O crime organizado transnacional representa um grave problema para o mundo todo, movimentando um mercado ilegal que rende bilhões de dólares todos os anos. Para o seu combate será indispensável a união entre os países, algo que se tornou relativamente difícil na nossa conturbada realidade.

Resumo: A Globalização trouxe uma quantidade infindável de mudanças, que a tornou um campo de estudo rico.  Neste contexto, com este estudo buscamos descobrir os efeitos da globalização no Direito por meio da análise da nossa própria legislação e também como este evento global alterou a forma que os criminosos tendem a agir ao longo do globo, focando no Crime Organizado Transnacional. Com base em relatórios e dados fornecidos pela UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), nós trouxemos uma imagem geral acerca das principais atividades criminosas ao redor do mundo e tentamos mostrar as dificuldades de combatê-las. Além disso, também buscamos e propusemos formas de combater esta ameaça oculta.

Palavras-Chave: Globalização; Direito; Criminalidade; COT (Crime Organizado Transnacional).

Abstract:Globalization brought endless changes that caused it to be considered a vast source of research. In this context, with this study we aimed to uncover the effects of globalization in Law, by analyzing our own legislation and also how this global event has changed the way criminals tend to act worldwide, focusing on Transnational Organized Crime. Based on reports and data provided by UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime), we brought forth a general picture about the main criminal activities around the globe and tried to show the difficulties of combating them. Besides, we also sought and have proposed ways of fighting this occult menace.

Key Words: Globalization; Law; Criminality; TOC (Transnational Organized Crime).


Introdução

O fenômeno da Globalização é ao mesmo tempo arcaico e recente. Arcaico por ter tido origem com as Grandes Navegações nos séculos XV e XVI e recente por ter se intensificado exponencialmente no século XX com a queda do socialismo e o surgimento do pensamento neoliberal, que impulsionou o processo de globalização econômica.

Ao fim da Guerra Fria, com a dissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), e com a queda do muro de Berlim em 1989, que dissolveu a ‘’Cortina de Ferro’’ levando a reunificação da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental (algo que está mais para o Mundo Ocidental e o Mundo Oriental), o capitalismo, triunfante, teve por fim a oportunidade de se expandir aos países anteriormente tidos como socialistas.

 Devido ao grande desenvolvimento tecnológico (com destaque aos setores de comunicação e de tecnologia industrial e espacial) ocorrido neste período, que vai da segunda guerra mundial até o fim da guerra fria, a produção de bens de consumo cresceu exponencialmente, todavia, o mercado consumidor não acompanhou este ritmo de crescimento. Com os mercados internos abarrotados, grande parte das empresas multinacionais buscaram novos mercados consumidores, principalmente dos países recém-saídos do socialismo. A concorrência fez com que as empresas investissem cada vez mais em recursos tecnológicos para baratear os preços, aumentar a produção e também para estabelecerem contatos comerciais e financeiros de forma rápida e eficiente. Nesse contexto, entra a utilização da Internet, das redes de computadores, dos meios de comunicação via satélite e mais recentemente, dos smartphones e outros aparelhos eletrônicos de última geração.

Na nossa realidade, os smartphones, computadores, tablets, notebooks e outros aparelhos semelhantes acarretaram uma verdadeira revolução na forma de ver, sentir e interagir com o mundo, alterando profundamente a sociedade e a sua forma de organização. Afinal, quem imaginaria que não seria mais necessário ir até uma loja para adquirir os seus produtos, ou que a interação social por meio das redes sociais, de certa forma, substituiria a interação humana propriamente dita (a tida relação olho no olho)?

Não podemos, portanto, negar que um fenômeno complexo, heterogêneo e tão rico como este produz alterações significativas no âmbito do direito, haja vista que esse é um ramo das ciências sociais, logo está em constante transformação com a sociedade.

Porém, como a globalização influência a atuação dos criminosos?

Para responder a esta pergunta, devemos salientar que a crescente integração entre os países facilita a atividade de movimentos de defesa dos direitos humanos e das instituições de caridade. Todavia, ao mesmo tempo abre grandes oportunidades para instituições muito menos desejadas: as organizações criminosas transnacionais.

Grupos que traficam drogas, que contrabandeiam armas e outros produtos e que vendem jovens para serem escravos (não apenas sexuais) representam um grande desafio para qualquer governo ou estado contemporâneo.


Objetivos

O presente estudo tem por fim uma análise não exaustiva das mudanças causadas pelo fenômeno da Globalização na área do Direito e na sociedade como um todo. Tendo ainda como foco principal um tema menos discutido, porém não menos importante: a criminalidade transnacional.

Temos a intenção de analisar a forma de atuação do crime organizado e dos grupos que o compõem, com base em pesquisas, dados estatísticos e relatórios fornecidos pela UNODC e buscar uma compreensão geral do atual quadro de atividades criminosas que se dão a nível internacional.


Metodologia

O método utilizado neste trabalho é o bibliográfico. Partimos de pesquisas e registros que foram disponibilizados pela UNODC com a finalidade de criar um conhecimento geral do assunto. Realizamos a análise de registros individuais acerca do referente com o intuito de criar um conjunto de ideias conclusivas. Além disso, fora realizado um estudo da própria legislação com o intuito de aferir as novidades trazidas ao ordenamento jurídico por influência dos efeitos da globalização como fenômeno ligado à mutação legislativa.


Resultados e Discussão

Já dizia Bauman em 1999:

A “globalização” está na ordem do dia; uma palavra da moda que se transforma rapidamente em um lema, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as portas de todos os mistérios presentes e futuros. Para alguns, “globalização” é o que devemos fazer se quisermos ser felizes; para outros, é a causa da nossa infelicidade. Para todos, porém, “globalização” é o destino irremediável do mundo, um processo irreversível; é também um processo que nos afeta a todos na mesma medida e da mesma maneira. Estamos todos sendo “globalizados” — e isso significa basicamente o mesmo para todos (BAUMAN, 1999, p. 07).

Podemos conceituar a globalização como um processo social, econômico e tecnológico que estabelece uma integração entre os países e as pessoas do mundo todo, de forma que identificamos um só mundo, uma só realidade. Por meio deste processo os corpos governamentais, as empresas e as pessoas, trocam informações, realizam transações e derramam elementos culturais por todo o globo.

Devemos fazer aqui um destaque à noção de “Aldeia Global” criada pelo filósofo canadense Marshall McLuhan, segundo a qual, os avanços tecnológicos, sobretudo aqueles relacionados aos meios de comunicação de massa como a televisão, iriam aproximar os indivíduos do globo, reduzindo as distâncias não somente físicas, mas também sociais entre eles. Criando assim uma unidade cultural, isto é, uma verdadeira aldeia, onde todos estariam de alguma forma interligados.

Conforme salienta Polon:

O conceito de globalização está atrelado a um sentimento de interdependência, uma noção crescente de que todos os indivíduos estão vivendo um mesmo tempo, em um mesmo mundo. A globalização é comumente ligada ao contexto econômico, no entanto, convém destacar que ela afeta todos os aspectos da vida humana, desde os elementos mais subjetivos até a materialidade (POLON, online, não paginado). 

A própria ciência jurídica sofreu incontáveis mudanças ao longo dos anos devido a este fenômeno. Exemplos de grandes mudanças causadas pela globalização no campo do direito são os surgimentos dos contratos virtuais e do comércio eletrônico, que ensejam mudanças no Direito do Consumidor desde o início do novo milênio. Como exemplo, podemos citar a criação de leis como a Lei Nº 12.965, de 23 de abril de 2014, conhecida como o marco civil da internet, responsável por regular, entre outros assuntos, as formas de relação entre os provedores de internet e os seus clientes. Além disso, não podemos deixar de discutir acerca da grande influência da globalização para o Direito Penal, que foi atingido em cheio, em vários aspectos, pelas mudanças decorrentes do evento narrado. Tal fato é percebido pela criação de novas infrações penais, com diversos meios executórios, tal como a Lei nº 9.613 de 3 de março de 1998, referente ao delito de “lavagem de capitais (ou dinheiro) ” e também pela sanção da Lei nº 9.983 de 14 de julho de 2000 que alterou significativamente o Código Penal com ênfase nos novos crimes “cibernéticos”, a exemplo dos seguintes delitos:

Art. 313-A. Inserir ou facilitar, o funcionário autorizado, a inserção de dados falsos, alterar ou excluir indevidamente dados corretos nos sistemas informatizados ou bancos de dados da Administração Pública com o fim de obter vantagem indevida para si ou para outrem ou para causar dano: "Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa"

Modificação ou alteração não autorizada de sistema de informações:

Art. 313-B. Modificar ou alterar, o funcionário, sistema de informações ou programa de informática sem autorização ou solicitação de autoridade competente:

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 2 (dois) anos, e multa.

Parágrafo único. As penas são aumentadas de um terço até a metade se da modificação ou alteração resulta dano para a Administração Pública ou para o administrado.

Agora que demonstradas, mesmo que brevemente as mudanças provocadas no âmbito do direito, gostaríamos de regressar ao tema principal abordado no presente trabalho: o crime organizado transnacional.

Não existe ainda um consenso sobre a definição de “crime organizado transnacional”. O que já se sabe é a definição de “grupo criminoso organizado”. A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, também conhecida como Convenção de Palermo, aprovada no Brasil como Decreto nº 5.015, de 12 de março de 2004, estabelece em seu artigo 2º, alínea “a” o seguinte conceito para “grupo criminoso organizado”:

Artigo 2

Terminologia

Para efeitos da presente Convenção, entende-se por:

a) "Grupo criminoso organizado" - grupo estruturado de três ou mais pessoas, existente há algum tempo e atuando concertadamente com o propósito de cometer uma ou mais infrações graves ou enunciadas na presente Convenção, com a intenção de obter, direta ou indiretamente, um benefício econômico ou outro benefício material.

[...]

Partindo deste conceito de grupo criminoso organizado, podemos aferir uma definição para o crime organizado transnacional. Este nada mais seria do que o conjunto de todas as atividades criminosas com implicações a nível internacional, que são movidas pelo objetivo de se obter uma vantagem material ilícita.

Tem-se que o crime organizado transnacional apenas encontrou destaque na agenda internacional recentemente, mas, mesmo assim, já conseguiu uma notável atenção nos anos que se passaram. “É atualmente identificado como uma das seis ameaças que o mundo deve se preocupar, agora e nas próximas décadas. Tendo sido assim identificado na ‘’United Nations High-level Panel on Threats, Challenges, and Change’’ realizada em 2004” (UNODC, 2000, p. 01, tradução nossa).

Quanto à forma de abordagem ao crime organizado transnacional, existem ao menos duas vertentes de atuação, conforme a UNODC:

Existem duas formas de se abordar o crime organizado transnacional: alguns focam nos grupos compostos por criminosos profissionais enquanto outros focam nos mercados ilícitos. O primeiro enfoque até recentemente teve maior destaque. Métodos que incluem a prisão e a apreensão mostraram algum resultado a nível nacional, todavia, tudo que se conseguiu foi “empurrar” as rotas de tráfico a outros países, que demonstravam menor resistência, países que não possuem a capacidade necessária para carregar o fardo representado pela criminalidade transnacional (UNODC, 2010, p. V, introdução, tradução nossa).

Além disso, aquela forma de atuação direcionada para afetar diretamente as organizações criminosas tem sido deixada de lado para dar espaço a uma atuação focada em dar fim aos mercados ilícitos que motivam a atuação destas organizações, desta forma, dando-se cabo ao mercado no qual estas organizações atuam o problema pode ser resolvido de maneira mais pontual, tendo em vista que o ataque isolado às organizações criminosas apenas acarreta a sua posterior substituição por outras organizações, que irão dar continuidade à exploração do mercado ilícito que se restou intocado. Nesse sentido:

O crime organizado atualmente se tornou menos uma questão de um grupo de indivíduos envolvidos com alguma atividade ilícita e mais uma questão de um grupo de atividades ilícitas em que alguns grupos ou indivíduos estão envolvidos: estratégias que focam os grupos não irão parar as atividades ilícitas se as dinâmicas do mercado continuarem sendo ignoradas (UNODC, 2010, p. V, introdução, tradução nossa).

Uma lista não tão abrangente das atividades do crime organizado transnacional com certeza incluiria o tráfico de pessoas, o contrabando de imigrantes, o tráfico de heroína, de cocaína, de armas, de bens falsificados, de recursos ambientais, a pirataria marítima (não no sentido do contrabando, mas sim do rapto e saque de embarcações) e os crimes cibernéticos.

Entre as grandes dificuldades para o combate a estes grupos, destaca-se o fato de ser muito difícil para um governo nacional combater grandes redes de crime organizado sem ter um controle total sobre as áreas que tais organizações atuam. Podemos demonstrar esta dificuldade com o exemplo do tráfico da cocaína, que é produzida em países como a Colômbia, mas possui a maior parte do mercado consumidor em países centrais como os Estados Unidos. Como se não bastasse, o dinheiro adquirido com a venda dos entorpecentes é “lavado” em paraísos fiscais, dificultando ainda mais as investigações. Outra dificuldade remete ao fato de que a maioria das ofensas não possui uma vítima, destarte nenhuma das partes envolvidas tem o interesse de levar a questão à polícia. Mesmo os delitos que possuem uma vítima muitas vezes não são registrados devido à relutância desta (que muitas vezes teme uma represália) em registrar o delito.

Faremos agora uma análise das principais incidências e cenários de crimes com implicância internacional, abordando entre os delitos citados no segundo parágrafo da presente página, devido a sua proeminência, os seguintes: o tráfico de pessoas, de cocaína e de heroína.

Com relação ao primeiro, o conceito internacionalmente difundido de tráfico de pessoas, é o do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, conhecido como Protocolo de Palermo.

O Protocolo de Palermo, Instrumento legal internacional que trata do tráfico de pessoas, em especial de mulheres e crianças, foi elaborado em 2000, tendo entrado em vigor em 2003. Foi ratificado pelo Brasil por meio do Decreto nº 5.017, de 12/03/2004. O artigo 3º, alínea a, do referido decreto estabelece o seguinte:

a) A expressão "tráfico de pessoas" significa o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos;

A legislação penal brasileira, com relação à repressão do tráfico de pessoas encontrava-se defasada até o ano de 2016, tendo em vista que somente abordava o tráfico de pessoas (internacional ou interno) para fins de exploração sexual, indo assim, de encontro com o exposto no Protocolo de Palermo, que elenca, conforme supramencionado, diversas finalidades para o tráfico de pessoas que não incluem a exploração sexual, dentre elas a remoção de órgãos ou a escravatura e práticas similares. Contudo, tal paradigma mudou com a edição da lei nº 13.344, de 06 de outubro de 2016, também conhecida como Lei de Tráfico de Pessoas, que inseriu o art. 149-A no Código Penal, com a seguinte redação:

Art. 149-A. Agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de:              (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

I - remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo;               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

II - submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo;               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

III - submetê-la a qualquer tipo de servidão;               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

IV - adoção ilegal; ou               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

V - exploração sexual.               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

§ 1º A pena é aumentada de um terço até a metade se:               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

I - o crime for cometido por funcionário público no exercício de suas funções ou a pretexto de exercê-las;               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

II - o crime for cometido contra criança, adolescente ou pessoa idosa ou com deficiência;               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

III - o agente se prevalecer de relações de parentesco, domésticas, de coabitação, de hospitalidade, de dependência econômica, de autoridade ou de superioridade hierárquica inerente ao exercício de emprego, cargo ou função; ou               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

IV - a vítima do tráfico de pessoas for retirada do território nacional.               (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

§ 2º A pena é reduzida de um a dois terços se o agente for primário e não integrar organização criminosa.              (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2016)          (Vigência)

Assim sendo, com o advento da referida lei, a repressão ao tráfico de pessoas no Brasil aproximou-se da proposta do Protocolo de Palermo, abordando o problema sob a ótica das várias formas por meio das quais o tráfico de pessoas se manifesta, deixando de lado aquela abordagem que se limitava ao tráfico destinado à exploração sexual.

Quanto à extensão do tráfico de pessoas, é certo que se trata de um fenômeno genuinamente global, com registro de casos na maior parte do globo, conforme a UNODC:

O tráfico de pessoas é um fenômeno verdadeiramente global: Vítimas de pelo menos 127 países foram detectadas pela ONU e 137 países reportaram terem encontrado vítimas. Estimam-se cerca de 140 mil vítimas do tráfico de pessoas na Europa, gerando uma renda anual de aproximadamente US$3 bilhões aos seus exploradores. Considerando-se o período de exploração médio de dois anos, teríamos mais de 70 mil novas vítimas anualmente (UNODC, 2010, p. 03/04, tradução nossa).

Com relação ao número de vítimas brasileiras ao redor do mundo, embora seja muito difícil precisar o número exato daquelas pessoas que sofreram com a prática desta atuação criminosa, têm se que:

No período entre 2005 e 2011, foram identificados (as) 337 brasileiras (os) vítimas de tráfico para fins de exploração sexual e 135 brasileiras (os) vítimas de tráfico para fins de trabalho escravo em 18 diferentes países, além de 3 vítimas cuja forma de exploração é ignorada. O país onde foi registrada uma incidência maior de brasileiros (as) vítimas de tráfico de pessoas foi o Suriname, com 133 vítimas, seguido da Suíça, com 127, da Espanha, com 104 e da Holanda, com 71. Em países como Portugal e Itália, foram registradas nove vítimas de tráfico de pessoas.

Na Alemanha, quatro vítimas. Na Áustria, Argentina e Índia, três vítimas. Em Cuba, Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, República Tcheca, Peru e Venezuela, foi registrado um caso (UNODC; SECRETARIA NACIONAL DE JUSTIÇA; MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2013, p. 32/33).

Abordando agora a cocaína temos que ela é produzida a partir da planta de Coca (Erythroxylum coca) e segundo Araguaia a sua produção é realizada em duas fases:

Na primeira fase da extração do alcaloide, as folhas são prensadas em ácido sulfúrico, querosene ou gasolina, resultando em uma pasta denominada sulfato de cocaína. Na segunda e última, utiliza-se ácido clorídrico, formando um pó branco. Assim, neste segundo caso, ela pode ser aspirada, ou dissolvida em água e depois injetada. Já a pasta é fumada em cachimbos, sendo chamada, neste caso, de crack [...] (ARAGUAIA, online, não paginado).

O cultivo da Coca (Erythroxylum coca), no ano de 2015, conforme a UNODC (2017), foi de 156,5 mil toneladas nos principais países produtores da substância, quais sejam Bolívia, Colômbia e Peru sendo que no mesmo ano, apenas 45.266 mil toneladas da folha foram destruídas. No período de 2005 a 2015 a produção naqueles países totalizou 1.682.600 milhão de toneladas, enquanto no período de 2006 a 2015 a erradicação foi de apenas 685,457 mil toneladas[2].

No referente ao tráfico da droga, conforme a UNODC (2010), existem dois fluxos principais: da América do Sul para a América do Norte e da região Andina para a Europa. Acerca do primeiro fluxo, hodiernamente, a cocaína é transportada da Colômbia para o México ou para a América Central pelo mar, e em seguida por terra aos Estados Unidos e Canadá.

De acordo com a UNODC:

As autoridades estadunidenses estimam que 90% da cocaína que adentra o país o faz pelas fronteiras com o México [...]. Aproximadamente 196 toneladas de cocaína são necessárias para satisfazer a demanda nos EUA, uma quantidade avaliada em US$ 38 bilhões em 2008. (UNODC, 2010, p. 05, tradução nossa)

O segundo fluxo (região Andina para a Europa) aumentou consideravelmente nos últimos anos tanto pelo fato de o mercado norte-americano ter diminuído consideravelmente nas últimas décadas, em virtude da adoção de medidas que combateram o tráfico e o consumo da droga, quanto pelo aumento do número de consumidores na Europa, que passou de “2 milhões em 1998 a 4.1 milhões em 2007/2008. No mesmo período o valor do mercado europeu aumentou de US$ 14 bilhões para US$ 34 bilhões” (UNODC, 2010, p. 06, tradução nossa), sendo assim, portanto, apenas US$ 4 bilhões inferior ao valor do mercado norte-americano no ano de 2008.

Tratando-se da heroína, dois fluxos se destacam: do Afeganistão para a Federação Russa e do Afeganistão para a Europa.

Como preleciona a UNODC:

A grande maioria da heroína comercializada tem origem no Afeganistão, sendo o mercado internacional alimentado por ela avaliado em US$ 55 bilhões anualmente. As rotas pelo norte e pela península balcânica são as principais. Estas ligam o Afeganistão ao mercado russo (avaliado em US$ 13 bilhões) e o do oeste europeu (avaliado em US$ 20 bilhões). (UNODC, 2010, p. 06, tradução nossa).

A federação Russa é o país com o maior número de consumidores de heroína no globo, número que cresceu exponencialmente após a queda da União Soviética, alcançando o montante estimado de 1.5 milhão de usuários (UNODC 2010). A maior parte desta droga é transportada por terra para a Rússia. Os criminosos pautam-se na facilidade de atravessar a fronteira entre os países ao norte do Afeganistão para realizar o transporte da droga. Isto porque todos os países que estão naquela região foram parte da URSS, fato que facilitou o estabelecimento de fronteiras cuja transposição é relativamente facilitada, as quais são aproveitadas pelos criminosos. Além disso, é cediço que os países na região são, em sua maioria pobres, e não possuem recursos suficientes para monitorar as fronteiras e impedir o tráfico na região de forma efetiva, tampouco pode-se dizer que o combate ao tráfico é sua prioridade.

Conforme a UNODC:

Para que as 70 toneladas de heroína cheguem aos consumidores russos, cerca de  95 toneladas, ou 25% de toda a produção Afegã exportada deve passar do Afeganistão para a Asia Central, sendo que a maior parte deste volume passa pelo Tajiquistão. Tanto grupos grandes e bem organizados, quanto pequenos criminosos aparentam estarem envolvidos no tráfico, sendo que a droga comumente passa por diversas mãos até chegar aos consumidores (UNODC, 2010, p. 07, tradução nossa).

Com relação à droga que é exportada para o mercado europeu, têm se que este transporte se dá, sobretudo, por terra, partindo do Afeganistão para o Irã, passando pela Turquia e pelo Sudeste Asiático. Segundo a UNODC (2010), cerca de 140 toneladas de heroína devem sair do Afeganistão por meio desta rota para que a demanda do mercado europeu (87 toneladas) seja satisfeita, sendo que a diferença (53 toneladas) é perdida, em sua maior parte, devido a apreensões realizadas no Irã e na Turquia[3].

O tráfico nesta rota é realizado, sobretudo por nacionais dos países de origem da droga, ou daqueles por quais ela passa. Contudo não é incomum vislumbrar profissionais contratados especificamente para realizar o trabalho. Ao longo da rota, é típica a contribuição de diversos grupos étnicos, como os Balúchis, Pashtuns, Azeris, Curdos, Árabes e Persas. Uma vez na Turquia, grandes embarques são divididos em outros menores, para facilitar sua disseminação até chegar aos consumidores finais (UNODC 2010).


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