As advogadas ocupam em menor parte o quadro societário das grandes bancas da advocacia, já a aviação brasileira se orgulha do crescimento de 106% do número de pilotos mulheres, no período de 2015 a 2017, segundo dados da ANAC. Aprendamos com isso.




Alan Paulo Maurano Savedra[1]

Enquanto o número de mulheres à frente das grandes bancas de advocacia representa uma parcela diminuta do mercado, a aviação brasileira se orgulha do crescimento de 106%  do número de pilotos mulheres, no período de 2015 a 2017, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).[2] Exemplo de inclusão e feminização da carreira não observado na advocacia, porém um precedente necessário para uma advocacia mais justa e igualitária.

Em pesquisa, Rennê Martins Barbalho (Barbalho, 2008)[3], apurou, em quatro grandes escritórios brasileiros, através de acesso aos sítios eletrônicos de tais bancas de advocacia, que as mulheres representavam apenas 15% a 30% dos sócios destas sociedades de advogados; o que comparado às 515.068 advogadas e 551.442 advogados inscritos junto ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB)[4] denotam o grave estado de desproporção entre o número de advogadas inscritas nos quadros do CFOAB e o de advogadas sócias nos grandes escritórios de advocacia. 

Quanto aos dados apresentados pela ANAC, as mulheres com licença de Pilotos Privados de Avião (PPR) saltou de 279 para 740 (165% de aumento na categoria), já o número de Pilotos Privados de Helicóptero (PPH) passou de 47 mulheres em 2015 para 167 em 2017 (255% de aumento na categoria).[5]

O levantamento realizado pela ANAC, de fato, não apresentou as possíveis causas deste aumento de pilotos mulheres, ou ainda as razões da desproporção entre o número de pilotos homens (46.556) e pilotos mulheres (1.465). Já quanto a advocacia, Maria da Glória Bonelli (Bonelli, 2015)[6], através da análise do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA), e seus apontamentos quanto ao relatório “Best practices for the hiring, training, retentions and advancement os womans attorneys” (“Boas práticas para a contratação, treinamento, retenção, e progressão das mulheres advogadas”), apontou, como causa da desproporção entre homens e mulheres advogadas, o estigma sofrido pelo gênero feminino na advocacia, em principal o estereótipo de que as mulheres não são tão comprometidas com o trabalho quanto os homens, priorizando a família e filhos em detrimento do trabalho.

O campo da feminização no mercado de trabalho é amplo, a sociedade caminha cada vez mais para um mercado onde homens e mulheres não são vistos por seus estigmas e sim por suas competências; um exemplo: a inciativa global “Planeta 50-50 em 2030”, lançada pela Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres, que pretende ser uma das medidas da ONU para eliminar a desigualdade de gênero até 2030.[7]

 O mundo gira para um só lado, o da igualdade. A feminização das carreiras jurídicas é uma das principais pautas da Sociologia Jurídica, mulheres representam quase metade do número de inscritos nos quadros de advogados do CFOAB, porém, enquanto vítimas do estigma sofrido na profissão, encontram óbices para alcançar a composição societária das grandes bancas de advocacia. Tomemos por verdade então: as máscaras do estigma devem cair, para que a face de traços brutos e bem definidos da mulher advogada tome o seu lugar; não é privilégio, apenas isonomia.


[1] Advogado, partner na Marinho & Savedra Advocacia, membro da Comissão de Gestão Jurídica (CGJUR) e colaborador do Comissão OAB/Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional do Estado do Rio de Janeiro OAB/RJ, professor convidado na Universidade Castelo Branco (UCB), articulista, palestrante, pós graduado em Gestão Jurídica e Processo Civil pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC) e graduado pela Universidade Estácio de Sá (UNESA).

[2] Número de pilotos mulheres cresceu 106% no Brasil, https://airway.uol.com.br, 05 mar. 2018, disponível em: https://airway.uol.com.br/numero-de-pilotos-mulheres-cresce-106-no-brasil/, Acesso em 05 mar. 2018.

[3] BARBALHO, Rennê Martins. A feminização das carreiras jurídicas: construções identitárias de advogadas e juízas no âmbito do profissionalismo/Rennê Martins Barbalho. -- São Carlos UFSCar, 2008. 92 f.

[4] Quadro de Advogados, Quantitativo por Gênero, www.oab.org.br, 05 mar. 2018, Disponível em http://www.oab.org.br/institucionalconselhofederal/quadroadvogados, Acesso em 05 mar. 2018.

[5] Número de pilotos mulheres cresceu 106% no Brasil, https://airway.uol.com.br, 05 mar. 2018, disponível em: https://airway.uol.com.br/numero-de-pilotos-mulheres-cresce-106-no-brasil/, Acesso em 05 mar. 2018.

[6] Manual de Sociologia Jurídica, {Coordenadores} GONÇALVEZ SILVA, Felipe, RODRIGUEZ, José Rodrigo, São Paulo/SP, Internacionalização da Advocacia e o Perfil da Profissão do Brasil, BONELLI, Maria da Glória, p. 304, Saraiva,  1ª ed. 376p. 

[7]Planeta 50-50 em 2030,  http://www.onumulheres.org.br, 05 mar. 2018, Disponível em Http://www.onumulheres.org.br/planeta5050/, Acesso em 05 mar. 2018


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  • Alan Savedra

    Advogado, partner na Marinho & Savedra Advocacia, membro da Comissão de Gestão Jurídica (CGJUR) e colaborador do Comissão OAB/Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil da Seccional do Estado do Rio de Janeiro OAB/RJ, professor convidado na Universidade Castelo Branco (UCB), articulista, palestrante, pós graduado em Gestão Jurídica e Processo Civil pelo Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC) e graduado pela Universidade Estácio de Sá (UNESA).

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