IFBrM e políticas públicas voltadas a pessoas com TEA

19/08/2024 às 17:25

Resumo:

- A trajetória da construção do instrumento de avaliação da deficiência no Brasil reflete um longo e complexo processo de transformação social, marcado pela luta por direitos e pela busca por uma compreensão mais inclusiva e humanizada das diversas formas de deficiência.
- O reconhecimento da deficiência no Brasil começou a ganhar destaque com a Constituição Federal de 1988, promovendo uma verdadeira revolução em termos de direitos humanos e abrindo caminho para políticas inclusivas.
- O IFBrM propõe um instrumento de avaliação unificado, padronizando critérios e procedimentos, reduzindo custos, promovendo maior equidade no acesso aos direitos e benefícios, e enfatizando a participação ativa da pessoa com deficiência em todo o processo de avaliação.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

A trajetória da construção do instrumento de avaliação da deficiência no Brasil reflete um longo e complexo processo de transformação social, marcado pela luta por direitos e pela busca por uma compreensão mais inclusiva e humanizada das diversas formas de deficiência. Desde a década de 1980 o País vem passando por profundas mudanças em sua abordagem em relação à deficiência, que se consolidam em um modelo biopsicossocial, capaz de abarcar as múltiplas dimensões que compõem a experiência da deficiência.

O reconhecimento da deficiência no Brasil começou a ganhar destaque com a Constituição Federal de 1988, que promoveu verdadeira revolução em termos de direitos humanos. A partir desse marco iniciou-se um processo de visibilidade e valorização das necessidades das pessoas com deficiência, que até então eram amplamente marginalizadas. A Constituição estabeleceu a igualdade de direitos e a não discriminação, abrindo caminho para a construção de políticas inclusivas.

Entretanto, o real entendimento de deficiência exige um olhar mais aprofundado que considere, não apenas as limitações físicas ou intelectuais, mas também o contexto social e as barreiras enfrentadas por essas pessoas.

Com o avanço da luta pelos direitos das pessoas com deficiência, o Brasil se comprometeu a adotar normas e diretrizes que promovam a inclusão social. A ratificação da Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, em 2008, consolidou um novo compromisso com a construção de uma sociedade inclusiva. A Convenção estabelece que a deficiência é um fenômeno que resulta da interação entre pessoas com impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial e as barreiras ambientais, sociais e atitudinais que podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas (Lei Brasileira de Inclusão).

A partir desse novo entendimento surgiu a necessidade de um instrumento de avaliação que pudesse considerar a singularidade de cada indivíduo, sua funcionalidade e as barreiras enfrentadas no cotidiano.

A avaliação da deficiência no Brasil tem sido historicamente marcada por abordagens que, muitas vezes, não conseguem captar a complexidade e diversidade das experiências vividas pelas pessoas com deficiência. O Grupo de Trabalho sobre a Avaliação Biopsicossocial Unificada da Deficiência, criado em 2019 pelo Decreto nº 11.487/2023, representou um marco significativo nesse processo. Com a finalidade de desenvolver diretrizes e instrumentos que promovam uma avaliação justa e abrangente, o grupo reuniu especialistas de diversas áreas, além de representantes da sociedade civil e das próprias pessoas com deficiência.

O relatório final deste grupo destacou a importância da unificação dos critérios de avaliação, propondo um modelo que considera não apenas as deficiências, mas também as condições de vida e as barreiras que limitam a participação plena desses indivíduos na sociedade. Essa abordagem inovadora busca garantir que a avaliação seja um verdadeiro instrumento de promoção de direitos, permitindo o acesso a políticas públicas e benefícios que respeitem a dignidade e autonomia das pessoas com deficiência.

O método IFBrM (Instrumento de Funcionalidade Brasileiro Modificado), apresentado pelo grupo de trabalho no relatório final, surge como uma proposta inovadora, com o potencial de transformar essa realidade. Ao integrar uma abordagem biopsicossocial, se diferencia do modelo atual, que frequentemente adota uma perspectiva mais limitada e estritamente médica.

Embora o Brasil tenha avançado significativamente na construção de um instrumento de avaliação da deficiência, os desafios ainda são muitos. A implantação efetiva das diretrizes propostas pelo grupo de trabalho requer uma articulação entre diferentes esferas governamentais e a capacitação de profissionais envolvidos na avaliação. Além disso, é fundamental que a sociedade como um todo se mobilize para criar um ambiente inclusivo, que respeite as singularidades de cada indivíduo.

A busca pela autonomia das pessoas com deficiência é uma tarefa coletiva que envolve a reavaliação de estruturas sociais, econômicas e culturais. O instrumento de avaliação da deficiência, ao incorporar uma perspectiva biopsicossocial, deve ser visto como uma ferramenta vital para a promoção da inclusão e cidadania. É pela efetivação de políticas públicas que respeitem a diversidade humana que será possível a construção de um País mais justo e igualitário.

O IFBrM propõe um instrumento de avaliação unificado, que busca padronizar os critérios e procedimentos de avaliação em todo o território nacional. Isso pode reduzir a subjetividade e a variação nas avaliações realizadas por diferentes profissionais, promovendo maior equidade no acesso aos direitos e benefícios. No modelo atual é comum as variações de acordo com o profissional ou a instituição, tendo por consequência a discrepâncias significativas nos resultados e no acesso aos serviços. O IFBrM, por outro lado, estabelece diretrizes claras e um conjunto de critérios que devem ser seguidos, garantindo uma avaliação mais justa e consistente.

Ainda, o novo modelo enfatiza a importância da participação da pessoa com deficiência em todas as etapas do processo de avaliação. Isso inclui a consideração de suas experiências, necessidades e aspirações, promovendo um enfoque centrado no indivíduo. Ao valorizar a autonomia, o IFBrM não apenas reconhece a voz da pessoa com deficiência, mas também contribui para o fortalecimento da sua identidade e autoestima.

Outra inovação significativa é a capacidade de identificar as limitações, como também as barreiras e recursos disponíveis que afetam a vida das pessoas com deficiência. Essa abordagem permite um mapeamento mais efetivo dos obstáculos enfrentados, além de destacar as potencialidades e apoios que podem ser mobilizados para promover a inclusão.

A implementação do IFBrM pode ter impacto significativo nas políticas públicas voltadas para a inclusão das pessoas com deficiência. Ao fornecer uma avaliação mais precisa e contextualizada, o método visa a elaboração de políticas que realmente atendam às necessidades da população, garantindo recursos adequados e intervenções eficazes.

A falta de dados precisos sobre a realidade das pessoas com deficiência pode resultar em políticas públicas genéricas e ineficazes. Ao fornecer uma base sólida para a avaliação, pode orientar a formulação de políticas públicas mais específicas e direcionadas, que considerem as realidades locais e as necessidades da população.

Entre os benefícios da padronização está a redução de custos, tanto para o Estado, que passará a ter um único laudo, em uma única análise para todos os serviços e benefícios, como para o cidadão, que não passará mais por diversas avaliações, às vezes com resultados conflitantes.

Esse modelo inovador, que visa a compreensão holística das deficiências, permite, igualmente, um olhar mais atento às nuances que permeiam a vida das pessoas com transtorno do espectro autista, por exemplo, as quais são consideradas deficientes para os efeitos legais. As implicações da adoção do novo modelo podem não apenas favorecer a inclusão social, mas também promover a eficiência econômica na gestão de recursos públicos, assim como a inserção desses indivíduos no mercado de trabalho.

A perspectiva buscada pelo IFBrM é essencial para a construção de políticas públicas que reconheçam as limitações, mas também valorizem o potencial dos indivíduos. No caso das pessoas com TEA, a avaliação biopsicossocial é crucial para identificar suas habilidades e necessidades específicas, garantindo, assim, a elaboração de planos de assistência mais adequados.

Implementar um modelo de avaliação que se baseia na compreensão integral da deficiência representa uma oportunidade de otimização dos recursos da previdência social. Ao identificar de forma precisa as necessidades das pessoas com TEA, os órgãos públicos podem direcionar suas ações para intervenções mais eficazes, evitando a dispersão de recursos públicos em ações genéricas que não atendem às especificidades dessa população cada vez maior.

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Além disso, ao garantir a autonomia das pessoas com transtorno do espectro autista, os programas de inclusão no mercado de trabalho favorecem a dignidade e a qualidade de vida desses indivíduos, assim como também contribuem para a redução da dependência de benefícios assistenciais. Essa mudança alivia a pressão sobre o sistema de previdência social e potencializa o crescimento econômico, uma vez que promove a inclusão produtiva e a participação ativa desses cidadãos na sociedade.

Políticas públicas que incentivem a empregabilidade dessa população, com foco em adaptações razoáveis e ambientes de trabalho inclusivos, bem como a implementação de programas de capacitação e sensibilização para empregadores é fundamental para desmistificar preconceitos e promover a valorização das habilidades e talentos dos indivíduos com TEA.

Empresas que adotam práticas inclusivas cumprem com suas responsabilidades sociais, mas também se beneficiam da diversidade, que pode ser um diferencial competitivo no mercado. A diversidade no ambiente de trabalho fomenta a inovação e a criatividade, contribuindo para um clima organizacional mais positivo.

O IFBrM permite a avaliação mais abrangente e contextualizada, fundamental para entender como cada indivíduo pode ser apoiado em sua trajetória rumo à autonomia desde criança. Ao identificar as habilidades que podem ser desenvolvidas e as barreiras que precisam ser superadas, as políticas públicas podem ser orientadas para promover intervenções personalizadas que incentivem a autonomia e a participação ativa na sociedade, não apenas escolas inclusivas que não visam o real desenvolvimento do ser humano.

Com o aumento da expectativa de vida, é essencial que políticas públicas se ajustem para garantir que pessoas com TEA tenham uma vida plena e digna ao longo de suas vidas. O IFBrM pode embasar a criação de políticas que assegurem acesso a serviços de saúde, educação e assistência social, promovendo uma abordagem que acompanhe a evolução das necessidades ao longo do tempo. Isso inclui a consideração de programas de transição para a vida adulta, que preparem os indivíduos para a independência e a gestão de sua própria vida.

As pessoas com TEA frequentemente necessitam de cuidados contínuos, especialmente em casos de nível de suporte três. O IFBrM pode auxiliar na identificação das necessidades específicas de cuidados, permitindo que as políticas públicas se concentrem na formação de uma rede de apoio robusta. Isso inclui a formação de profissionais de saúde e educação, como o fortalecimento da participação da família e da comunidade no suporte dessas pessoas. Ao promover um sistema de cuidados que valorize a autonomia, as políticas públicas podem minimizar o impacto da dependência e promover uma qualidade de vida melhor.

A concessão de benefícios assistenciais para crianças com transtorno do espectro autista, por outro lado, é uma medida crucial que vai além do apoio financeiro. Trata-se de um investimento no desenvolvimento futuro das crianças e na qualidade de vida das suas famílias. Ao garantir que cuidadores possam dedicar tempo e recursos necessários às terapias e intervenções adequadas, essa assistência pode ter um impacto significativo na autonomia futura das crianças, ao mesmo tempo que mitiga os quadros depressivos e a sobrecarga emocional frequentemente enfrentados pelos cuidadores.

As intervenções precoces e as terapias específicas, como a ABA, terapia ocupacional e fonoaudiologia, têm mostrado resultados positivos no desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas e funcionais de crianças com transtorno do espectro autista. Quando as famílias recebem suporte financeiro por meio de benefícios assistências, elas podem investir mais tempo e recursos nessas terapias, criando um ambiente propício para o aprendizado e adaptação.

O acesso a terapias adequadas permite que as crianças desenvolvam habilidades essenciais que contribuirão para sua autonomia na vida adulta, como comunicação, socialização e capacidade de autocuidado.

Os cuidadores de crianças com TEA frequentemente enfrentam sobrecarga emocional significativa, resultante das demandas constantes de cuidados e da pressão para garantir que suas crianças recebam o tratamento adequado, guerreando constantemente por seus direitos. Essa sobrecarga pode levar a quadros depressivos e de ansiedade, prejudicando a saúde mental e a qualidade do suporte que oferecem, eventualmente levando a mais um benefício previdenciário.

O Relatório Final do Grupo de Trabalho sobre a Avaliação Biopsicossocial Unificada da Deficiência representa um avanço significativo em direção à construção de políticas públicas mais inclusivas e eficazes para as pessoas com TEA. A implementação dessas diretrizes promove a autonomia e a dignidade dessas pessoas, e traz implicações econômicas relevantes para a gestão pública e para o mercado de trabalho. É fundamental que a sociedade, em sua totalidade, se engaje nesse processo de transformação, reconhecendo que a inclusão de todos é o caminho para o desenvolvimento social e econômico.

Sobre a autora
Valéria Rutyna

Advogada especialista em Direito Previdenciário, com 18 anos de experiência. Especializada em Direito das Pessoas no Espectro Autista e TDAH, pós-graduada em Direito Empresarial Previdenciário. Sou comprometida em apoiar pais de crianças e adultos com TEA, reconhecendo as complexidades e desafios que enfrentam, oferecendo assistência jurídica especializada na garantia dos direitos e benefícios, buscando trazer tranquilidade e segurança em meio aos desafios enfrentados por todos os envolvidos.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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