MUSK, O ÓDIO E O COMPLIANCE NA GERAÇÃO DE VALOR AO ACIONISTA

19/12/2022 às 08:58
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A lógica da economia da atenção(desatenção), é a mesma que nutre o mercado de ações no aumento ou diminuição do valor do seu negócio.

Para os milhões de proprietários de um Tesla, ter um carro elétrico é um sinal de posicionamento político, de alguém que se preocupa com a sustentabilidade, e faz uma aposta na tecnologia de um veículo, e foi esse status da marca que fez ela ser a montadora mais valiosa do mundo. Quando o seu maior acionista resolve investir em foguetes que podem fazer turismo aeroespacial, ou em redes de nano satélites para comunicação dos nossos carros e telefones, ou na implantação de chips no cérebro que podem devolver mobilidade para pessoas com alguma limitação, tudo se alinha a mesma lógica, onde a tecnologia é aliada para mudar paradigma, e logo esses negócios mantém uma sinergia de propósito e de visão de mundo.

Porém o que acontece quando o seu maior acionista resolve comprar uma rede social, e suspender a conta de jornalistas que criticavam essa rede social, em típica manifestação de autoritarismo?

A velocidade das notícias, para o bem ou para o mal é implacável, e logo analistas voltam seus olhos, para um fato bem simples, a Tesla não está mais só no mercado, outros concorrentes chegaram e começam a produzir produtos de qualidade, o que põe em risco o valor da empresa e implica em perda para os acionistas que investiram na capacidade de Musk de entregar esse valor, por mais que tenha demorado.

É ai que o Compliance ganha valor, pois em todo livro de oferta, no instante do IPO (Oferta Inicial de Ações na Bolsa) os potenciais investidores recebem nesse prospecto o que o negócio vai ser, e quem vai realizar aquilo que o livro de oferta pretende.

No momento em que Elon Musk vende quase 22 milhões de ações da Tesla no valor de mais de US$ 3,5 bilhões, para investir em seu novo negócio(ou brinquedo)o Twitter, tirando o foco do seu principal negócio, a Tesla, o mercado se preocupa, e responde com a queda acentuada do valor das ações. Afinal a empresa pode ter regras de Compliance para diversificação dos negócios do seu principal acionista?

Com tantos desafios pela frente como assegurar o fornecimento de matéria prima para bateria dos seus carros, ampliar as redes de abastecimento para seus usuários, sobra tempo pra cuidar o Twitter? Claro que todas essas empresas possuem um corpo técnico respeitável, com profissionais preparados para o desafio, mas como então o mercado de capitais reage quando o maior acionista resolve aliar seu nome as bandeiras mais retrógradas dos tempos atuais?

Lembro que é a segunda vez que Musk se desfaz de um número considerável de ações de sua empresa desde que comprou o Twitter no final de outubro por US$ 44 bilhões, de acordo com documentos divulgados pelo The Wall Street Journal.

Estas vendas pelo CEO da empresa de veículos elétricos tiveram um efeito negativo no preço das ações, que caiu mais de 50% em 2022, lembrando que alguns analistas já previam que Musk seria forçado a vender parte de suas ações da Tesla para financiar a operação do Twitter, que segundo o próprio empresário está perdendo US$ 4 milhões por dia.

Apesar do fechamento do capital do Twitter, o mercado faz a correlação direta do seu maior acionista com a empresa adquirida e que vem derretendo em número de usuários. Para as redes sociais perder usuário significa reduzir o retorno dos investimentos feitos em publicidade por seus anunciantes, na lógica da sociedade da atenção, onde quanto mais gente significa mais conversão do anúncio.

A rede social, pode perder mais de 32 milhões de contas nos próximos dois anos, à medida que a empresa introduz mudanças fundamentais que afetam o funcionamento da plataforma e degradam o serviço devido à drástica redução de pessoal.

Esta é a conclusão a que chegou a empresa de análise Insider Intelligence que, na sua mais recente previsão de utilização do Twitter, prevê que os utilizadores da rede social vão cair 4% em 2023 e mais 5% em 2024.

Após um crescimento praticamente estável em 2022, com 368,4 milhões de usuários ativos mensais em todo o mundo, a base de usuários do Twitter cairá 3,9% em 2023, para 353,9 milhões de usuários. Um declínio que será ainda mais pronunciado no ano seguinte, quando os usuários devem despencar para 335,7 milhões

Desde que Musk assumiu o comando da empresa, no final de outubro, o empresário revolucionou a rede social. Primeiro com a demissão de mais de 7.500 trabalhadores, cerca de metade da sua força de trabalho, a que se seguiram centenas de demissões nas semanas seguintes devido ao aperto das condições de trabalho.

O dono da Tesla e da SpaceX trabalhou duro nos últimos meses para reformar o Twitter e tornar a plataforma menos dependente dos anunciantes, anunciando serviços de assinaturas pagas.

Com essas assinaturas, a nova direção do Twitter tenta compensar a perda de renda causada pela saída de muitos anunciantes da plataforma nos últimos meses, descontentes com o relaxamento da política de moderação de conteúdo anunciada por Musk, afinal conteúdo não moderado significa espaço para todos os delirantes de plantão derrubando a qualidade do conteúdo e tornando a rede um espaço privilegiado para todo tipo de lunático. E logo o dilema atual que vivem todas as redes sociais e a sua lógica da desatenção (quando todos disputam a sua atenção o resultado é mais desatenção) onde com tanto barulho ninguém se escuta, os anunciantes, gradativamente se afastam, pois com tanto ódio propalado nas bolhas de grupo acabam por derreter a credibilidade e a possibilidade de conversão do anúncio em venda.

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Ao mesmo tempo, a Tesla melhorou seu resultado, mas decepciona nas vendas, o que castiga ainda mais o seu valor de mercado, ainda que não seja uma queda significativa nas suas entregas.

Elon Musk reconheceu que vendeu ações da Tesla, quebrando sua promessa de não se desfazer das ações da montadora de carros elétricos, para "salvar o Twitter" poucos dias depois de assumir o controle da plataforma social.

A admissão de Musk ocorreu 24 horas depois que os documentos da Tesla apresentados à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) refletiram a venda das ações, que teria ocorrido em 4 de novembro, poucos dias depois que o empresário assumiu o Twitter.

A venda quebrou uma promessa feita por Musk aos acionistas da Tesla em agosto deste ano, quando ele disse que não se despojaria de mais ações da montadora.

Muitos entende que existiu uma certa opacidade na forma de compra da rede social, ao ponto do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, abrir a porta para o início de uma investigação para saber se a Arábia Saudita participou na aquisição do Twitter.

Todas as ações realizadas por Musk, para salvar o Twitter só prejudicaram o valor da Tesla, e como o investidor se protege desses atos?

A mistura entre negócios, acionistas e posições políticas nem sempre dá bons resultados, aqui no Brasil um bom exemplo são os sucessivos atrasos da possível abertura de capital da Havan, em que seu acionista principal assume posições político partidárias, muitas das vezes alimentadas por fake News. E é nisso que o corpo jurídico das empresas precisa trabalhar, para que a opinião dos seus maiores acionistas e diretores não influenciem no valor do negócio, uma tarefa bem difícil em tempos que as redes sociais inflam o ego de CEOs e controladores.

Isso não implica em dizer que CEOs e acionistas não devam se posicionar, é claro que devem e precisam, mas o posicionamento precisa ter base científica, precisa estar bem nutrido pela boa e necessária pesquisa, e não apenas a reprodução do grupo do Zap.

Os recentes passos dados por Elon Musk no Twitter fizeram com que o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, envia-se uma carta ao novo proprietário do Twitter, na qual afirmou, entre outros pontos, que na rede social "não deve haver lugar para o ódio que incite a discriminação, a hostilidade ou a violência".

O alto comissário garantiu ainda que "a liberdade de expressão não deve significar um caminho totalmente livre", e observou, a este respeito, que a disseminação de desinformação pode ser prejudicial, "como se viu durante a pandemia de Covid-19 em relação às vacinas".

"O Twitter tem a responsabilidade de impedir a disseminação de conteúdo que prejudique os direitos das pessoas", disse a carta aberta do alto comissário, que também indicou que "a liberdade de expressão termina quando há discurso de ódio que incita a discriminação, hostilidade ou violência".

"O Twitter deve entender os danos relacionados à plataforma e tomar medidas para resolvê-los. Respeitar nossos direitos humanos deve servir como um limite para o uso e a evolução da rede social", alertou o alto comissário austríaco.

Reputação e opinião pública estão umbilicalmente ligados ao valor dos negócios e a história econômica é recheada de ligações equivocadas, muitas delas por interesses escusos, como empresas tradicionais na Alemanha de Hitler, prova de que o interesse e a conveniência do curto prazo, anuvia as melhores ideias e trazem prejuízos enormes.

Nunca na história da humanidade a informação esteve tão fácil ao alcance de muitos, e logo dedos e bocas apressadas precisam dar lugar a acuidade informacional separando o joio do trigo, e se posicionando sim em bandeiras que impliquem em evolução da humanidade.

Sobre o autor
Charles M. Machado

Charles M. Machado é advogado formado pela UFSC, Universidade Federal de Santa Catarina, consultor jurídico no Brasil e no Exterior, nas áreas de Direito Tributário e Mercado de Capitais. Foi professor nos Cursos de Pós Graduação e Extensão no IBET, nas disciplinas de Tributação Internacional e Imposto de Renda. Pós Graduado em Direito Tributário Internacional pela Universidade de Salamanca na Espanha. Membro da Academia Brasileira de Direito Tributário e Membro da Associação Paulista de Estudos Tributários, onde também é palestrante. Autor de Diversas Obras de Direito.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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