A Invisibilidade Indígena No Comércio de Amambai

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RESUMO: Neste artigo abordarei o problema sobre como o preconceito e o racismo agem na invisibilidade dos povos indígenas no município de Amambai localizada no estado do Mato Grosso do Sul (UEMS). A intenção é apresentar e analisar a questão da invisibilidade em relação aos indígenas através da dinâmica comercial na cidade, compreendendo causas e efeitos sociais deste problema. Parto do pressuposto que o lugar histórico dos indígenas dentro das sociedades não indígenas é repleto de estereótipos e preconceitos de toda ordem, o que, nesse sentido, cria imagens pré-concebidas sobre os modos como vivem os povos indígenas. Trata-se de um estudo preliminar, que merece atenção do ponto de vista das Ciências Sociais, já que é um questão que perpassa historicamente nossa sociedade brasileira.

Palavras-chaves: invisibilidade; indígenas; comércio; Amambai; etnografia.


1- Introdução

É fundamental mostrar como vivem atualmente os povos indígenas no município de Amambai. Pretendo levantar dados à respeito de como imagens pré-concebidas geram a invisibilidade dos povos indígenas, principalmente no comércio local. Por que persiste um comportamento sistemático de agentes que desprezam/ignoram os/as indígenas no comércio de Amambai? Levantar este questionamento e compreender os motivos dessa invisibilidade não é tarefa fácil, porém necessário, pois entende-se que tal comportamento é extremamente prejudicial aos povos indígenas.

A invisibilidade social, pública, é um conceito contemporâneo, significa algo que não é visível, geralmente afeta aquelas pessoas que estão à margem de determinadas sociedades, pessoas consideradas de baixa renda. Existem também outros condicionantes sociais, culturais, econômicos, históricos, religiosos, étnicos que contribuem para a criação da invisibilidade. Em Amambai, a invisibilidade ocorre com maior frequência em relações comerciais municipais entre não indígenas e indígenas. Assim, buscarei algumas respostas sobre os comportamentos excludentes.

O preconceito e por sua vez, o racismo e os estigmas, que marcaram os povos indígenas desde a colonização estão sendo rompidas paulatinamente no Brasil, principalmente pela presença dos indígenas nas universidades públicas. Isso ocorre também na cidade de Amambai através da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). Todavia, nas relações de comércio do muncípio, a invisibilidade é um fator marcante e preocupante.

Até os dias atuais, grande parte da população amambaiense acredita que os povos indígenas, não trabalham, são preguiçosos, alcoólatras, dormem nas ruas, roubam determinadas residências, vivem através de benefícios e recursos oriundos do Estado. Muitos indígenas recebem apoio do Estado e do Governo Federal, seja em auxílios, sextas básicas, entre outros. No entanto, ao contrário do que muitos moradores pensam e acreditam saber, na maioria das vezes essa ajuda não é suficiente para o sustento mensal da família indígena, com base em entrevistas com moradores indígenas. Por isso, acabam procurando trabalho no comércio de Amambai. Geralmente trabalham nos fundos das empresas, em serviços braçais, precários, em espaços que não são notados como o determinado profissional e sim como alguém usando uniformes.

Por conta de o Estado não garantir um suporte adequado para todas as necessidas das familías indígenas, muitos trabalham por míseros salários e desempenham funções que moradores locais não se interessam, por se tratarem de trabalhos extremamente pesados. São considerados os fazem tudo das empresas e jamais são vistos por alguém. Certamente o trabalho desempenhado por um funcionário indígena é indispensável ao comércio da cidade, realizam atividades que exigem força fisíca, realizam atividades cansativas que não indígenas não aguentariam realizar.

Outro fator importante é que grande parte da população indígena, gastam praticamente todo o seu dinheiro no comércio local, seja dinheiro de benefício ou aquele que é fruto de seu trabalho. Dificilmente viajam para outras cidades para compras. Raramente efetuam compras pela internet, além de pouca familiaridade com os mecanismos de compras online, o sinal de conexão é comumente fraquíssimo nas reservas. Há também, segundo conversas com indígenas amambaienses, o temor de fornecer seus dados e, de alguma forma, ser retalhados com algum tipo de punição. Isso por conta de experiências passadas que marcaram de maneira negativa a vida deles, como, por exemplo: a retenção dos seus cartões de benefício pela figura de alguns comerciantes.

Mesmo movimentando consideravelmente a economia local os indígenas são desvalorizados, discriminados, invisibilisados, tratados como pessoas desprezíveis. É importante ao decorrer do trabalho, buscar uma compreensão antropológica, e a razão de tamanho descaso para com a população indígena, nas relações comercias da cidade, seja o indígena empregado, no convívio do seu ambiente de trabalho, seja o indígena consumidor nas ocasiões em que frequentam os comércios de Amambai. Pretendo apresentar alguns argumentos que expliquem as razões do tratamento excludente para com a população indígena no comércio amambaiense.

2- O interesse pela pesquisa sobre a invisibilidade indígena no comèrcio de Amambai

Com relação ao município de Amambai, ela é uma cidade que encontra-se no sul de Mato Grosso do Sul. Está localizada em uma região próxima da fronteira com o Paraguai, grande parte da população amambaiense é indígena, entre as etnias indígenas do município, a que tem o maior número populacional é a etnia Guarani-Kaiowá. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) de 2020 mostram que Amambai possui 39.826 habitantes. Dados do Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), mostram que 14.507 são declarados indígenas (36,43 % da população total), valores esses que fazem de Amambai, a cidade com a segunda maior população indígena do Estado, atrás apenas da cidade de Dourados.

A população indígena local encontra-se no município desde muito tempo. Durante o ensino fundamental e médio que cursei na Escola Estadual Dr. Fernando Corrêa da Costa, (1996 até 2009), estudei sobre como a população de Amambai foi sendo formada ao longo dos anos. Historicamente a ocupação indígena na cidade, segundo o que foi transmitido nas escolas, retratam que a presença indígena nessa região é algo que se deu desde a era pré-colombiana, sendo intensificada depois da Guerra da Tríplice Aliança.

Primeiro era um povoado, um vilarejo denominado Paz Nhú Vera. Posteriormente veio a se chamar Patrimônio União, depois recebeu o nome de Vila União, até então ambos os vilarejos eram aglomerações de pessoas em locais onde serviam de paradas de carretas de boi. Aos poucos o cultivo da erva mate ganhou força e veio a desenvolver o comércio passando a se chamar cidade de Amambai.

A companhia Matte Laranjeira, empregou milhares de pessoas, esses ervateiros, plantavam, cortavam, ensacavam e tostavam, depois a erva era levada em carretas de boi até a Argentina, voltava, industrializada, embalada, processada e com um preço maior. O detalhe é que a maioria da mão de obra era composta por indígenas, o trabalho era extremamente pesado, cansativo, o que sempre escutei dos mais velhos em conversas sobre como era a cidade anteriormente, todos citam que a atividade que alavancou o comércio local e fez o município desenvolver foi o cultivo da erva mate, mais tristemente todos dizem que os indígenas eram explorados nos campos de extração de erva.

Antigamente os indígenas eram explorados nos campos de erva mate, nos dias atuais são explorados no comércio local, nas roças de algumas usinas do Estado do Mato Grosso do Sul, nas colheitas de maçã, nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ainda são explorados entre inúmeras outras atividades que exercem.

Meu nome é Victor Alisson de Souza Toledo, acadêmico do quarto ano de Ciências Sociais, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Unidade de Amambai. Tenho 30 anos de idade, branco, nascido e criado na cidade de Amambai; sou um indivíduo fronteiriço, meus avós paternos são oriundos do Paraguai, atualmente residem em Amambai, falam tanto o Português como o Guarani; meu pai fala o Guarani. Por conta do convívio com meus avós, compreendo algumas palavras em Guarani, nasci e cresci na Vila Cristina, segundo bairro mais populoso da cidade, bairro onde residem pessoas de baixa renda. Foi na Vila Cristina que tive o primeiro contato com os povos indígenas, desde muito pequeno lembro dos indígenas transitando pelo bairro, para venderem determinados produtos, milho-verde, batata-doce, mandioca, entre outros produtos que eram produzidos nas reservas indígenas da cidade.

Outro contato marcante foi a presença de indígenas que saíram das reservas e vieram morar na Vila Cristina, a grande maioria venderam suas terras na reserva e compraram terrenos no bairro, já uma outra parcela de indígenas ocuparam terrenos pertencentes à prefeitura e fizeram suas moradias no bairro. Com o passar do tempo fiz grandes amizades com moradores indígenas, amizades verdadeiras as quais mantenho até os dias atuais. Portanto, me insiro neste debate, nesta escolha de objeto de pesquisa -a invisibilidade dos povos indígenas no comércio local -, sempre me incomodou, inclusive já entrei em discussões, por conta de testemunhar comerciantes, empresários, funcionários e clientes tratatando indígenas de modo preconceituoso, ou fazendo de conta que eles não existem.

A importância desta pesquisa, ao meu ver, é algo que vai além do fator invisibilidade. Vivemos em uma cidade que é premiada, pelo fato de existir três reservas indígenas, por ter uma diversidade cultural magnífica, embora muitos não se interessam pela cultura indígena, ou acreditam na inferioridade dessa cultura se comparada a do homem branco, a cultura indígena é dinâmica e está em constante processo de transformação.

A sociedade como um todo, ganharia muito ao reconhecer e valorizar a cultura indígena, pos termos fatores históricos e culturais brilhantes em nossa cidade. Sabe-se pouco sobre os modos como essa cultura se transforma, se recria, diante do aumento da presença dos brancos. O fato de não conhecer e reconhecer esses modos de vida indígena, estão entre alguns dos motivos pelos quais sabemos muito pouco, ou quase nada sobre os povos indígenas de Amambai. Ao indagar alguns moradores locais, ninguém admitiu que trata de maneira inferior os indígenas, talvez por medo de sofrer sanções e processos, mais na prática a realidade mostra que os indígenas são maltratados em comércios e em outros espaços da sociedade. Basta entrar em um mercado ou uma loja da cidade, no momento em que alguns indígenas estão comprando e ficar observando o comportamento dos não indígenas diante da presença indígena.

Durante os oito anos em que fiquei no Exército Brasileiro de fevereiro de 2010 até março de 2018, presenciei inúmeros comportamentos racistas e preconceituosos de militares não indígenas para com militates indígenas, em diversos níveis da hierarquia militar. Eu era motorista de um militar que era meu superior, em uma viagem a Ponta Porã, para participarmos de uma formatura. Fui dirigindo e conversando com ele. Como ele estava a seis meses em Amambai, perguntei se gostou da cidade. Ele disse: o ponto positivo da cidade é o fato de ter poucos roubos e assaltos, disse ainda que os pontos negativos eram enormes e que sua esposa não gostou da cidade, segundo ele, porque em Amambai existem muitos indígenas. Ele relatou que a mulher estava decepcionada, pelo fato de onde ela ir ela encontrar indígenas. Disse ainda que a esposa lamentou que até na academia tinham indígenas. Ele revelou que morou no Estado do Paraná e em outras regiões que tinham populações indígenas;contudo, apontou que nunca havia visto nada parecido a Amambai. Vaticinou que a cidade nunca iria crescer porque é rodeada de aldeias, e que, por conta disso, nenhum investidor teria coragem de investir na cidade.

Ao término das palavras dele, fiquei extremamente chocado com tanta reprodução de ódio, exclusão, sentimento de superioridade, além de uma cegueira social e cultural enorme, não sabia bulhufas sobre os indígenas amabaienses e, na realidade, não queria nem saber. Apenas retratava suas indignações/frustrações em ser transferido pra uma cidade sem opções de lazer e repleta de indígenas. O curioso é que no esquadrão que eu servi, tinham sete militares indígenas, ambos da Aldeia Amambai, mas ele jamais segregou os militares indígenas, jamais falou nada diante da presença deles. Ficou claro que apresentou um comportamento ou discurso minimamente aceitável não por alguma empatia e solidadriedade, ao contrário, certamente sentia medo e receio de cometer transgressões, porque em nosso diálogo deixou claro que não desejava nenhum contato com indígena.

Quem pratica esses atos discriminatórios, raramente refletem sobre os malefícios que causam a população indígena. Quem sofre com esse preconceito, jamais esquece. Entre os indígenas que residem nas reservas, ou aqueles que hoje vivem nos bairros da cidade, ao conversar com eles, de maneira unânime, todos relataram sofrimentos e discriminações durante sua presença no comércio amambaiense.

O intuito do trabalho é promover um sentimento de respeito e valorização dos povos indígenas de Amambaí, do Estado e do Brasil, que são injustiçados por tudo o que foi feito de ruim para eles. O mínimo que o branco tem que fazer é respeitar a cultura indígena, porque a dívida histórica do homem branco com os povos indígenas não á dinheiro no mundo que pague. Então o trabalho é uma grande inquietação e um grande questionamento, no que diz respeito a maneira como os indígenas são tratados e invisibilizados no comércio da cidade.

O trabalho também tem como objetivo, mostrar que os indígenas não são invisíveis. É a sociedade de Amambai, que criou essa invisibilidade, para camuflar a presença dos povos indígenas em diversas áreas do comércio e outros espaços de socialização. É importante saber o porquê da construção dessa invisibilidade para com os indígenas. O que mais me cativa e me inquieta é saber qual de fato foi ou ainda é o fator determinante para a criação desse malefício, para com os indígenas locais. Segundo Erving Goffman em sua obra A representação do eu na vida cotidiana:

Quando um indivíduo chega à presença de outros, estes, geralmente, procuram obter informação a seu respeito ou trazem à baila a que já possuem. Estarão interessasos na sua situação sócio-econômica geral, no que pensa de si mesmo, na atitude a respeito deles, capacidade, confiança que merece, etc. Embora algumas destas informações pareçam ser procuradas quase como um fim em si mesmo, há comumente razões bem práticas para obtê-las. A informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar. Assim, informados, saberão qual a melhor maneira de agir para dele obter uma resposta desejada [...] Se o indivíduo lhes for desconhecido, os observadores podem obter, a partir de sua conduta e aparência, indicações que lhes permitam utilizar a experiência aterior que tenham tido com indivíduos aproxiamdamente parecidos com este que está diante delesou, o que é mais importante, aplicar-lhe estereótipos. (Goffmann, [1959] 2004, p.11).

O que Goffman observa é que muitas vezes julgamos o outro segundo aquilo que está diante dos nossos olhos, fazemos perigosos pré-julgamentos, com relação ao funcionário ou cliente indígena, através do seu fator étnico, ele acaba sofrendo com esses julgamentos. Nas palavras de Goffman, podemos perceber que no contato de uma cultura com outra, ou de um indivíduo com outro, acabamos nos cegando e cometendo o grande erro do etnocentrismo. Essa visão de mundo em que o meu grupo é o centro de tudo e todos os demais são pensados através dos nossos valores, pensar e agir de maneira unilateral, sem respeitar a diferença do outro é um grande erro, porque atitudes como estas além de não tornar o meu grupo superior, ainda discriminam e segregam o outro grupo.

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São notáveis alguns comportamentos preconceituosos em Amambai, não apenas nas relações de comércio, mais em outros espaços sociais da cidade. Durante a legislatura municipal entre 2016 e 2020, tinha um vereador e professor indígena, Ismael Morel, conhecido como Ismael Kaiowá (PMDB), eleito em 2016 com 478 votos, único representante indígena no legislativo municipal, escutei em muitos debates, inclusive da boca de colegas da cidade, frases de discriminação com relação ao vereador indígena, ouvi muita coisa negativa. Me recordo que em janeiro de 2020, durante um diálogo sobre quem deveria se reeleger, um colega me disse da seguinte forma, sobre o que pensava da reeleição desse vereador indígena: esse bugre não fez nada nem pro povo da aldeia, não sabe nem falar o português, passou da hora de vazar pra aldeia plantar mandioca. Discursos como esse, mostram que os indígenas são discriminados diariamente e de maneira natural em Amambai.

Muitas pessoas no comércio tratam a maioria dos indígenas como marginais, simplesmente por um ato negativo de algum ou outro indígena, a maioria dos povos indígenas são associados ao erro dos demais, em alguns comércios acabam sendo excluídos e invisibillizados generalizadamente. Isso é um grande erro, afinal, porque os brancos que um dia cometeram, delitos, furtos, crimes, violência contra suas esposas, entre outros não são tratados como marginais em Amambai? Certamente pelo fato de apenas os povos indígenas históricamente serem vistos como selvagens, bárbaros. É desanimador saber que até os dias atuais muitos povos indígenas são vistos como incivilizados, irracionais. Quando trago exemplos presenciados de atos preconceituosos, trago uma parcela miníma; pois se fosse relatar detalhadamente o que a população indígena enfrenta diariamente na cidade de Amambai, daria para escever, centenas de trabalhos, apenas com exemplos de preconceito, discriminação, violência, segregação, exclusão, ódio, invisibilidade, entre outros sofridos pela população indígena.

Por que fazer esta pesquisa, essa (etnografia) a respeito da invisibilidade que marca as relações entre não-indígenas e indígenas no comércio? Muitos moradores locais, não se interessam em conhecer como os/as indígenas vivem; chega-se, inclusive, ao ponto de desconhecer o nome das três reservas que existem no município Amambai, Limão-Verde, Jaguari; ignoram a etnia dos indígenas que residem na cidade. No caso da reserva Jaguari, importante ressaltar que é um local de retomada, com histórico de conflitos e lutas para a população indígena garantir essa terra. Na contramão desse tipo de comportamento desinteressado de grande parte da população amambaiense, um dos objetivos do trabalho é demonstrar um ponto de vista não indígena sobre como vivem os Guarani e os Kaiowá.

Vários foram os motivos que despertaram o meu interesse sobre a questão da invisibilidade indígena nas relações comerciais de Amambai, alguns fatores decisivos foram a minha amizade e o meu convívio com as populações indígenas no bairro onde nasci, cresci e vivo até os dias atuais, o contato cos meus colegas acadêmicos indígenas e o livro Homens Invisíveis: relatos de uma humilhação social, editora:Globo(2004), do psicólogo Fernando Braga da Costa. Esse livro foi fundamental pro desenvolvimento da minha pesquisa, Braga da Costa, que até então era aluno do segundo ano do curso de Psicologia da Universidade de São Paulo, resolveu acompanhar por um dia a rotina dos garis que varriam as ruas, calçadas, esvaziavam lixeiras e limpazam o pátio da Universidade de São Paulo. Depois de um dia acompanhando a rotina dos garis, ele trabalhou duas vezes por semana como gari, sem remuneração por mais de dez anos, durante esse período, escreveu o livro já citado, fez mestrado e doutorado.

Todo o engajamento desde a graduação até o doutorado, Braga da Costa fez uma grande e importante etnografia, trazendo respostas sobre a invisibilidade pública, ligando essa questão a segregação de classes sociais, algo que é importante em seu trabalho é a abertura para se pensar a invisibilidade através de outros fatores sociais e históricos, como exemplo: a cultura, etnia, gênero, entre outros elementos.

Os escritos de Florestan Fernandes, foram fundamemntais para o desenvolvimento e o interesse pela pesquisa, através dos textos do autor, podemos compreender que além de uma invisibilidade o que ocorre em Amambai é uma forte reprodução preconceituosa e racista para com as populações indígenas.

Em Amambai além do fator segregação das classes sociais, o fator étnico é um dos pilares da construção e manutenção da invisibilidade pública nas áreas comerciais da cidad, . afinal, quando andamos pelas ruas comerciais de Amambai, pequena cidade do Mato Grosso do Sul, é possível detectar a circulação diária, em grande número, de indígenas. Eles nao vivem mais isolados, são amambaienses, fazem parte da sociedade local, e, mais ainda, contribuem economicamente em diversas áreas do comércio. Muitos acreditam ainda que os povos indígenas estão fadados ao desaparecimento:

São povos cujo destino, sob a ótica dos colonizadores, era o desaparecimento total, mediante a sua integração em nossa sociedade, entendedndo-se, historicamente, essa integração como superação da sua distintividade enquanto povos com seu território, seu modo de vida, sua organização social, sua economia, sua religião e sua cosmologia. (Brand, Ferreira e Azambuja, 2005, p. 27/28).

É importante o que Brand, Ferreira e Azambuja pontua, pelo fato de muitas pessoas pensarem que as relações entre indígenas e não indígenas, são desfavoráveis aos povos indígenas, por acreditarem que o indígena perderia a sua cultura, perderia seus costumes ao se relacionar com grupos não indígenas. Na realidade, trata-se de algo oposto ao anunciado, pois eles acabam absorvendo diversos conceitos de outras culturas sem perderem o seu modo de viver culturalmente e socialmente.

Em Amambai ouvi pessoas comentando que os indígenas querem ser brancos, imitam o branco em todos os sentidos, outros dizem: mas já que querem ser brancos, e como não fazem nada da vida, porquê então não plantam lavoura na reserva indígena? Vemos o preconceito em julgamentos tendenciosos com a população indígena. Ser indígena em Amambai não é algo fácil, estamos falando de uma população extremamente etnocêntrica que tenta desclassificar, humilhar, deslegítimar a qualidade e a cultura indígena.

3-Motivos para se pensar a invisibilidade indígena no comércio de amambai

Aonde, quando e o porquê de tentar invisibilizar a pesença indígena no comércio local? Seja com os indígenas que são funcionários de determinadas empresas, ou com os indígenas que fazem compras no comércio de Amambai, a invisibilidade dos povos indígenas presente no comércio e na sociedade amambaiense, pode ter sido criada, através de inúmeros fatores, dentre eles, o preconceito racial, cultural, étnico, as desigualdes sociais, o etnocentrismo, o conservadorismo, o racismo, a segregação racial, o processo de socialização primária e secundária. Este último criado por Émile Durkheim, o coronealismo que foi figura marcante na formação da cidade de Amambai, as lutas de terras travadas entre indígenas e fazendeiros, isso pelo fato dos fazendeiros também serem donos de comércios em Amambai. Será que esses conceitos são os pilares da construção do preconceito e da invisibilidade no comércio local para com os indígenas? Segundo Florestan Fernandes:

Desde o início ( e ainda hoje ) o trabalhador negro precisa de compreensão atilada e de amparo constante, seja para encetar uma carreira, seja para persistir nela, seja para tirar o máximo proveito de sua capacidade de trabalho, para si, para os patrões e para a coletividade. A estereotipação negativa não só impediu que o branco descobrisse esse aspecto da realidade, mais produziu algo pior: suscitou uma barreira invísivel universal,que tolhia qualquer redefinição rápida da imagem do negro, que facitasse a transição do trabalho escravo para o trabalho livre e acelerasse pelo menos a proletarização do homem de cor ( FERNANDES, 1978, P. 141).

De acordo com Fernandes em (1978), com relação a democracia racial em específico o discurso de um país sem preconceito racial, segundo o autor nada mais era do que o padrão de dominação racial tradiconal, visto que existia um racismo e um preconceito encoberto que diretamente preojudicava os negros. Isso prova que mesmo com o fim da escravidão, os negros ainda são discriminados, invisibilizados e vistos como inferiores. O que isso tem a ver com as populações indígenas? Ao meu ver tem tudo a ver e por vários fatores, pelo fato de o indígena continuar ser segregado e inferiorizado até os dias atuais, mesmo com o final da colonização brasileira. O indígena é excluído constantemente em diversas áreas da sociedade brasileira, com relação ao racismo e o preconceito, até nisso os indígenas são invisibilizados, porque quando falamos em racismo e preconceito geralmente relatamos as dores enfrentadas e os sofrimentos das populações negras, mais no Brasil as populações indígenas também sofrem com o racismo e o preconceito.

O racismo não pode apenas ser considerado racismo quando a vítima é uma pessoa negra, o racismo que machuca os povos indígenas também é racismo. As contribuições de Florestan Fernandes são fundamentais para compreendermos o que ocorre com a população indígena de Amambai e no Brasil como todo, não existe igualdade racial existe sim segregação racial, e uma segregação que reproduziu ódio ao longo de muitos anos. Segundo Florestan ao fazer uma análise da sociedade paulista:

Em vez de democrática, nesta esfera a sociedade paulistana era extremamente rígida, proscrevendo e reprimindo as manifestações autentticas de autonomia social das pessoas de cor. Considerada em termos desse contexto histórico, a convicção de que as relações entre negros e brancos corresponderiam aos requisitos de uma democracia racial não passam de um mito. ( FERNANDES, 1978, P.262).

Ao analisar a sociedade paulistana, Florestan Fernandes deixa claro que não existe uma igualdade racial, e o que então ele denomina de mito da da igualdade racial, essa democracia racial de fato é apenas um grande discurso de cunho político em específico de dominação política. Em Amambai, vários são os discursos na tentativa de deslegítimar as populações indígenas, desconstruir as mesmas, dicursos que dizem que atualmente não existem mais povos indígenas, pelos mesmo viverem como os brancos. Quando indagadas, muitas pessoas donas de comércio na cidade, dizem que: todos são tratados de maneira igual em seus comércios, seja negro, indígena, homossexual, mulher, rico, pobre. Na verdade além de um mito de igualdade racial, vemos um mito de igualdade cultural, de gênero, de classe social.

Porque tanto preconceito, tanto ódio para com os indígenas? Preconceito que chega ao ponto de mesmo o indígena comprando em grande quantidade, comportando-se formalmente nos espaços comerciais, pagando corretamente sua compra, é ainda tratado de maneira inferior aos demais integrantes da cidade, que reproduzem aquilo que ouvem sobre os povos indígenas e por um sentimento de superioridade dos não indígenas com relação aos indígenas.

A palavra invisível tem sua origem etimológica no latim. [...] trata-se de um adjetivo que tem a função de qualificar aquilo que por sua natureza não tem visibilidade ou não corresponde a uma realidade sensível. Por outro lado, o termo invisibilidade, na forma de substantivo masculino denominado estado de seres animados ou inanimados, concretos ou abstratos na condição de não ser visível (Houaiss; Mello Franco, 2001).

Realmente ser invisível não é algo positivo. O mais indulgente é quando são criados mecanismos para tornar alguém invisível, isso tem acontecido no comércio de Amambai, provavelmente se estudar o comportamento do comércio de outras cidades do Estado do Mato Grosso do Sul, o que ocorre na cidade já citada, deve ocorrer em várias outras cidades.

Alguns nomes serviram ao longo do tempo para classificar os indígenas na cidade. O problema é que a maioria dos nomes e termos usados na identificação indígena, são pesados, uma grande parcela de moradores locais, chamam os indígenas de bugres, termo esse altamente pejorativo, termo que os próprios indígenas odeiam, que no dicionário brasileiro é definido como rude, selvagem, incivilizado, herege.

Termos como esse machucam e marcam profundamente a vida dos povos indígenas de Amambai, através dos estigmas com os povos indígenas, enraizados desde o período colonial brasileiro, esses termos foram sendo naturalizados e são usados de maneira errônea. Será que os estigmas que maracaram negativamente alguns indígenas, possam ter sido um dos principais fatores da criação da invisibilidade indígena nas relações de comércio de Amambai, por parte da sociedade de Amambai? Segundo Erving Goffman:

O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é em si mesmo, nem horroroso nem desonroso. (Goffman, [1891] 2004, p. 6).

A invisibilidade certamente não surgiu no comércio, mais ganha força no comércio, pelo contato diário entre indígenas e não indígenas. O fator invisibilidade social ocorre nas relações de trabalho, onde o capital, exclui, classifica e hierarquiza as pessoas, na cidade de Amambai, a invisibilidade social, não afeta apenas os indígenas, mas também os de baixa renda, mulheres, negros, deficientes fisícos, homossexuais. Porém, historicamente os povos indígenas são os mais discriminados socialmente em Amambai.

Como se pôde perceber, são inúmeros os termos negativos que são usados até os dias atuais sobre os indígenas;no entanto a um que certamente é marcante e se consolidou nos discursos de grande parte da população amambaiense, o termo é: pão velho. O pão velho é um termo usado para identificar de maneira negativa os indígenas do município. Muitas pessoas falam que desde muito tempo os indígenas cruzavam bairros considerados nobres em Amambai, para cortarem caminho até a Aldeia Amambai. Durante essa travessia, eles paravam em algumas residências e pediam água e algum alimento para comerem. Segundo essa história, os moradores desses bairros nobres diziam que tinham apenas pão velho, e davam realmente os pães mais velhos, muitas vezes embatubados e embolorados. Posteriormente isso se repetiu em bairros carentes onde os indígenas percorriam para a venda de suas mercadorias e alimentos. Na minha casa foram poucas vezes, mas alguns indígenas já pediram alimento, referindo-se inicialmente ao termo pão velho; bateram palmas pediram pão velho, água e ofereceram colares, brincos, pulseiras artesanais e alimentos produzidos na reserva indígena.

Porquê falar do pão velho? O que ele tem a ver com a pesquisa? Ele tem tudo a ver com a pesquisa, pelo fato de ser um termo criado para inferiorizar os indígenas. Muitos falam até hoje: os indígenas só sabem pedir pão velho, chupar guavira e manga. Em conversas com acadêmicos indígenas nos intervalos do curso de Ciências Sociais, alguns alunos disseram que já pediram água e pão velho, pelo fato de andarem por vários quilômetros até a cidade para fazerem compras, segundo eles, só compravam o básico e no retorno estavam com sede, exaustos e com fome. Em decorrência disso pediam água e pão para suprir suas necessidades imediatas.

O triste é que o termo é usado de maneira extremamente segregatória. Pedir pão não faz da pessoa um vagabundo miserável. Devemos nos colocar no lugar dos indígenas. Para moradores dos bairros nobres é fácil, entram em suas caminhonetes com ar condicionado e vão fazer as suas compras. Gostaria de ver se aguentariam sair do conforto de seus lares, para andarem por mais de oito quilômetros com fardos pesados, com crianças de colo, no sol ardente, sem água e sem uma merenda. Será que aguentaraiam? Certamente não andariam nem cinco quilômetros e já chamariam o corpo de bombeiros...

Aonde eu quero chegar com o simbolismo da história do pão velho? O que gostaria de frisar é que não se deve classificar o indígena como vagabundo por pedir um copo de água e um pão, nem dizer que toda a população indígena é vagabunda, pois só sabem pedir pão velho. Indígenas acabam sendo vítimas da generalização da população amambaiense. O pior é que durante as abordagens indígenas para pedir água ou pão, muitas vezes vários indígenas, foram expelidos, tocados, humilhados, ouviram palavrões e, em alguns casos, foram até agredidos.

Com relação ao processo de formação primária e secundária, acredito que de certa forma, contribui para a criação da invisibilidade, preconceito, discriminação. Desde o ambiente familiar, quando criança, a afirmação de que indígenas não são pessoas do bem é recorrente. Na casa de amigos, na escola, escutei algumas reproduções não indígenas do indígena como alguém ruim, estudei com um aluno indígena no ensino fundamental, que sofria muita discriminação, por ser indígena e por ser o único indígena da sala.

Ao longo dos anos a criança vai crescendo e enraizando na sua visão de mundo esses valores e posiconamentos preconceituosos. A exclusão é naturalizada por parte de quem a pratica, seja pela falta de conhececimento do outro, seja pelo pré-julgamento do outro como marginalizado. Não devemos descartar o fator econômico, como um dos motivadores da questão da discriminação e invisibilidade indígena. Segundo Marx, o problema que mais afeta as sociedades são as questões estruturantes e as diferenças de classes sociais, o capital causa a segregação a hierarquização de um grupo sobre o outro. Com relação aos moradores indígenas da Vila Cristina, muitas vezes, além de sofrerem discriminação por conta do seu fator étnico, sofrem por conta do seu fator econômico.

Sawaia(2001) aponta que a sociedade exclui para incluir e esta transmutação e condição da ordem social desigual, implica o caráter ilusório da inclusão. Sendo assim todos estão inseridos de algum modo, nem sempre decente e digno, no circuito reprodutivo das atividades econômicas, sendoa grande maioria inserida através da insuficiência e das privações, que se desdobram para fora do econômico. A autora propõe que a dialética exclusão/inclusão corrompe a separação entre as categorias, como já fora exposto. A exclusão, nesta perspectiva é um processo sutil e dialético, pois só existe em relação á inclusão como parte dela. É um processo intersubjetivo que pretende a aprovação das ideologias mantedoras de poderes a alguns grupos sociais específicos, que pretende não ser percebida como falha do sistema, como desigualdade, devendo ser combatida como algo que pertuba a ordem social. Mas, ao contrário, é produto do próprio funcionamento do sistema capitalista (SAWAIA, 2001) Neste ínterim, pode aventar para a dialética exclusão/inclusão como mantenedora de processos de subjetivação que impedem aos indivíduos perceberem-se participando de um sistema que os inclui através de suas vias da quietude e do não visível. Esse indivíduo individualizado, sob a égide ideológica dessa dialética, é um produto de uma identidade coletiva (HENRIQUEZ, 2001). Sem o objetivo de reduzir a reflexão acerca do processo da construção de silenciamentos para produzir invisibilidades, traz-se á tona o papel da idealização neste processo, uma vez que adversa ao processo de desenvolvimento do sujeito proposto por Touraine, esta promete tranquilizar, amparar, preservar a coesão e ás injunções sociais, e dar fuga aos questionamentos, e, nesse sentido, germinando heteronomias, conseqüentes silenciamentos e invisibilidades ( HENRIQUEZ, 2001). (Silva; Serafim, 2016, p. 6).

Concordo em parte com o trecho citado. Não acredito que se exclua algum indivíduo seja em relações sociais ou econômicas, para posteriormente incluí-lo, se excluir pelo intuito de se excluir mesmo. Com relação a lógica capitalista que segrega por questões econômicas e que o indivíduo em determinadas ocasiões, não percebe que está inserido em um processo que o excluí, acredito que em certas ocasiões é isso mesmo, mais não apenas pelo fato do coletivo seguir padrões capitalistas, mais sim por determinados comportamentos estarem naturalizados em alguns ambientes ou em algumas pessoas, tanto pra quem segrega ou para quem é segregado. Geralmente as pessoas mais carentes, compram menos, por esse fator são menos vistas e invisibilisadas, mais no caso das populações indígenas de Amambai, não importa o valor que compram, o que importa é aquilo que os não indígenas pensam dos indígenas.

4-A invisibilidade como fator histórico

O racismo, o preconceito, a discriminação, a exclusão, a segregação, são fatores que acompanham o Brasil desde os períodos coloniais, tanto negros como indígenas sofreram e ainda sofrem com esses fatores, o termo democracia racial, envolve compreensão das relações entre negros e brancos, excluíndo dessa forma os povos indígenas. Durante a ditadura militar os questionamentos sobre esse termo foram proibidas evários estudiosos que realizavam diversas denúncias sobre as desigualdades raciais foram exilados, dentre eles Florestan Fernandes, Octávio Ianni e Fernando Henrique Cardoso. De acordo com Telles:

De 1964ao final dos anos 70, á medida que o governo militar consolidava seu poder autoritário, os estudos sobre a raça feitos por brasileiros foram aniquilados, pois muitos dos mais influentes estudiosos de raça no Brasil haviam sido exilados. (...) Estudos sobre essa questão haviam se tornado um perigo á segurança pessoal. (...) As rebeliões urbanas e o vigoroso movimento pelos direitos civis ameaçavam desestabilizar a sociedade norte-americana, e diante disso o governo brasileiro iria reprimir qualquer evento que se assemelhasse a uma contestação da sua racial vigente. ( TELLES, 2003, p.60-61).

Pra começar nos estudos sobre a igualdade racial, ou o mito da igualdade racial o fator peso é a relação entre negros e brancos, jamais aparece os povos indígenas. Mesmo o racismo para com os negros, as questões de democracia racial, foram proibidas durante a ditadura militar brasileira, durante esse período qualquer questão relacionada ao racismo, ou a demecracia racial foram todas invisibilizadas pelo governo. No cenário Municipal, as questões relacionadas a igualdade racial, ao racismo, praticamente não são debativas, os órgão públicos estão interessados, em asfalto, segurança pública. Com isso a população amambaiense segue invisibilizando e reproduzindo o racismo para com os povos indígenas.

Não tem como negar a presença indígena em Amambai, muito menos camuflar ou invisibilizar a população indígena, os rios da cidade todos receberam nomes de origem indígena, em específico da língua Guarani, os indígenas foram figuras chaves no desenvolvimento da região, através da sua força de trabalho, o êxito foi enorme que esse período de produção de erva ficou conhecido como o ouro verde.

Desde esse período os indígenas já eram tratados como seres inferiores. Não foram lembrados pelo combate na Guerra da Tríplice Aliança e não são reconhecidos como peças fundamentais no desenvolvimento de Amambai, mesmo sendo completamente explorados, fato esse que se repete nos dias atuais, alimentam o comércio local, mas não deixam de serem vistos como figuras marginalizadas.

Os tratamentos excludentes para com os povos indígenas não são fatores recentes, muitos indígenas perderam suas vidas durante o período colonial e, posteriormente, na Guerra da Tríplice Aliança (ou Guerra do Paraguai) isso porque historicamente, não se reconhece honrarias aos povos indígenas pelo combate na guerra. Desse modo, a exclusão e a invisibilidade são de fato prejudiciais, ficam claras nas falas de determinados autores:

Um dos efeitos cruéis da exclusão é a invisibilidade. Os excluídos são invisíveis, desaparecem ou são desaparecidos. Ainda neste primeiro semestre de 2007, um dos líderes do movimento políticoCanseiescancarou a lógica do funcionamentodesta mentalidade estamental, colonialista, escravista quando afirmou que se o Piauí deixar de existir, ninguém vai ficar chateado (Barros, 2007, p.28, grifo meu)

O que Barros analisa é que a invisibilidade e a exclusão, geram efeitos amargos, duros de serem digeridos, e que afetam duramente quem acaba sendo excluído. Através de conversas com não indígenas, grande parte da população não indígena amambaiense acredita que os indígenas vivem muito bem, ganham um salário por cada filho, são repletos de direitos, se matam um branco não vão presos, mas se um branco mata um deles está ferrado para o resto da vida. Dizem ainda que o indígena é intocável, que a Fundação Nacional do Índio, a FUNAI, os defendem e os protegem. Assim, é difícil conhecer algum cidadão amambaiense falando bem dos indígenas. Certas vezes penso que sou o único, fico triste e pensando em como e quando essa realidade mudará.

Esses discursos decorados, construídos por parte da população não indígena, e que são reproduzidos sem um teor científico e sem embasamento algum, também funcionam como influenciadores da construção da invisibilidade e segregação com os indígenas na sociedade amambaiense.

Antes da colonização os povos indígenas viviam em harmonia nas suas terras. E antes da Guerra do Paraguai os indígenas viviam nas suas terras, nas aldeias. Com o fim da Guerra os poucos sobreviventes perderam suas terras, vindo a se instalarem posteriormente em reservas. Os povos indígenas merecem o reconhecimento da população sul- matogrossense, do povo brasileiro e do Governo Federal, por terem combatido em pról da nação brasileira. Os indígenas que perderam suas vidas em combates, assim como os indígenas sobreviventes, não são menos heróis do que o Tenente Antônio João que foi morto em combate pelo exército do Paraguai e recebeu promoções e honrarias do Exército Brasileiro depois de sua morte. Os indígenas que combateram na Guerra do Paraguai não podem continuar sendo invisibilizados, é inaceitável não terem os seus nomes escritos na história brasileira.

Em Amambai, deveria ser da mesma forma, a cultura indígena deveria ser reconhecida, valorizada. A população indígena atualmente só é lembrada apenas em ano de eleição política, fora desse contexto, são segregados, humilhados. O mais o importante é que os/as indígenas jamais desistiram de lutar por seus direitos, suas terras, seus sonhos e sua cultura, estão nas universidades, hoje são professores, mestres, doutores, enfermeiros, exercem essas e outras profissões, que atualmente estão sendo abrilhantadas com a graduação de acadêmicos indígenas.

O que se espera é que em pouco tempo, não apenas a sociedade amambaiense, mais outras regiões, reconhençam e valorizem os profissionais indígenas graduados e os que ainda cursam determinadas graduações. Que a invisibilidade desapareça das relações indígenas e não indígenas. Lindomar Lili Sebastião fala um pouca da invisibilidade para com os indígenas do Estado que participaram da Guerra do Paraguai:

Interessa-nos aqui ressaltar a presença e a participação direta dos nativos no combate. Muito pouco se fala da população indígena que habitava a região: sua invisibilidade foi tão grande nesse período que sua presença não foi registrada na história do Brasil. Alguns pesquisadores atuais das populações indígenas, em especial os pesquisadores dos Guaná Terena, e atualmente os próprios pesquisadores Guaná Terena, buscam reverter o quadro de invisibilidade participativa desses índios que tanto contribuíram com esse cenário e com esse país. (Sebastião, Lili, 2016, p.07)

Existe uma esperança por parte das lideranças indígenas e das populações indígenas, sobre o reconhecimento por parte do Estado, a respeito da importância da participação indígena na Guerra do Paraguai, é necessário, ajudaria a mudar alguns discursos, alguns pensamentos e determinados atos que segregam e desmerecem as populações indígenas. Foram importantes para a nação brasileira, são os verdadeiros donos dessa nação, antes da descoberta não, porque não existiu descoberta, e sim, antes da exploração e violência colonizadora, os indígenas vivem em paz em suas moradas, não pediram para serem colonizados, mais diante da ganância capitalista, não sobrou escolhas ou curvavam suas cabeças ao colonizadores, ou morriam. O tempo passou e ainda muitas pessoas relutam em dizer que os indígenas não significam nada para o país.

Muita coisa já aconteceu depois desses cem anos de demarcações de terras no Estado do Mato Grosso do Sul, a população indígena de Amambai como exemplo teve um aumento populacional considerável, porém a invisibilidade é um fator que mostra que os indígenas de Amambaí, de uma ou de outra forma acabam sendo excluídos socialmente, além de uma segregação, as tentativas de camuflar a presença indígena nas áreas de comércio, contribuem para o fator denominado etnocídio, que é a tentativa de extinguir outras etnias, desta maneira se reconhece apenas uma etnia, quando na verdade em Amambai podemos ver a presença marcante de várias etnias, seja ela dos indígenas, dos negros, dos brancos, entre outras.

Atualmente as reservas indígenas de Amambai encontram-se praticamente dentro da área urbana da cidade, as reservas não possuem espaço suficiente para o plantio de grãos, nem para o próprio consumo, além de não ter solo fértil para o desenvolvimento da atividade, desta forma não tem como ter uma renda e nem sobreviver com o que a reserva oferece. Com isso grande parte da população indígena acaba se obrigando, a procurar emprego e de fato trabalhar no comércio local, o problema que não vemos indígenas trabalhando, pelo simples fato de trabalharem nos fundos das empresas, em setores onde exige força braçal, nos cargos da frente, de atendente, caixa, vendedor, dentre outros, jamais é visto algum funcionário indígena, mesmo com vários indígenas sendo capacitados para também atuarem em áreas de maior visibilidade.

Atualmente os indígenas juntos somam mais de um terço da população de Amambai, muitas pessoas, inclusive muitas empresas, lucram muito com o dinheiro que a população indígena injeta na economia local. Mesmo com inúmeras contribuições indígenas no desenvolvimento e sustentabilidade do comércio local, muitos não gostam da presença indígena em seus estabelecimentos.

Com relação a invisibilidade pública, condição essa não normal e não natural a que um ser humano possa ser submetido, forma-se entre cegos superiores e subalternos invisíveis (COSTA, 2004). O que Costa fala tem relação com a invisibilidade em Amambai, pelo fato de o patrão ser cego por conta de sua posição social, um determinado cliente ser cego por conta de acreditar ser superior aos indígenas, de um determinado funcionário com um cargo acima do cargo de um trabalhador indígena, ser cego por ter um cargo melhor, através dessa cegueira e do sentimento de superioridade essas pessoas acabam praticando a invisibilização para com os povos indígenas nas relações de comércio.

A invisibilidade carrega com ela muitos fatores, muitos conceitos, que são malefícios para os povos indígenas. Eu queria entender porquê a sociedade de Amambai tenta esconder e camuflar a presença indígena no mercado, nas lojas, nos estabelecimentos, seja esse indígena funcionário, seja ele na figura de cliente, o tratamento é o mesmo, totalmente excludente.

Quem tenta camuflar a presença do outro, executa a ação de maneira velada ou de maneira exposta, sem pensar nas consequências que o ato pode causar ao outro, muitas vezes por estarem naturalizadas essas ações discriminatórias. O sentimento do outro ao ver que está sendo excluído, humilhado, invisibilizado é algo que marca profundamente.

Segundo Juliana Porto (2009) no seu artigo Invisibilidade social e a cultura do consumo, sobre os profissionais sem identidade. [..]Quando, a caminho do trabalho, passamos por um gari fazendo varredura de nossa calçada, o identificamos por seu uniforme como executante de tal função, mas não o notamos por suas sigularidades. Ao contrário, o vemos quase como se fosse parte do mobiliário urbano (Porto, 2009, p.2)

Uma coisa é certa, pra quem tenta invisibilisar, discriminar, segregar, os efeitos não são maléficos, mais para quem sabe que está em determinado local e percebe que as pessoas fazem de conta que você não está lá, no minímo é constrangedor e pode gerar inúmeros outros efeitos negativos na pessoa invisibilizada, sofrimento, vergonha, sentimento de inferioridade, insegurança, raiva. Gilson Rodrigues fala algo importante sobre a invisibilidade:

A invisibilidade que nos anula é sinônimo de solidão e incomunicabilidade, falta de sentido e valor, falta também desse olhar, ao acontecer, é capaz de restituir ao outro, potencialmente, o privilégio da comunicação, do diálogo, da troca de sinais emoções, da partilha de valores e sentido, da comunicação da linguagem. Sem os olhares que vêem que as ligações entre as pessoas, não existiria aquilo que chamamos de sociedade. (Rodrigues, p. 5 e 6)

A invisibilidade é um fator que segrega e afeta não apenas os povos indígenas, mais também os negros, sabemos que mesmo com políticas públicas voltadas para a inclusão social, garantia da democracia e da igualdade racial, mesmo com a criação de cotas, as heranças coloniais são marcantes até os dias atuais, o Brasil é um país marcado pelo racismo, pelo machismo, pelo conservadorismo e pelas desigualdades sociais, raciais e culturais. Sabemos que o Brasil é heterogêneo, é bastante diverso, mais a diferença se torna algo hierarquizado, onde ser indígena e negro é ser alguém inferior.

O que ocorre em Amambai é um forte etnocentrismo, que é reproduzido constantemente e naturalmente, por parte de um grupo determinado como a elite local, que acredita ser superior aos demais grupos, isso pelo fator de classe social e pelos fatores étnicos e culturais. Os estigmas que caracterizam os indígenas e os negros como marginalizados ou inferiores, contribuem para essa tentativa de apagar a cultura do outro, pelo fato deste outro ser sempre considerado inferior, como alguém que não pode frequentar os mesmos espaços de outros grupos étnicos.

Outro fator que contribui é essa cultura do individualismo, ninguém se importa com o outro, ainda mais se esse outro for considerado inferior, como então fugir dos estigmas, é algo complicado, mais que aos poucos os indígenas vão mostrando que não perderam seus costumes, suas crenças, sua cultura, incorporaram novos conceitos em sua cultura, o contato com outras culturas não apagaram a sua identidade étnica e cultural.

Os indígenas não estão estagnados em uma cultura, hoje por necessidades vestem as mesmas roupas das populações não indígenas, consomem os mesmos alimentos, frequentam os mesmos espaços urbanos, são exemplos de garra e determinação a maioria dos indígenas que residem em Amambai, falam mais de uma língua, inclusive a língua não indígena, mais será que grande parte parte da população amambaiense falam a língua indígena? É certo que não falam outras línguas, são raras as exceções locais de população não indígena que falam, inglês, espanhol, guarani ou outros idiomas.

RESUMEN: En este artículo abordaré el problema de cómo actúa los prejuicios y el racismo en la invisibilidad de los pueblos indígenas en el municipio de Amambai ubicado en el estado de Mato Grosso do Sul (UEMS). La intención es presentar y analizar el tema de la invisibilidad en relación con los pueblos indígenas a través de la dinámica comercial en la ciudad, entendiendo las causas y efectos sociales de esto problema. Supongo que en lugar histórico de los pueblos indígenas dentro de las sociedades no indígenas está lleno de estereotipos y prejuicios de todo orden, lo que, en este sentido, crea imágenes preconcebidas sobre la forma en que viven los pueblos indígenas. Se trata de un estudio preliminar, que merece atención desde en punto de vista de las Ciencias Sociales, ya que es un tema que históricamente impregna nuestra sociedad brasileña.

Palabras clave: invisibilidad; pueblos indígenas; comercio; Amambai.

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Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, como requisito parcial para a obtenção de Licenciatura em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Diógenes Egidio Cariaga

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