Demonstração numérica acerca dos erros na contabilização dos óbitos por Covid-19.

 

            O Brasil nunca se caracterizou pela seriedade estatística, o que é um dos nossos fatores de atraso.  Por isso, é de se estranhar que um sistema de saúde que mal consegue atender os vivos tenha, repentinamente, se tornado preciso em matéria de autópsias, e logo quando a gestão de corpos é mais perigosa.

            O Ministério da Saúde, que reproduz acriticamente as informações enviadas pelos Estados e milhares de Municípios, informa que faleceram 160.569 pessoas por Covid-19 até o dia 31 de outubro[1]. A comparação desse número com o preciso montante de óbitos informado pelos Registro Civis de Pessoas Naturais - RCPN[2] evidencia uma grande discrepância.

             O total de óbitos ocorridos no Brasil ao longo dos últimos quatro anos foi:

- 2016 - 1.006.114; 2017 - 1.042.901, + 0,36% em relação a 2016; 2018 - 1.188.318, + 13% em relação a 2017; 2019 - 1.254.071, + 0,55% em relação a 2018.

             Levando em conta a média recente de aumento, 4,63 %, a projeção de óbitos para 2020 seria de 1.312.134. Apenas para janeiro a outubro, o total de óbitos seria de 1.093.445.

             Como esperado em razão da pandemia, o montante aumentou significativamente, tendo ocorrido 1.197.881 óbitos entre 1º de janeiro e 31 de outubro de 2020. Um acréscimo de 104.435 (cento e quatro mil quatrocentos e trinta e cinco) sobre a projeção do começo do ano.

             Trata-se de um valor elevado, sem dúvidas, mas bem inferior aos 160.569 óbitos oficialmente decorrentes da Covid 19. Conclui-se que mais de 56 mil óbitos foram atribuídos erroneamente à Covid, salvo se for possível demonstrar que houve diminuição compensatória de mortes decorrentes de outras causas.

             A primeira explicação poderia ser a redução de morte violentas durante o período de confinamento, quando todos estivemos menos expostos a acidentes e assaltos. Contudo, houve aumento no número de mortes violentas (homicídios e latrocínios) em 2020[3]. A previsível razão foi o fim da prisão em segunda instância estabelecido pelo STF, já que a tendência era de queda. Em 2019, a redução foi de 19% em relação a 2018[4].

             Quanto aos acidentes de trânsito, a estimativa de queda está entre 11 e 19% em relação aos 30.371 mil mortos de 2019[5]. Acaso confirmada, ao longo de 2020 terão falecido entre 3.400 e 6 mil pessoas a menos, o que merece comemoração. Tal redução, entretanto, não explica a enorme diferença a maior de 56 mil óbitos atribuídos à Covid-19.

           

 


[1] https://covid.saude.gov.br/

[2] https://transparencia.registrocivil.org.br/registros

[3] https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/08/21/mesmo-com-quarentena-brasil-tem-alta-de-6percent-no-numero-de-assassinatos-no-1o-semestre.ghtml

[4] https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/02/14/numero-de-assassinatos-cai-19percent-no-brasil-em-2019-e-e-o-menor-da-serie-historica.ghtml

[5] https://www.portaldotransito.com.br/noticias/dados-preliminares-de-2019-mostram-queda-no-numero-de-mortes-no-transito-brasileiro/

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/08/01/isolamento-reduziu-em-11-o-numero-de-mortes-por-acidente-de-transito-em-sp.htm

https://www.portaldotransito.com.br/noticias/estudo-projeta-queda-de-19-no-numero-indenizacoes-por-acidentes-de-transito-no-brasil-em-2020/


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