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O eterno homem cordial.

Somos mesmo passionais

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Agenda 05/05/2020 às 12:33

Referências:

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Notas

[1] A origem da expressão é datada no período colonial brasileiro e se refere à cobrança de impostos por Portugal. O quinto correspondia exatamente a vinte por cento da produção de ouro da colônia. O apetite fiscal da coroa era tão grande quanto a dificuldade em quitar suas dívidas com a Inglaterra. Portugal pouco produzia além de vinhos e quinquilharias. Comprava dos britânicos quase tudo o que consumia. Afirma-se que o termo era dirigido aos cobrados de impostos, que ao exigir o quinto ouviam algo como: "Vá buscar o quinto nos infernos!".  A expressão ainda serve para designar alguém, no sentido de amaldiçoar, mandando-a para longe, ou para se referir ao lugar remoto.  Começou a ser usada em Portugal exatamente para se referir ao Brasil.

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[2] Foi em 1946 durante o discurso de recepção a Peregrino Júnior na Academia Brasileira de Letras, Manuel Bandeira destacou, entre as virtudes do empossado, a cordialidade. Afirmou: Ribeiro Couto inventou de uma feita a teoria do "homem cordial". Segundo nosso amigo, a cordialidade seria a contribuição brasileira à obra da civilização". Nascido em Santos, SP, Couto ficou conhecido como fundador do Penumbrismo – que não chegou a ser uma escola, mas, como ele mesmo definiu, “uma certa atitude reticente, vaga, imprecisa,nevoenta,nojeitodeescreverversos”porvoltadosanos1920a1923–e por ser o autor de Cabocla(1931), romance duas vezes adaptado para novela de televisão. Por outro motivo, seu nome se ligou para sempre ao de Sérgio Buarque de Holanda:  foi o historiador paulista quem deu “fundamento sociológico”, como disse Antonio Candido, à expressão “homem cordial”, criada pelo poeta santista.

[3] As bases da teoria do homem cordial também foram visitadas pelo professor norte-americano Fred Ellyson, que localizou na Capilla Alfonsina, biblioteca de Alfonso Reyes na cidade do México, as cartas de Ribeiro Couto ao amigo mexicano. E, em 1984, Ellyson publicou o artigo intitulado Alfonso Reyes e Ribeiro Couto: uma correspondência cordial, em Miscelânia de Estudos Literários: homenagem a Afrânio Coutinho.

[4] O indivíduo cordial se afirma como indiferente à lei geral sempre que esta contrarie suas afinidades emotivas. Seu interesse está sempre voltado para si mesmo, para aquilo que o distingue dos demais, do resto do mundo. E o intelectual cordial, por sua vez, é este indivíduo por assim  dizer voltado para o trabalho cerebral que apresenta, se não todas, algumas das seguintes marcas: presunção de que talento é de nascença e  espontâneo porque trabalho e estudo são ofícios vis; voluntário alheamento do mundo circundante; crença mágica no poder das ideias; concepção de  saber como instrumento para elevar seu portador acima dos comuns mortais; cultivo do saber para o autoenaltecimento; prática da erudição  sobretudo formal; citar em língua estranha para deslumbrar o leitor, como se exibisse uma coleção de pedras preciosas; prestigiar teorias com endosso de nomes estrangeiros e difíceis; concepção simplificada do mundo para colocar tudo ao alcance de raciocínios preguiçosos.  Os fascistas, como expressão mais radical do tipo, são “ignorantes e idiossincráticos”. Mas, acrescentemos, entre o homem cordial e o fascista há algumas mediações, das quais a mais importante, dado o seu peso material, são as forças de proteção e segurança da propriedade privada – exército, polícias e milícias – das quais provém o seu contingente armado. (In: COSTA, Iná Camargo. Sérgio Buarque, o " Homem Cordial" e uma crítica inepta. Disponível em: https://outraspalavras.net/poeticas/sergio-buarque-o-homem-cordial-e-uma-critica-inepta/ Acesso em 18.01.2020.).

[5] Sem ignorar os riscos de incompreensão que corria, Sérgio Buarque de Holanda usou o exemplo (Antígone) e o argumento de Hegel para caracterizar o homem cordial:  é um súdito, ignorante do que seja liberdade, cidadania e esfera pública em país que se dizia República. Ainda nos tempos coloniais, objetivamente a serviço do rei (de Portugal, no caso do Brasil), este súdito se considerava senhor absoluto de gentes e terras. Era inclusive chefe militar, privilégio que só perdeu quando o Estado Português se transferiu para cá, mas que mesmo assim permaneceu exercendo com os seus exércitos de jagunços que entraram pelo século XX afora – e seus herdeiros continuam barbarizando até hoje. É este o homem cordial, e não o povo brasileiro, como queriam os Tristões de Ataíde, Cassianos Ricardos e demais simpatizantes, inclusive Gilberto Freyre. O povo brasileiro sempre foi e continua sendo vítima dos desmandos destes súditos ou vassalos que apoiavam (e apoiam) seus atos em argumentos irracionais, como são os do “coração”, no caso de sentimentos benevolentes, ou do fígado, no caso dos ódios e vendetas.  A própria “indignação moral” faz parte deste jogo hipócrita e sentimentaloide.

[6] A popularização da expressão "homem cordial" causou polêmica tanto entre os intelectuais como entre os populares, e ainda ganhou interpretações diversas. As distorções foram as mais diversas, ainda uma vez de acordo com as teorias que transcendem o campo da ciência e migram até para o cotidiano. Ao adotar cordial no sentido pouco usado de ser referente a ou próprio do coração, conforme se lê na definição presente no Dicionário Houaiss e, Sérgio Buarque criava sucessivos mal-entendidos. O que é frequente até hoje, sendo por vezes entendido como um sentido afável, caloroso, a adjetivos contrários ao conceito elaborado pelo historiador.

[7] Carl Schmitt é sem dúvida o maior pensador político do século XX e o conceito do político é certamente de toda sua vasta bibliografia a obra mais conhecida, talvez por essa razão tenha permanecido durante um longo período como sendo o único livro do jurista traduzido para língua inglesa. Este curto ensaio de Schmitt, é um dos grandes clássicos da filosofia política contemporânea, surgiu originalmente de uma conferência proferida na Deutsche Hochschuhle für Politik em Berlim por ocasião de um ciclo de conferências dedicado ao problema da democracia, sendo publicado com o título "Der Begriff des Politischen". Em 1927 (dois anos antes da crise de 1929, 6 anos antes da ascensão dos nazistas ao poder)  no Archiv für Sozial Wissenchaft und Socialpolitik, tomo 58, n.1, pp.1-33 e reeditado na série Probleme des Demokratie, Politische Wissenchaft, Berlim, 1928,  até ser publicado em1932, pela Duncker und Humblot, Munich, esta edição servirá de referência para a tradução de George Schwab. Por sua vez, Schwab é o grande responsável pela difusão da obra de Carl Schmitt em solo americano através de livros, artigos e traduções das suas obras mais importantes.  Nessa edição expandida, ora publicada pela Chicago University Press, aparecem também os comentários feitos por Leo Strauss. Este último ensaio foi publicado originalmente com o título: "Anmerkungen zu Carl Schmitt, Der Begriff des Politischen", no Archiv für Sozialwissenchaft und Sozialpolitik, vol.67, n.6, pp. 732-749, em 1932. A presença desse comentário de Strauss demonstra o alcance do debate que a obra provocou nos anos que se seguiram.  Além do comentário de Strauss, a edição traz também a conferência que Schmitt proferiu em Barcelona em outubro de 1929, "Das Zeitalter der Neutralisierungen und Entpolitisierungen" ("A era das Neutralizações e Despolitizações"), publicada no mesmo ano na Europäische Revue e anexada à edição de 1932 do Conceito do Político. (In: SILVA, Washington Luiz. Carl Schmitt e o conceito limite do político. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100 512X2008000200010 Acesso em 17.01.2020.

[8] Cassiano Ricardo se opusera ao uso do vocábulo "cordial porque seria demasiado formal e protocolar, quando o capital sentimento do brasileiro seria a bondade ou mesmo certa técnica de bondade. A conexão integrava a retórica de um defensor letrado do Estado Novo, Feldman. Aliás, Almir de Andrade, em Força, Cultura e Liberdade, de 1940, voltará à cordialidade como princípio fundador do Estado Novo. Sem dúvida é frouxo o leito semântico da cordialidade de Buarque de Holanda. E, Cassiano Ricardo, ressaltou essa e renegou-lhe o eixo flutuante, a cordialidade se punha em corrente oposta, isto é, referindo-se ao lastro que lhe interessava ideologicamente.

[9] Durante o Estado Novo, Getúlio Dornelles Vargas referenda a Constituição de 1.937, escrita por Francisco Luis da Silva Campos, conhecida por Polaca, por ter inspiração na Constituição fascista da Polônia.

[10] Escritores e estudiosos de áreas diversas já se detiveram na compreensão do conceito de “homem cordial”. Oswald de Andrade tratou do assunto em “Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias”, no capítulo intitulado “Um aspecto antropofágico da cultura brasileira: o homem cordial”. Entre outros, estudaram o tema o historiador inglês Peter Burke, o cientista político Gabriel Cohn, o professor de literatura Alcir Pécora, Antonio Candido e, mais recentemente, o professor de literatura João Cezar de Castro Rocha, em “O Exílio do Homem Cordial”.

[11] Jacques Leenhardt é sociólogo, filósofo e crítico. E revelou que como francês, só foi conhecer Debret no Brasil. Estudioso de Sartre, Burle Marx e Gilberto Freyre, conhecedor da língua portuguesa e veio ao Rio de Janeiro para seminário na Bienal do Livro em 26.09.2015.

[12] Uma das críticas suscitadas em relação à obra Sobrados e mucambos dizia respeito a uma eventual simplificação dos tipos de habitação existentes no período em estudo ou à ausência de referência a outras formas de moradia, como, por exemplo, a tejupaba que era uma espécie de cabana coletiva de influência indígena. Outra crítica auferida refere-se que a obra focava um pequeno trecho do Brasil (mais particularmente ao Nordeste ou à área de Recife-Olinda) seriam aplicáveis as generalizações do sociólogo.

[13] Enfim, o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda não é exatamente aquilo que o senso comum deduz à primeira vista que se depara com o conceito-chave de sua obra. O cordial não indica somente bons modos e gentileza, vem de cordis, isto é, relativo ao coração. Para o historiador o brasileiro não suporta o próprio peso da individualidade, precisa viver nos outros. A apropriação afetiva do outro seria uma estratégia psicológica e comportamental predominante na sociedade brasileira e ainda parte integrante de nosso processo civilizatório. A cordialidade significa poder iludir na aparência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas suas sensibilidades e suas emoções. O brasileiro dispensa as formalidades, pretende estreitar as distâncias, não suporta a indiferença e prefere ser amado ou odiado.

[14] A grande herança dos tempos coloniais é a família patriarcal. Esta “fornecia a ideia mais normal do poder, da respeitabilidade, da obediência e da coesão entre os homens. Como resultado, temos o predomínio, na vida social, dos sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica; uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família”. Com o predomínio do poder da família patriarcal herdada da colônia, fica explicada a nossa impossibilidade de termos um Estado democrático.

[15] Para adequadamente entender nossa cordialidade é indispensável referir-se a duas heranças que tanto oneram nossa pobre cidadania, a saber: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento imediato de submissão, tendo que assumir as formas políticas, na língua, na religião e nos hábitos do colonizador português. Já pela escravidão tão bem abordada por Jessé Souza cabe recordar que entre 1817 a 1818, quando mais da metade do Brasil era composta de escravos, na ordem de 50,6%. E, atualmente, cerca de mais de 60% possui em seu sangue a origem dos afrodescendentes. E, ainda são discriminados e postos nas periferias, além de humilhados ao ponto de perderem a própria autoestima. A escravidão fora internalizada através da discriminação e do preconceito contra o negro que devia sempre servir, porque antes fazia tudo de graça e, imagina-se que deve continuar assim. Essas duas tradições estão presentes no inconsciente coletivo brasileiro em termos não propriamente de conflito de classes, mas antes de conflitos de status social. Aliás, todas essas contradições e paradoxos de nossa cordialidade aparecem constantemente nas redes sociais. Onde somos frugalmente contraditórios.

[16] Na cultura cordial a separação entre família e Estado se torna tênue ou mesmo imperceptível. O Estado é erigido como modelo paternalista, que estende seus braços para atender as necessidades, no entanto, de forma personalista e que impede a livre associação. O patrimonialismo prevalece sobre a burocracia, os cargos de confiança parecem ter mais sentido diante do imperativo da cordialidade que os cargos conseguidos por capacidades próprias.

[17] Em 17 de janeiro do corrente ano, o atual Presidente da República exonerou o Secretário Nacional da Cultura, Roberto Rego Pinheiro, conhecido como Roberto Alvim, que fez um discurso no qual utilizou frases idênticas e similares às usadas por Joseph Goebbels, que era Ministro da Propaganda de Adolf Hitler durante o governo nazista. Aliás, o referido Ministro nazista fora um de seus principais idealizadores. Uma de suas lapidares frases, foi in litteris: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade". Era essa a metodologia de Hitler na Alemanha Nazista para exercer um maciço controle sobre as instituições educacionais e culturais bem como dos meios de comunicação.

[18] “Na verdade, o brasileiro seria violento”, contrapõe João Cezar de Castro Rocha, ilustre professor de Literatura Comparada da UERJ, ao destacar o equívoco que comumente acontece diante de uma leitura apressada de Raízes do Brasil. Se o homem cordial é o sujeito dotado de paixões e que age com o coração. Sérgio Buarque, então, cunhou o seu homem cordial com base no nosso legado rural de índole patriarcal, fruto de um passado agrário, onde as relações eram naturalmente desenvolvidas sob a marca da pessoalidade. Para Sérgio, neste rito de passagem – do campo para a cidade -, e no peso que ele carrega, está a matriz genuína da cordialidade brasileira, que, não por outro motivo, teria seus dias contados: a urbanização inevitável poria fim a ela.

Sobre as autoras
Gisele Leite

Professora universitária há três décadas. Mestre em Direito. Mestre em Filosofia. Doutora em Direito. Pesquisadora - Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas. Presidente da Seccional Rio de Janeiro, ABRADE Associação Brasileira de Direito Educacional. Vinte e nove obras jurídicas publicadas. Articulistas dos sites JURID, Lex Magister. Portal Investidura, Letras Jurídicas. Membro do ABDPC Associação Brasileira do Direito Processual Civil. Pedagoga. Conselheira das Revistas de Direito Civil e Processual Civil, Trabalhista e Previdenciária, da Paixão Editores POA -RS.

Denise Heuseler

Professora universitária. Advogada. Pós-Graduada em Direito Processual Civil e Direito Civil. Possui diversas obras jurídicas publicadas. Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.

Informações sobre o texto

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