A publicação tem por objeto a análise dos conceitos trazidos pelo Decreto 3.665/2000, Decreto 5.123/2004 e pelo Decreto 9.493/2018 (que revoga o primeiro), a fim de complementar o Estatuto do Desarmamento, que é uma norma penal em branco heterogênea.

O Estatuto do Desarmamento é uma norma penal em branco heterogênea (em sentido estrito), isto é, precisa ser complementada por lei de diferente órgão do que a criou. É o que chamamos de leis cegas (almas errantes a procura de um corpo) ou normas incompletas. Na leitura das regras, não sabemos o que é uma arma de fogo, o que é uso permitido, o que é uso restrito ou até o que é um calibre, uma munição ou um acessório, razão pela qual precisamos alicerçar nosso estudo ao Decreto 3.665/2000, ao Decreto 5.123/2004 e ao Decreto 9.493/2018 (que revoga o primeiro), que tratam da fiscalização de produtos controlados, dentre outros, e definem diversos conceitos referentes a armas de fogo.

 No presente artigo, iremos tratar, com relativa profundidade, vários conceitos trazidos nas leis supracitadas, que são necessários à compreensão dos crimes do Estatuto do Desarmamento. Embora sabendo da revogação do Decreto 3.665/2000 pelo Decreto 9.493/2018, pouca alteração terá em termos de conceitos, somente residindo razoável diferença acerca do uso permitido e resrtito.


I) O que é arma de fogo?

 Embora possa parecer enfadonha a definição de uma arma de fogo, esta é fundamental para que entendamos do que trata, tecnicamente, o Estatuto do Desarmamento. É imperioso, inclusive para sustentação de teses defensivas para crimes desta lei, que tenhamos noção do que é uma arma de fogo e o que a diferencia de uma arma de fogo obsoleta ou de uma arma branca, que são conceitos também trazidos pelo Decreto 3.665/2000. Além disso, é flagrante nossa carência em entender os tipos e características desses objetos, razão pela qual o texto também introduzirá tal nomenclatura.

 Pelo conceito mais geral possível, o decreto mencionado tenciona.

Art. 3º.

XIII - arma de fogo: arma que arremessa projéteis empregando a força expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara que, normalmente, está solidária a um cano que tem a função de propiciar continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil;

 Por outro lado, este decreto também distingue uma arma de fogo de uma arma de fogo obsoleta, que, nas palavras do próprio Art. 3º, XXI, "presta-se mais a ser considerada relíquia ou a constituir peça de coleção", ou seja, se distancia do objetivo da arma, trazido no inciso IX do mesmo Art. 3º, que é "causar dano, permanente ou não, a seres vivos e coisas" e assume um caráter meramente demonstrativo. Além  do avocado, a arma de fogo obsoleta se diferencia da arma de fogo pois "não se presta mais ao uso normal, devido a sua munição e elementos de munição não serem mais fabricados, ou por ser ela própria de fabricação muito antiga ou de modelo muito antigo e fora de uso", nos termos no mesmo inciso XXI do Art. 3º do Decreto 3.665/2000.

 O conceito de arma branca, por outro lado, está associado a " artefato cortante ou perfurante, normalmente constituído por peça em lâmina ou oblonga", conforme o inciso XI do Art. 3º, então não depende da força expansiva de um gás para lançamento de projétil por meio de um cano. São facilmente reconhecidas como facas, ou espadas.

 Por fim, é necessário destacar que a arma de pressão não se confunde com a arma de fogo, conforme definição do Decreto 9.493/2018:

Arma de pressão: arma cujo princípio de funcionamento é o emprego de gases comprimidos para impulsão de projétil, os quais podem estar previamente armazenados em uma câmara ou ser produzidos por ação de um mecanismo, tal como um êmbolo solidário a uma mola.

Geralmente identificáveis pelo cano laranja na ponta, essas armas não representam a mesma periculosidade de uma arma de fogo (talvez por isso não tenham sido ainda proibidas pelo legislador) e seus projéteis são impulsionados por outros meios que não os mesmos de uma arma de fogo, como uma mola ou gases comprimidos. Quando se fala de airsoft, paintball, "nerfs", dentre outros, está se falando de armas de pressão, que pouco se relacionam com arma de fogo, embora a apresentação estética de algumas, tal como o manuseio, sejam semelhantes a de uma arma real.

I.A) Armas de fogo de alma lisa e armas de fogo de alma raiada

 Outra informação que será útil à última análise do artigo, referente ao uso permitido ou restrito, diz respeito ao raiamento da arma de fogo. A foto do agente James Bond, vista de dentro de um cano de uma arma, em um primeiro momento pode até parecer meio clichê para o assunto, mas apresenta uma informação muito importante para diferenciar os tipos de canos de uma arma de fogo.

 Antigamente, as armas tinham cano liso (é o que se chama de alma lisa), ou seja, não tinham "sulcos helicoidais", que são essas fissuras que parecem, em termos mais leigos, marcas de parafuso, as quais servem para fazer o projétil girar ao sair do cano, dando maior alcance e precisão.

 Pela definição do Decreto 9.493/2018, Anexo II:

Arma de fogo de alma lisa: é aquela isenta de raiamentos, com superfície absolutamente polida, como, por exemplo, nas espingardas. As armas de alma lisa têm um sistema redutor, acoplado ao extremo do cano, que tem como finalidade controlar a dispersão dos bagos de chumbo.

Arma de fogo de alma raiada: quando o interior do cano tem sulcos helicoidais dispostos no eixo longitudinal, destinados a forçar o projétil a um movimento de rotação.

 A "alma raiada", vem do processo de raiamento, que se perfaz da introdução de raias na parte interna do cano. Por surpresa, o Decreto 3.665/2000 define o que são raias:

Art. 3º.

LXXI - raias: sulcos feitos na parte interna (alma) dos canos ou tubos das armas de fogo, geralmente de forma helicoidal, que têm a finalidade de propiciar o movimento de rotação dos projéteis, ou granadas, que lhes garante estabilidade na trajetória;

 As armas com cano de alma lisa hoje não necessariamente caíram em completo desuso, embora em muito casos tenham sido ultrapassadas pela necessidade das modernas guerras. As espingadas (famosas pelo espalhamento do tiro), ainda utilizam cano liso, acompanhado de um estrangulador na sua ponta, para diminuir a dispersão exagerada das balas.

I.B) Armas automáticas, semi-automáticas e de repetição

 Acima observamos um soldado americano atirando com uma arma automática, denominada M249, que, por sua natureza, automaticamente dispara vários projéteis quando o agente segura o gatilho. As semi-automáticas, de forma diversa, dependem que, a cada tiro, o atirador puxe o gatilho uma vez. Por fim, as armas de repetição, que antigamente eram as portáteis mais comuns, dependem da operação de um mecanismo, além do gatilho, para dar o tiro subsequente, consoante a conceituação do Decreto 3.665/2000.

Art. 3º 

X - arma automática: arma em que o carregamento, o disparo e todas as operações de funcionamento ocorrem continuamente enquanto o gatilho estiver sendo acionado (é aquela que dá rajadas);

XVI - arma de repetição: arma em que o atirador, após a realização de cada disparo, decorrente da sua ação sobre o gatilho, necessita empregar sua força física sobre um componente do mecanismo desta para concretizar as operações prévias e necessárias ao disparo seguinte, tornando-a pronta para realizá-lo;

XXIII - arma semi-automática: arma que realiza, automaticamente, todas as operações de funcionamento com exceção do disparo, o qual, para ocorrer, requer, a cada disparo, um novo acionamento do gatilho;

I.C) Tipos de arma de fogo

 No caso, não serão abordados todos os tipos de arma de fogo, mas aqueles constantes nas leis em estudo, que podem ser guiados pela imagem abaixo. Pugna-se para que o leitor não se atenha à especificidade das armas, mas aos seus aspectos gerais. O guia abaixo, neste momento do texto, é bem mais ilustrativo do que técnico, apenas para que o leitor leigo no assunto consiga entender as diferenciações.

 Na ordem da imagem, de cima para baixo, para que fique o mais didático possível:

a) Um fuzil (primeira arma da foto) é uma "arma de fogo portátil, de cano longo e cuja alma do cano é raiada" (Art. 3º, LII, do Decreto 3665/2003), e, no caso, a arma também é uma metralhadora, que é uma "arma de fogo portátil, que realiza tiro automático" (Art. 3º, LXI, do Decreto 3665/2003);

b) Uma espingarga (segunda arma da foto) é uma "arma de fogo portátil, de cano longo com alma lisa, isto é, não-raiada", mas pode ter o cano cortado também (Art. 3º, XLIX, do Decreto 3665/2003);

c) Uma carabina (representada pela terceira arma da foto) é uma "arma de fogo portátil semelhante a um fuzil, de dimensões reduzidas, de cano longo - embora relativamente menor que o do fuzil - com alma raiada" (Art. 3º, XXXVII, do Decreto 3665/2003) ou, dependendo, pode ser um mosquetão, que é um "fuzil pequeno, de emprego militar, maior que uma carabina, de repetição por ação de ferrolho montado no mecanismo da culatra, acionado pelo atirador por meio da sua alavanca de manejo" (Art. 3º, LXIII, do Decreto 3665/2003). Para quem gosta de filmes, basta se lembrar das clássicas M1 Garand, da Segunda Guerra Mundial;

d) Um revólver (baixo-esquerda) é uma "arma de fogo de porte, de repetição, dotada de um cilindro giratório posicionado atrás do cano, que serve de carregador, o qual contém perfurações paralelas e eqüidistantes do seu eixo e que recebem a munição, servindo de câmara" (Art. 3º, LXXIV, do Decreto 3665/2003);

e) Uma pistola (baixo-direita) é uma "arma de fogo de porte, geralmente semi-automática, cuja única câmara faz parte do corpo do cano e cujo carregador, quando em posição fixa, mantém os cartuchos em fila e os apresenta seqüencialmente para o carregamento inicial e após cada disparo; há pistolas de repetição que não dispõem de carregador e cujo carregamento é feito manualmente, tiro-a-tiro, pelo atirador", podendo também ser uma pistola-metralhadora (que é um pouco diferente da imagem acima), que é "metralhadora de mão, de dimensões reduzidas, que pode ser utilizada com apenas uma das mãos, tal como uma pistola" (Art. 3º, LXVII e LXVIII, do Decreto 3665/2003);

 Por fim, não com intuito de levar o assunto à exaustão, pois isso também não seria possível, cabe a diferenciação de uma arma portátil e uma arma não-portátil. Das armas trazidas acima, todas são portáteis, já na imagem abaixo vemos uma arma não-portátil e também classificada como arma pesada, que é "uma arma empregada em operações militares em proveito da ação de um grupo de homens, devido ao seu poderoso efeito destrutivo sobre o alvo e geralmente ao uso de poderosos meios de lançamento ou de cargas de projeção" (Art. 3º, XIX, do Decreto 3665/2003), mas cuidado: nem toda arma não-portátil se encaixa no conceito de arma pesada.

Art. 3º.

XX - arma não-portátil: arma que, devido às suas dimensões ou ao seu peso, não pode ser transportada por um único homem;

XXII - arma portátil: arma cujo peso e cujas dimensões permitem que seja transportada por um único homem, mas não conduzida em um coldre, exigindo, em situações normais, ambas as mãos para a realização eficiente do disparo;


II) O que é munição?

 Munição, ou ammunition (em inglês), é, ao contrário do que se pode imaginar, mais que somente o projétil da arma de fogo. O projétil é somente a parte que é arremessada no tiro, enquanto a munição abarca o cartucho inteiro, que inclui o projétil, o estojo (que é a cápsula que envolve tudo), o propelente (que é a fonte de energia química capaz de impulsionar o projétil para frente, com velocidade) e a espoleta (que é um recipiente que contém a mistura detonante e uma bigorna). Talvez fique mais claro pela imagem acima.

 A definição legal de munição encontra-se no Art. 3º, LXIV, do Decreto 3.665/2000.

Art. 3º.

LXIV - munição: artefato completo, pronto para carregamento e disparo de uma arma, cujo efeito desejado pode ser: destruição, iluminação ou ocultamento do alvo; efeito moral sobre pessoal; exercício; manejo; outros efeitos especiais;

 Como se pode observar, o dispositivo faz questão de indicar que trata-se do artefato completo, não somente do projétil, bem como que a finalidade da munição pode ser diversa. Existe munição incendiária (como podemos ver na imagem abaixo), só de barulho, de sal, explosiva, dentre outras, portanto a teleologia da palavra não é critério para sua definição, já que nem sempre um projétil irá se prestar a pre


III) O que é um calibre?

 O Calibre de uma munição é a medida do seu diâmetro, o que corresponde também ao diâmetro interno do cano da arma. Normalmente ele é medido em milímetros, mas pode ser em polegadas ou até em centímetros. As espingardas, de maneira diversa, tem seu calibre associado à massa, por isso calibre 12, para espingardas, tem maior diâmetro que o calibre .22, de um revólver.

 Interessante lembrar que o calibre de uma arma pode indicar seu poder de fogo, mas essas medidas não são necessariamente proporcionais. Um revólver calibre .22 e uma carabina que possui o mesmo calibre, embora tenham o canos com o mesmo diâmetro, têm uma diferença significativa em termos de velocidade, por exemplo, o que aumenta sua expectativa de dano. 

 A seguir, a definição legal para calibre, contida no Decreto 3.665/2000.

Art. 3º.

XXXV - calibre: medida do diâmetro interno do cano de uma arma, medido entre os fundos do raiamento; medida do diâmetro externo de um projétil sem cinta; dimensão usada para definir ou caracterizar um tipo de munição ou de arma;


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