A grama do vizinho é sempre mais verde: a armadilha que destrói concurseiros e oabeiros

08/02/2026 às 17:33

Resumo:


  • Comparar é humano e faz parte da natureza do ser humano.

  • O problema surge quando se compara e conclui que o outro está melhor do que você.

  • A ilusão da grama verde pode levar à ingratidão e ao culto de um futuro imaginário, desprezando o presente real.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

A grama do vizinho é sempre mais verde.

Essa frase é antiga, simples e, ao mesmo tempo, cruel, pois ela descreve um fenômeno que quase todo mundo já viveu e que, na jornada da aprovação (seja concurso, seja OAB), vira uma armadilha silenciosa, constante e perigosa.

E eu não falo isso como coach, nem como “guru” de internet. Eu falo como alguém que já caiu nessa armadilha em várias fases da vida, sempre com aquele pensamento automático: “rapaz… ali tá melhor do que aqui”. E, pior, como alguém que descobriu — do jeito mais duro — que quase sempre a grama verde do outro tem um preço que a gente não vê.

A primeira coisa que eu preciso te dizer é: comparar é humano. Não é defeito seu. Não é falta de maturidade. Não é fraqueza moral. É da natureza do ser humano.

A gente convive com outras pessoas e, inevitavelmente, se mede, se posiciona, se avalia, se julga. Quer uma prova simples disso? Pense na brincadeira do “quem nunca”. Quem nunca, quando era criança, olhou pro brinquedo do colega (com a mesma função do seu), achou melhor e quis brincar só com o dele? Quem nunca, na alfabetização, queria estar logo no fundamental porque via os “maiores” com aulas diferentes e parecia tudo mais interessante? Quem nunca, quando era criança, queria ser adolescente por causa da liberdade, do namoro e das “vantagens”? Quem nunca, quando adolescente, queria ser adulto porque achava que adulto era sinônimo de dinheiro, autonomia e vida resolvida? Se você respondeu “sim” pra qualquer uma dessas perguntas, pronto. Você já viveu a ilusão da grama verde. E eu também.

Até aqui, comparar não é problema. O problema começa quando você compara e conclui: “o outro tá melhor do que eu”. Aí nasce a armadilha, pois nesse momento, você passa a enxergar só o lado bom da vida do outro, só a parte bonita do resultado, só o “depois” que você idealizou. E você esquece completamente do preço.

A grama verde não nasce do nada, comandantes. Ela exige cuidado, exige tempo, exige renúncia, exige esforço e, muitas vezes, exige sofrimento. Só que isso não aparece no Instagram. Não aparece no print do “aprovado”. Não aparece no sorriso da foto de formatura. Não aparece no holerite do servidor. A gente vê o gramado. Mas o adubo… ninguém mostra.

Na trajetória de aprovação em concurso público e no Exame da Ordem, esse fenômeno acontece com uma força absurda. O concurseiro e o oabeiro olham para quem passou e enxergam estabilidade, liberdade, sucesso, respeito, dinheiro e paz. E aí vem aquele pensamento automático que é quase uma sentença: “quando eu passar, minha vida vai começar”. E aqui mora o perigo, porque, quando você pensa assim, você transforma o presente em um inferno provisório e o futuro em uma fantasia.

Acontece que o presente não foi feito pra ser desprezado. O presente é o chão. É o lugar onde você planta, onde você aguenta, onde você constrói. E quando você começa a odiar o chão, você começa a perder a força de caminhar.

Eu vivi isso em várias fases e sempre me enganei. Eu lembro de quando eu era criança e queria ser adolescente. Na minha cabeça, adolescência era liberdade, aventura, vida boa. Quando virei adolescente, queria ser adulto. Na minha cabeça, adulto era dinheiro, autonomia e tranquilidade. A grama verde, na minha cabeça, era a vida de homem feito. Mas eu era um menino.

Tive o privilégio de concluir o ensino médio com 16 anos. Já tinha feito um curso técnico e estava fazendo outro: técnico em mecânica automotiva. Escolhi esse caminho, em parte, por causa da “grama verde” do meu pai. Meu pai era professor do SENAI e viveu a vida toda como mecânico, então, na minha cabeça, aquela era a profissão possível, concreta, que eu entendia. Fui estagiar em uma concessionária da Honda ganhando R$ 300. Do meu lado, tinha colegas que já eram auxiliares de mecânico e ganhavam o dobro. Eu pensei: “rapaz… quero ser auxiliar logo”. O que eu não sabia era o que me esperava: trabalhar igual um mecânico efetivo, 44 horas semanais, cansaço, pouco dinheiro, pouco tempo. Num bom baianês: era bom demais… mas era barril.

Quando fiz 18 anos, fui me alistar. E eu lembro desse dia como se fosse hoje. Na seleção, um Tenente temporário, chamado Tenente Claro, estava falando: “olha, se você faz faculdade, você pode ser selecionado no NPOR. Você fica um ano, depois pode ser chamado como Aspirante, e aí você vai ganhar… naquela época (2010)… uns R$ 5.500.” Eu, que era auxiliar ganhando R$ 550 por mês, pensei: “meu Deus… eu posso ganhar dez vezes mais daqui a um ano?” Oxe. Partiu Exército! Hahahaha. O que eu não sabia era o caminho até ali: teste, seleção, formação, classificação, pressão e, depois, o preço real de vestir a farda. Eu fui, consegui, virei Tenente de Infantaria do Exército Brasileiro. E foi no Exército que eu tive a certeza de uma coisa: a grama verde tem um preço.

Até vestir aquela farda, a gente paga caro. Acordar cedo, atividade física todo dia, trabalhar sem limite de horário, lidar com pressão psicológica, lidar com risco real. Eu tive a oportunidade de atuar em operações no Complexo da Maré, em 2015, e ali você entende uma coisa que muita gente não entende: a “grama verde” pode ser bonita, honrada e admirável… mas ela vem com o peso do mundo nas costas. Ela vem com renúncia. Vem com responsabilidade. Vem com sacrifício. E essa lição serve para a aprovação.

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Porque é exatamente isso que acontece com a aprovação. O concurseiro vê o servidor aprovado, o oabeiro vê o advogado com escritório moderno e automaticamente pensam: “agora sim. Agora a vida vai.” Só que ele não vê as noites de revisão, os finais de semana perdidos, os “nãos” que foram ditos, as comparações tóxicas, as crises de ansiedade, os dias em que a cabeça não funciona, o medo de reprovar, o sentimento de insuficiência e a solidão do processo. Ele só vê o gramado. Mas não vê o adubo. E, às vezes, o adubo é caro.

O maior risco dessa ilusão é que ela não fica só no desejo. Ela vira culto. Você passa a cultuar um futuro imaginário e desprezar o presente real. E isso é o caminho mais curto pra ingratidão. A ilusão da grama verde é uma armadilha ferrenha pra ingratidão. Você começa a enxergar sua vida como insuficiente, sua rotina como inútil, seu esforço como pouco, seu progresso como irrelevante. E, pior, você passa a achar que só vai ser feliz quando “chegar lá”. Só que a vida não funciona assim. Porque quando você chega lá… você descobre que existe outra grama verde mais à frente. E outra. E outra. E se você não aprender a lidar com isso, você passa a vida inteira correndo atrás de um horizonte que nunca chega.

A mensagem deste texto é simples: não pare de desejar crescer. Desejar crescer é legítimo. Ter ambição é legítimo. Querer aprovação é legítimo. O problema não é querer. O problema é querer de forma infantil, sem compreender o preço, sem maturidade e sem gratidão. Porque, no fim das contas, a grama verde existe. Mas ela não é mágica. Ela é cultivada. E quem cultiva, paga!

Sobre o autor
Jamil Pereira de Santana

Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas pela UNIFACS – Universidade Salvador. Pós-graduado em Direito Público (Constitucional, Administrativo e Tributário) pelo Centro Universitário Estácio e em Licitações e Contratos Administrativos pela Universidade Pitágoras Unopar Anhanguera. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Estácio da Bahia. 1º Tenente R2 do Exército Brasileiro, membro da Comissão Nacional de Direito Militar da ABA (Associação Brasileira de Advogados). Integra o Conselho Editorial da Revista Direitos Humanos Fundamentais (UNIFIEO) e da Editora Mente Aberta. Docente no Curso de Direito da UNINASSAU. Advogado contratado das Obras Sociais Irmã Dulce.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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