O preço invisível da aprovação.

08/02/2026 às 17:50

Resumo:


  • A aprovação em concursos e na OAB tem um preço invisível que vai além do aspecto financeiro, envolvendo tempo, energia, saúde mental e relações pessoais.

  • Comparar-se constantemente com outros candidatos pode levar a uma jornada de estudos marcada por sacrifícios e renúncias, resultando em uma busca incessante pela aprovação.

  • O caminho para a aprovação exige não apenas acumular conhecimento teórico, mas também prática constante, resolução de questões e equilíbrio emocional para evitar a autodestruição.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

Se no primeiro texto eu falei sobre a ilusão da grama verde, agora eu preciso falar sobre aquilo que quase ninguém tem coragem de admitir: o preço invisível da aprovação. Porque a verdade é que a aprovação, seja na OAB, seja em concurso, não é apenas um evento bonito, um print, um nome numa lista. Aprovação é processo. E processo, comandantes, custa caro. Não necessariamente em dinheiro. Mas em tempo, em energia, em saúde mental, em relações, em paz interior. E esse tipo de custo ninguém publica. Ninguém posta. Ninguém transforma em legenda bonita.

A gente vive num tempo em que todo mundo quer mostrar resultado. E eu não acho isso errado, não. O problema é que o resultado virou espetáculo. A aprovação virou vitrine. A posse virou desfile. O contracheque virou medalha. E aí o concurseiro e o oabeiro que ainda estão no caminho passam a viver um tipo de tortura silenciosa: eles não estão apenas estudando. Eles estão competindo com uma imagem. Eles não estão apenas enfrentando uma prova. Eles estão enfrentando a sensação de que “todo mundo tá indo” e só eles estão ficando pra trás.

E eu digo isso porque eu conheço essa sensação. Não conheço de ouvir falar. Eu conheço de sentir na pele. E, quando a gente sente na pele, a gente entende que o preço invisível não vem de uma vez, como uma pancada só. Ele vem em pequenas parcelas. Ele vem todo dia. Ele vem como quem não quer nada. Ele vem no “só mais uma hora”. Ele vem no “só mais um PDF”. Ele vem no “não vou hoje, porque preciso revisar”. E quando você percebe… já se passou um tempo enorme. E você não sabe mais onde foi que você se perdeu de você mesmo.

Por fora, o bastidor da aprovação parece até bonito. A pessoa acorda cedo, toma café, estuda, faz resumo, marca o Vade Mecum, resolve questões, faz simulado, acompanha o cronograma. Parece uma vida organizada, produtiva, quase admirável. Só que, por dentro, existe um componente que ninguém vê: a renúncia constante. E renúncia constante cansa. Porque renunciar uma vez é uma escolha. Renunciar toda semana vira um modo de vida. Renunciar por meses vira uma reconfiguração completa da sua identidade. Você passa a viver como alguém que está sempre “de passagem”, sempre esperando o grande dia, sempre adiando a vida para depois.

E é aí que mora um dos maiores perigos dessa jornada: o risco de você transformar a aprovação no centro absoluto da sua existência. Como único sentido. Como única razão. Como se o mundo inteiro só tivesse valor se aquilo acontecer. E aí, comandantes, você não está mais estudando. Você está se sacrificando. E sacrifício sem equilíbrio não é disciplina. Sacrifício sem equilíbrio é autodestruição. O nome muda, a estética muda, mas o destino é o mesmo: uma pessoa exausta tentando vencer a qualquer custo.

A prova disso está no que a gente vê com frequência em concurseiros e oabeiros: ansiedade, insônia, irritabilidade, crises de pânico, culpa por descansar, dificuldade de estar presente com a família, afastamento de amigos, comparação tóxica, perda de autoestima. O sujeito passa o dia estudando e, mesmo assim, sente que fez pouco. E quando descansa, sente culpa. E quando sai, sente culpa. E quando falha, sente vergonha. E quando acerta, não comemora. Porque ele não vive mais o presente. Ele vive num estado permanente de cobrança.

E sabe qual é a parte mais injusta disso tudo? É que, muitas vezes, a cobrança não vem de ninguém de fora. Ela vem de dentro. O maior algoz do concurseiro e do oabeiro é ele mesmo. É a voz interna dizendo: “você não tá fazendo o suficiente”. É a mente dizendo: “fulano estuda mais do que você”. É o pensamento dizendo: “ciclano já passou e você não”. E essa voz é traiçoeira, porque ela se veste de responsabilidade. Ela se veste de disciplina. Ela se veste de maturidade. Mas, no fundo, ela é ansiedade disfarçada de virtude.

Eu lembro muito bem de um exemplo que marcou a minha vida. Quando eu fui para o mestrado, na primeira aula, eu cheguei lá e vi uma realidade que me esmagou. O coordenador do curso começou a debater assuntos com outros alunos, e, em determinado momento, foram passadas diversas leituras — uma delas em francês. Eu tinha 27 anos. Eu estava completamente perdido. Eu voltei pra casa cabisbaixo, com a sensação de que eu era o mais fraco, o mais atrasado, o mais insuficiente. E foi conversando com minha psicóloga que eu recebi um conselho que, hoje, eu repito para qualquer pessoa em jornada de aprovação: nunca compare histórias.

Naquela sala, ao meu lado, só mais dois colegas tinham menos de 30 anos. O resto era composto por advogados já renomados, servidores públicos, procuradores municipais, gente com bagagem extensa, com estrada, com leitura, com repertório. Me comparar com aquelas realidades era desumano comigo mesmo. E, de certa forma, é isso que acontece com o concurseiro e com o oabeiro. Ele olha para quem já passou e se compara como se estivessem no mesmo ponto de partida, como se tivessem a mesma estrutura, a mesma rotina, o mesmo tempo disponível, o mesmo histórico, o mesmo psicológico. Não têm. E essa comparação não é só injusta. Ela é um tipo de violência interna que cobra um preço invisível todos os dias.

E aí entram as falsas verdigramas. Porque além do peso natural da jornada, existe o peso artificial que a internet criou. A estética do estudo virou produto. O “cantinho de estudos” virou palco. O post-it virou símbolo de produtividade. O cronograma virou status. O sujeito passa mais tempo organizando a vida para parecer que estuda do que estudando de fato. E, no fim, isso vira uma confusão terrível: a pessoa acha que está caminhando, mas está só se cercando de adereços. Meus comandantes… a realidade é diferente demais. No dia da prova, não tem cenário. Não tem “setup”. Não tem vídeo motivacional. Não tem planner. No dia da prova, é você, sua caneta e a questão.

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E é por isso que eu bato tanto nessa tecla: aprovação não se conquista apenas lendo livros sobre aprovação, ouvindo histórias bonitas, assistindo aula e acumulando PDF. Porque, no dia D, não haverá PDF. Não haverá videoaula. Não haverá professor. Não haverá resumo. Haverá uma questão. E um gabarito. E você vai precisar acertar. Então, o preço invisível da aprovação também inclui uma coisa que muita gente não quer pagar: prática repetida até doer. Resolver questões até enjoar. Errar, corrigir, errar de novo, acertar, e repetir. Porque não se corre maratona lendo sobre maratona. Não se atravessa Salvador–Mar Grande lendo sobre natação. E não se passa em prova só acumulando conteúdo.

Mas existe um ponto ainda mais delicado, e eu faço questão de dizer com toda honestidade: o risco de se perder no caminho. Existem pessoas que até passam, mas chegam quebradas. Existem pessoas que até vencem, mas perdem a si mesmas no processo. Existem pessoas que conseguem a aprovação, mas chegam sem saúde, sem casamento, sem paz, sem fé, sem alegria. E aí a grama verde vira um gramado bonito por fora, mas seco por dentro. E isso também é uma derrota. Uma derrota sofisticada, maquiada de vitória, mas derrota.

A aprovação exige constância, e constância exige maturidade. Muita gente vai falar muita besteira. Muita gente vai dizer que você está exagerando. Muita gente vai dizer que não precisa disso tudo. Muita gente vai dizer que “a prova nem é tão difícil”. E eu aprendi uma coisa na vida: essas pessoas que dizem que a carreira pública não presta, que não vale a pena, que paga mal, que é “besteira”… são as primeiras a olhar seu nome no portal da transparência quando você passa. E são as primeiras a te chamar pra pagar uma conta num barzinho. Hahahaha. Então, despreze tudo aquilo que não importa.

O que importa é você não se perder. O que importa é você manter firme e intrépida a tríade: corpo, alma e fé. Corpo, porque sem corpo não existe mente funcionando. Alma, porque sem equilíbrio emocional você não sustenta a jornada. E fé, porque a fé é o que dá sentido quando o resultado ainda não chegou. A fé é a certeza daquilo que não se vê: o senso de propósito, de direção, de que o seu esforço não é inútil, de que existe uma linha de chegada e que você está caminhando em direção a ela.

O preço invisível da aprovação é alto. E justamente por isso ele precisa ser encarado com lucidez. Não para desanimar, mas para amadurecer. Para que você pare de romantizar o processo, pare de se comparar com os outros, pare de se cobrar como se fosse uma máquina e, principalmente, pare de achar que só existe vida depois da aprovação. Existe vida agora. E a aprovação não pode ser a desculpa para você viver infeliz no presente.

A verdade é que a grama verde da aprovação não se conquista com desespero. Ela se conquista com constância. E constância não nasce do caos. Constância nasce do equilíbrio.

Sobre o autor
Jamil Pereira de Santana

Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas pela UNIFACS – Universidade Salvador. Pós-graduado em Direito Público (Constitucional, Administrativo e Tributário) pelo Centro Universitário Estácio e em Licitações e Contratos Administrativos pela Universidade Pitágoras Unopar Anhanguera. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Estácio da Bahia. 1º Tenente R2 do Exército Brasileiro, membro da Comissão Nacional de Direito Militar da ABA (Associação Brasileira de Advogados). Integra o Conselho Editorial da Revista Direitos Humanos Fundamentais (UNIFIEO) e da Editora Mente Aberta. Docente no Curso de Direito da UNINASSAU. Advogado contratado das Obras Sociais Irmã Dulce.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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