Na quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026, após 8 dias completos de deliberação, o júri reunido para julgar o processo criminal referente à invasão da Elbit Systems na Inglaterra absolveu Charlotte Head, Samuel Corner, Ellie (Leona) Kamio, Fatema Zainab Rajwani, Zoe Rogers e Jordan Devlin da acusação mais grave, roubo qualificado. O júri não condenou Charlotte Head, Samuel Corner e Ellie Kamio por desordem violenta e absolveu Fatema Zainab Rajwani, Zoe Rogers e Jordan Devlin da mesma acusação.
O júri também se recusou a condenar qualquer um dos réus por dano criminal, apesar de cinco deles terem admitido em juízo a destruição de armas e equipamentos israelenses pertencentes à maior empresa de armamentos de Israel, a Elbit Systems.
Samuel Corner não foi condenado por lesão corporal grave com intenção por agredir um policial, nem por qualquer outro crime de menor gravidade que pudesse ser considerado pelo júri. No total, nenhum dos réus foi condenado por qualquer crime.
Os réus foram absolvidos, ou seja, não foram condenados, de todas as acusações que lhes foram imputadas, incluindo crimes violentos. Os ativistas afirmam que esse resultado é uma “vitória monumental” que “restaurou a honra” dos réus, que foram difamados por ministros do governo como “criminosos violentos”.
O roubo qualificado foi, de longe, a acusação mais grave enfrentada por cada um dos réus, com pena máxima de prisão perpétua. Os veredictos de inocência para roubo qualificado e a ausência de condenação por desordem violenta significam que o júri não aceitou a tese da acusação de que os réus entraram na fábrica de armas da Elbit com a intenção de usar os itens que carregavam como armas, ou ameaçaram/usaram violência ilegal contra os seguranças da Elbit.
Ao contrário disso, parece que o júri concordou com o argumento da defesa, de que a única intenção dos réus era usar os itens, incluindo marretas, como ferramentas para destruir armas israelenses e “impedir a violência”.
Ativistas afirmam que a recusa em condenar os réus por dano criminal, apesar das evidências que demonstravam danos às armas israelenses, mostra que “o júri entendeu que não são aqueles que destroem armas israelenses que são culpados, mas sim aqueles que utilizam tais armas para cometer genocídio em Gaza”.
Informações mais detalhadas sobre o caso podem ser encontradas aqui. Existe outro bom documento que ajuda a compreender a importância da absolvição ocorrida hoje no THE FILTON TRIAL, um caso que estava sendo judicialmente construído para resultar em uma condenação.
Este caso é importante porque ocorreram vários eventos incomuns durante a instrução. Tudo indica que houve algum tipo de conluio entre o juiz e o promotor público durante a coleta de provas. Ao que parece o resultado desejado era a condenação dos réus, e não o veredicto proferido pelo júri.
Enquanto THE FILTON TRIAL se arrastava nos tribunais, outro processo se desenrolava na opinião pública e no parlamento inglês, relacionado à abolição dos júris na Inglaterra. Para mais informações sobre este assunto, veja aqui.
English Common Law vs. Continental Law tradition. Cada sistema tem seus pontos fortes e fracos.
No entanto, a diferença fundamental entre os dois sistemas reside no fato de que a predominância de julgamentos proferidos por juízes profissionais tende a submeter a administração da justiça aos preconceitos e à agenda política da classe dominante. Isso ocorre porque os juízes profissionais raramente provêm das classes operárias e, mesmo quando o fazem, após assumir o cargo, raramente preservam seus valores ao interagir com seus novos colegas.
O prestígio de pertencer à elite judicial distancia qualquer pessoa de suas origens. Sem mencionar as restrições legais impostas ao cotidiano dos juízes e o medo que eles desenvolvem de cair em desgraça caso sejam vistos como indivíduos degradados com hábitos inadequados. Os juízes profissionais são forçados a viver em uma bolha, enquanto a população em geral existe fora dela.
É aqui que o English Common Law apresenta sua maior força. Os julgamentos feitos pelo júri, tanto na esfera criminal quanto na cível, têm a vantagem de agregar à administração da justiça estatal algo que raramente ocorre quando os julgamentos são proferidos exclusivamente por juízes profissionais: a perspectiva do povo comum, que muitas vezes compartilha as mesmas angústias e dramas daqueles que estão sendo julgados. Essa foi a perspectiva que prevaleceu no THE FILTON TRIAL. Se este caso tivesse sido julgado exclusivamente pelo juiz profissional que presidiu o processo, levando a uma condenação inevitável, o resultado não teria sido a absolvição dos acusados.
Mas para entender como e por que o juiz do caso deve ter ficado irritado com o resultado do juri que foi forçado a divulgar, é necessário mencionar algo sobre sua história pessoal. Abaixo, reproduzo informações disponíveis na internet que me foram indicadas por alguém que acompanha de perto o caso.
Conheça o Juiz Jeremy Johnson KC: o juiz que condenou Tommy Robinson a 18 meses de prisão por desacato ao tribunal hoje.
Ele tem uma trajetória profissional muito interessante…
Em 2007, Johnson representou o MI6 como observador nos inquéritos sobre as mortes da Princesa Diana e de Dodi Al Fayed.
Isso foi bastante incomum, já que o MI6 normalmente não nomeia advogados para inquéritos.
Johnson também representou o Ministério da Defesa do Reino Unido diversas vezes.
Em 2013, ele o defendeu no inquérito Al-Sweady, que abordava alegações de tortura e assassinatos ilegais cometidos por soldados britânicos no Iraque.
Ele também atuou em nome do Ministério da Defesa em 2011 em um caso envolvendo um militar que buscava indenização por danos neurológicos sofridos enquanto servia na Força Aérea Real (RAF).
Nomeado pelo Procurador-Geral em 2007 como “advogado especial”, Johnson possuía a mais alta autorização de segurança do governo — conhecida como “Verificação Avançada” — normalmente reservada para lidar com assuntos ultrassecretos.
Não sabemos exatamente quanto Johnson recebeu no total por esse trabalho.
Registros mostram que ele recebeu dois pagamentos do Departamento Jurídico do Governo por seus serviços em 2018 — um total de £ 55.000.
Ele também decidiu recentemente sobre o caso de extradição de Julian Assange, permitindo que os EUA prosseguissem, desde que certas "garantias" fossem cumpridas.
Johnson também atuou em nome da Polícia Metropolitana de Londres e do suposto uso de vigilância ilegal por parte dessa polícia. Jeremy Johnson QC afirmou que "o reconhecimento facial não violou os direitos de privacidade das pessoas e é semelhante ao uso de câmeras de segurança".
Em resumo, temos um juiz com fortes laços com o governo.
Este juiz não é um homem comum, com ideias convencionais de justiça ou opiniões jurídicas modernas e democráticas sobre a aplicação do Direito Penal. O Juiz Jeremy Johnson KC é um defensor ferrenho do sistema de poder inglês, com fortes laços políticos com aqueles que exigiram a condenação dos réus no caso comentado. Isso, aliás, explica sua conduta durante a instrução do processo.
Se um juiz tem fortes convicções políticas sobre um processo criminal e está convencido da necessidade de condenação antes de coletar as provas e avaliar os argumentos da defesa, o resultado nunca é a administração da justiça. Qualquer pessoa pertencente ao partido político oposto ao defendido pelos réus é obviamente parcial ao atuar como juiz no caso. Para citar apenas um caso muito importante e conhecido, menciono o julgamento de Joana d'Arc, durante o qual ocorreram diversas irregularidades.
“...Nicolas de Houppeville, um mestre da Universidade de Paris de meia-idade testemunhou na Reabilitação e disse que afirmara a Cauchon que este não tinha o direito de agir como juiz: não era correto que ele, como membro do partido oposto, julgasse Joana, visto que ela já havia sido examinada pelo clero de Poitiers e pelo Arcebispo de Reims, que era superior a Cauchon. Cauchon ficou indignado e intimou Houppeville a se apresentar diante ele. Houppeville obedeceu, mas não voltou atrás: afirmou que Cauchon não era seu superior e não tinha o direito de julgá-lo, assim como não tinha o direito de julgar Joana, e que só devia obediência a corte eclesiástica de Rouen. Quando Houppeville insistiu em apresentar seu caso áquela corte, foi levado para o castelo e jogado na prisão. Perguntou por que fora preso, ao que lhe foi dito que tinha sido ‘a pedido do Bispo de Beauvais’. Posteriormente, ameaçaram-no de exílio, mas foi salvo por intermédio de amigos.” (Joana d'Arc - A Lenda e a Realidade, Frances Giles, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1982, pp. 177/178)
Com base no que observamos de sua conduta durante o julgamento, o Juiz Jeremy Johnson KC fez tudo o que pôde para garantir a condenação dos réus. Pode-se afirmar com segurança que ele favoreceu a condenação deles desde o início do processo. Portanto, parece absolutamente previsível que, neste caso específico, os acusados não teriam sido absolvidos em nenhuma circunstância se não tivessem sido julgados por um júri.
Quem realmente precisa de um sistema de justiça que não faz justiça? Os julgamentos criminais não podem ser farsas grotescas encenadas pelos inimigos dos réus, que desejam condená-los por razões políticas mesquinhas. Esta é a maior lição do caso Joana d'Arc, que continuará a repercutir até o fim dos tempos. Uma lição que, infelizmente, alguns juízes corruptos se recusam a aprender. Portanto, é melhor para os ingleses lutarem para manter seus júris, porque, caso contrário...
Imagino que o resultado deste caso tenha irritado profundamente o representante dos "negócios lucrativos sionistas como de costume" em Downing Street, n° 10. Keir Starmer provavelmente usará o veredicto do júri para reforçar sua proposta de abolir esse tipo de julgamento, pois nas mãos de um juiz de carreira o resultado poderia ter sido diferente.
Jeremy Parker, um amigo que me forneceu informações valiosas sobre o caso comentado, concordou comigo e acrescentou:
Yes, this was just my thought (about Starmer abolishing trial by jury). We must make sure they face an almighty battle over this. One thing in our favour is that many of Starmer’s own MP’s are starting to look at him and are thinking “this guy’s going to lose me my seat at the next election”.
Tradução: Sim, era exatamente o que eu estava pensando (sobre Starmer abolir o julgamento por júri). Precisamos garantir que eles enfrentem uma batalha árdua por isso. Um fator a nosso favor é que muitos dos próprios parlamentares de Starmer estão começando a olhar para ele e pensar: "Esse cara vai me fazer perder meu assento na próxima eleição".
Esperemos que os ingleses derrotem esse dragão que quer devorar a English Common Law para impor os aspectos mais autoritários da Continental Law tradition na ilha chuvosa, com ou sem a ajuda de São Jorge.