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A situação da classe operária na Inglaterra, de Friedrich Engels e O urbanismo como modo de vida, de Louis Wirth

O diálogo dos clássicos e a condição do trabalhador urbano

A situação da classe operária na Inglaterra, de Friedrich Engels e O urbanismo como modo de vida, de Louis Wirth: O diálogo dos clássicos e a condição do trabalhador urbano

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É na cidade que o ápice dos contrastes, decorrentes do modo de produção capitalista, é exposto a cada bairro, rua ou viela.

Ao tratar das condições de vida da classe operária na Inglaterra, especialmente na parte observada de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, Engels descreve a formação das urbes inglesas de então, sua ocupação e seu cotidiano consequente como fator indissociável na compreensão de como, sobretudo nos locais habitados pelas classes proletárias, a cidade pode se tornar um aprofundador das desigualdades e perpetuador da precarização social do trabalhador. Londres é o exemplo claro de como uma cidade com imponente infraestrutura (com docas gigantescas e a bela vista do Tâmisa) é construída a custo de imenso sacrifício de uma classe em atendimento a outra e, ao menos em algumas áreas, pode exalar os piores odores e oferecer experiências insuportavelmente insalubres à classe trabalhadora. A cidade seria, portanto, o campo mais reconhecível da guerra social, onde os homens se consideram reciprocamente como objetos utilizáveis. Instituições como a Justiça, descreve o autor, são dominadas pela classe burguesa, que ao lidar com casos de exploração e até morte, tende a suprir demandas e responder aos interesses da própria burguesia que explora e mata, especialmente através da fome imposta pela lógica das relações de trabalho formadas nos centros urbanos capitalistas.

Mesmo colocando luzes em Londres Engels assume que as mesmas contradições estão presentes em Leeds, Manchester e Birmingham, ou seja, nas grandes cidades inglesas. As zonas industriais, onde trabalham e usualmente moram os operários e os bairros de má fama de tais cidades relegam à classe trabalhadora as vielas sujas e fétidas, mesmo que em alguns casos os palacetes dos ricos estejam tão próximos geograficamente ao mesmo tempo que afastados no convívio.

A descrição de Engels além de analítica e detalhista parece conter uma interpretação que demonstra ao longo do texto espanto com a degradação social e moral nas grandes cidades inglesas. Além de descritivo, o texto parece ensaiar um manifesto sobre os caminhos do capitalismo, que adapta e mesmo potencializa sua lógica exploratória no ambiente urbano em contraponto aos abusos já ocorridos no campo. É na cidade que o ápice dos contrastes, decorrentes do modo de produção capitalista, é exposto a cada bairro, rua ou viela.

Essa descaracterização do habitante da cidade, em sua maioria, pertencente à classe trabalhadora (Engels fala na proporção de três operários para cada burguês) também é tema tratado por Louis Wirth. Em O urbanismo como modo de vida Wirth cita o vínculo do conceito de modernidade com o advento das grandes aglomerações urbanas. Entretanto, ressalta que a população não é o único elemento a ser considerado ao tratar do que é ou não urbano. A urbanidade estaria muito ligada ao local de trabalho, moradia e consequentemente ao modo de vida do indivíduo. Há então cidades diferentes: industriais, comerciais, com vocação à mineração e, dentro de tais cidades, espaços diversos, com funções de cidade-satélite, subúrbios e etc, cada característica definindo modos de vida que variam. O autor chama à atenção por exemplo ao fato de que há cidades pré-industriais e a definição de cidade não se limita apenas à urbanização capitalista. Busca definir, assim, cidade como um núcleo relativamente grande, denso e permanente com indivíduos socialmente heterogêneos.

Tal heterogeneidade, segundo Wirth, proporciona ao indivíduo certa fluidez de status, fruto inclusive dos estímulos de toda sorte que a vida na cidade proporciona, em detrimento da vida no campo. Esta fluidez e seu caráter transitório, associada à possibilidade de anonimato geram um dilema: na urbe o indivíduo parece ter maior liberdade na expressão de suas características, se aproxima ou se afasta de grupos sociais de acordo com interesses transitórios. Porém, o mesmo anonimato potencialmente o distancia da integração com as pessoas e o entorno, o vazio social e o estado de anomie também compõem os desafios da vida na cidade.

Levando-se em conta a linha da minha pesquisa, Sociologia Urbana e das Populações, os textos basilares me parecem essenciais como futuras ferramentas para a elaboração da dissertação e das respostas às perguntas que proponho. Entender políticas pública de turismo necessariamente passa por entender a cidade e as possibilidades de políticas de ordenamento e infraestrutura urbanas, de modo que as leituras me são úteis além de interessantes, uma vez que os objetivos acadêmicos se misturam com as questões filosóficas pessoais que nos colocamos rotineiramente. Entender a cidade é um desafio enorme e que não parece possível sem recorrer a autores como Engels e sua leitura sobre a maioria que habita a urbe das formas mais precárias possíveis, tampouco sem buscar as definições sobre a cidade moderna propostas por Wirth.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ENGELS, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. São Paulo: Global, 1986 [1845].

WIRTH, Louis. O Urbanismo como Modo de Vida. In: VELHO, Otávio G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Zahar, 1967.


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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

TORRES, André Port Artur de Paiva. A situação da classe operária na Inglaterra, de Friedrich Engels e O urbanismo como modo de vida, de Louis Wirth: O diálogo dos clássicos e a condição do trabalhador urbano. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 27, n. 7031, 1 out. 2022. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/100085. Acesso em: 25 maio 2024.