Adultério, traição e dano moral

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Está em vigor, desde o dia 29 de março de 2005, a Lei nº 11.106/05, que alterou diversos dispositivos do Código Penal Brasileiro. Dentre as alterações, importa discutir aquela que não mais considera o "adultério" como fato criminoso.

Entenda-se que não se trata de render uma homenagem ao adultério, mas de reconhecer que a família e o matrimônio são hoje perfeitamente protegidos pelo ordenamento jurídico de outra forma, em outra seara.

Inicialmente, faz-se uma singela reflexão acerca do que seja crime. "Crime é um fato definido em lei como tal". Para que uma conduta seja tida como criminosa o legislador haverá de se perguntar qual seria seu reflexo em dado momento histórico de determinada sociedade. Tal fato ainda é considerado uma ofensa grave à sociedade? Essa ofensa atinge a interesses relevantes? A resposta a esses questionamentos é que haverá de nortear o legislador.

Dessa forma, o direito penal apenas se preocupa com aqueles fatos que ofendam mais gravemente a sociedade. Conveniente que apenas fatos graves sejam considerados crimes e, como tal, sejam reprimidos com sanções severas, a exemplo da pena de prisão. Não que o adultério não seja um fato ofensivo. Ocorre que essa ofensa permeia a esfera da MORAL, saindo da objetividade do direito penal.

Mas o que é "adultério"? o Dicionário Aurélio o define com "infidelidade conjugal; amantismo, prevaricação". Para os estudiosos do Direito Penal o extinto crime de adultério se consumaria com a prática do inequívoco ato sexual. E traição, o que é? Esse é ato muito mais amplo que o adultério.Traição é deslealdade, infidelidade no amor.

Apesar de não mais ser tido como crime o fato "adultério", o cônjuge traído pode ainda se ver, de certa forma, compensado pelo dano moral sofrido. Não mais com a prisão do cônjuge ofensor, mas com a diminuição no seu patrimônio (o que pode configurar uma sanção ainda mais eficaz). Ora, o "crime de adultério" tinha uma pena simbólica prevista para o culpado que variava de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses de detenção. Essa pena não surtia efeito algum e nunca se via alguém efetivamente condenado. Agora, se o cônjuge infiel se ver compelido a pagar indenização ao traído, isso com certeza será mais eficaz.

A possibilidade de haver indenização deriva de mandamento constitucional que diz ser inviolável a honra das pessoas, sendo assegurado o direito à indenização pelo dano moral decorrente de sua violação (art. 5º, X, CF). Assim, considerando que a traição gera dor e sofrimento, sentimentos que abalam a pessoa traída, é perfeitamente cabível que o judiciário seja acionado, assegurado-lhe o direito à indenização.

A traição configura violação dos deveres do casamento (dever de fidelidade recíproca, dever de respeito e consideração mútuos etc – art. 1.566, CC) e, como tal, dá fundamento ao pedido de separação judicial por culpa, desde que a violação desses deveres torne a vida conjugal insuportável (art. 1.572, CC). Entretanto, para essa breve exposição, importa apenas observar que o cônjuge traído tem pleno direito ao ressarcimento por dano moral. Esse pedido é juridicamente possível: responde pela indenização o cônjuge responsável exclusivo pela separação, porque viola a honra do cônjuge inocente quando o trai.

Para se ver indenizado, o cônjuge inocente deverá ingressar com ação de separação judicial litigiosa e, de conformidade com essa, pedir a indenização (pedido cumulado com o de separação ou pedido posterior de indenização). Não se vislumbra um pedido de indenização sem a separação! Ora, se o cônjuge ofendido deseja manter o casamento com o ofensor, isso, por imperativo lógico, não revelaria um dano moral suscetível de reparação. Nessa hipótese teria havido perdão e, perdoado o ofensor, não se mostraria adequado o pedido de indenização.

Feito o pedido, o juiz fixará o valor da indenização, levando em conta extensão do dano, considerado diante do caso concreto. Veja que a indenização por dano moral tem, além de uma função reparatória, um caráter pedagógico (de maneira a impedir a prática reiterada do ato socialmente reprovável), e, tal como entende o Superior Tribunal de Justiça, o valor da indenização por dano moral não pode contrariar o bom senso, mostrando-se exagerado ou irrisório, distanciando das finalidades da lei.

Não se trata de reparar a dor, a mágoa, o sofrimento, posto que esses não têm valor patrimonial. O que se objetiva com a reparação patrimonial é apenas o abrandamento da dor, já que o produto da indenização poderia propiciar alguma distração ou bem-estar, mesmo que passageiro, ao ofendido (função reparadora da indenização). Ademais, como já explanado, compelir o culpado a reparar dano moral causado representa para a sociedade uma demonstração de que o Estado não tolerará ofensa à honra de outrem (função pedagógica da indenização).

Finalmente, não se quer aqui dar à indenização caráter de instrumento de vingança chancelado pelo poder judiciário. O que se buscou esclarecer é que a mesma é um direito constitucionalmente assegurado àquele que sofreu dano moral.



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

SANTOS, Simone Moraes dos. Adultério, traição e dano moral. Jus Navigandi, Teresina, ano 11, n. 936, 25 jan. 2006. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/7871>. Acesso em: 27 jul. 2014.


Comentários

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  • Juliana Macedo

    ola, gostaria muito de saber se a indenização por danos morais no caso de adulterio serve para quem não é casado no civil???????? não sou casada mas convivo com ele há sete anos e ele me faz passar sempre por essa vergonha á pouco ele me fez passar por uma situação constrangedora praticando o ato dentro da minha propria casa, e então o q devo fazer? obrigada

  • FRANCISCO CRIPA

    NINGUÉM NUNCA ANALISOU A TRAIÇÃO, ADULTÉRIO E INFIDELIDADE SOB O PONTO DE VISTA PSICOLÓGICO E SOCIAL COMO A ESCRITORA AGENITA AMENO, NO LIVRO A FUNÇÃO SOCIAL DOS AMANTES NA PRESERVAÇÃO DO CASAMENTO MONOGÂMICO, EDITORA AUTÊNTICA, EXCELENTE!

  • Denise

    Ola preciso de ajuda comigo aconteceu o seguinte: Vivemos juntos a 8 anos e depois que fui fazer um curso em outra cidade descobri que ele teve um caso com essa mulher, passou-se 2 anos depois que descobri e fui transferida de cidade pra trabalhar, porém conseguia vir em cs sempre. So que descobri que teve uma filha fora do casamento, e o pior registrou antes de confirmar paternidade. Alem disso tudo, descobri que ele faz uso de narcoticos, e por isso que nossas finanças nunca eram boas. Fui acusada pela família dele se tb fazer uso, sendo que nem sabia do que ele fazia, como fazia e onde usava. Trabalho em uma empresa que tem como pré requisito exame de toxicologico semestral... Bom, enfim quero saber se me encaixo nesse perfil pra separação e solicitação de danos morais. Agradeço muito se alguem puder me orientar melhor.

  • Negra linda

    meu ex companheiro me humilhou também mas eu descobri e me separei de corpos ja que não eramos casados no c´vil mas viviamos uma união estavél coloquei ele fora d casa com uma ordem do Juiz e vivo tranquila com nosso fiho hj

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