O bom do mau. O útil do inútil. O humano do não-humano. E uma vez tendo perdido esta capacidade, ainda que tenha boa índole, repete o que lhe é cobrado de forma tão dura e severa, sem se dar conta, como se as exigências e assédio fossem algo corriqueiro, corrente e comum.

Há, na verdade, uma espécie de banalização do dano. Seria quase uma forma de banalização do mal, fruto da supressão dos conceitos de reconhecimento do outro pela estrutura organizacional.

Mas porque isso acontece?

Isso acontece porque o trabalhador, no momento em que labora de forma subordinada, portanto dentro da lógica capitalista, altera a natureza. Mas altera também sua natureza. Se a sua natureza é coletiva, inclusiva e protetora, a forma como o capitalismo exige excelência, produtividade e acúmulo de dinheiro sem propósito, altera a natureza humana transformando o trabalhador em uma espécie de mercadoria. E para que esta mercadoria (trabalhador) circule ela deve se adaptar às exigências do mercado que, hoje, não tolera baixa produtividade, compaixão e perdão.

É por esta banalização do mal, fruto da lógica capitalista de transformação do trabalhador em mercadoria que, muitas vezes, uma pessoa de boa índole e meiga pode se transformar, sem perceber, em um agente assediador. Este agente assediador, acreditem, é tão ou mais vítima que "suas vítimas": dele foi retirada a capacidade de diferenciação do bem e do mau, do bom e do ruim, do certo e do errado. Foi-lhe sacada da mente a ideia do justo, do solidário, do inclusivo, elementos essenciais para a convivência humana.

Daí dá para concluir-se que não apenas o assediado pode ser vítima de assédio moral. Antes dele, em alguns casos, o assediador é a primeira vítima de uma forma de assédio organizacional relacionado ao modo de produção que o transforma em mercadoria, mercadoria esta que deve agregar valor e, para isso, acaba por perder a consciência do que é bom, transformando as práticas assediadoras em atitudes banais, distante do conceito de mal, quando analisadas por seus próprios olhos.


Autor

  • Rafael da Silva Marques

    Juiz do Trabalho titular da Quarta Vara do Trabalho de Caxias do Sul;<br>Especialista em direito do trabalho, processo do trabalho e previdenciário pela Unisc;<br>Mestre em Direito pela Unisc;<br>Doutor em Direito pela Universidade de Burgos (UBU), Espanha;<br>Membro da Associação Juízes para a Democracia

    Textos publicados pelo autor


Informações sobre o texto

Este texto foi elaborado para chamar a atenção sobre a banalização do mal dentro da estrutura organizacional das empresas e que gera assédio moral não apenas sobre o assediado direito, mas sobre o assediador.

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

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