Se no primeiro texto eu falei sobre a ilusão da grama verde e no segundo eu falei sobre o preço invisível da aprovação, agora eu quero falar da parte mais difícil — e, ao mesmo tempo, mais libertadora — dessa jornada: como cultivar a sua própria grama. Porque, no fim das contas, o problema não é querer passar. O problema é querer passar se destruindo. O problema é transformar a aprovação em um ídolo e o estudo em penitência. E eu preciso te dizer uma coisa com toda sinceridade: aprovação que custa a sua saúde, sua família e sua paz não é vitória completa. É vitória pela metade. E, às vezes, é derrota disfarçada.
A grande virada de chave do concurseiro e do oabeiro não acontece quando ele compra o melhor curso, quando ele monta o “cantinho de estudos” perfeito ou quando ele acha a apostila definitiva. A grande virada acontece quando ele entende que não existe vida perfeita, cronograma perfeito, método perfeito. O que existe é constância. E constância não é empolgação. Constância é disciplina. E disciplina não nasce do desespero. Disciplina nasce da lucidez. Da decisão madura de fazer o que tem que ser feito, mesmo quando não dá vontade, mas sem se tornar um inimigo de si mesmo.
Tem uma coisa que pouca gente entende: a jornada da aprovação não exige que você vire uma máquina. Ela exige que você vire um líder. Um líder de si mesmo. Porque a maior diferença entre quem passa e quem não passa, na maioria das vezes, não é inteligência. É governança pessoal. É capacidade de conduzir a própria vida em direção a um objetivo sem se sabotar no caminho. É saber o que cortar. É saber o que manter. É saber o que suportar. É saber o que não negociar. E, principalmente, é saber a hora de parar antes de quebrar.
Por isso eu gosto tanto dessa metáfora do gramado. Porque o gramado não se faz em um dia. Não se faz com raiva. Não se faz com ansiedade. Gramado se faz com manutenção, rotina, pequenas ações repetidas e paciência. E, comandante, paciência é uma virtude raríssima hoje em dia. A gente vive numa geração que quer tudo rápido: aprovação rápida, resultado rápido, transformação rápida, dinheiro rápido. Só que a aprovação não respeita pressa. Ela respeita consistência. E consistência é o oposto do imediatismo.
A primeira coisa que você precisa fazer para cultivar a sua própria grama é parar de romantizar a vida do outro e olhar para o que você tem hoje. Porque a sua realidade é o seu terreno. E terreno não se escolhe, terreno se trabalha. Tem gente que tem terreno plano. Tem gente que tem terreno inclinado. Tem gente que tem terreno cheio de pedra. Tem gente que tem terreno com pouco sol. E, ainda assim, dá para plantar. O erro é você querer plantar no terreno do outro, com as ferramentas do outro, com a rotina do outro, com a vida do outro. Isso é receita pronta para frustração.
O segundo ponto é entender que o plantio diário precisa ser simples e repetível. Muita gente perde a jornada porque tenta montar um plano que não cabe na vida real. O sujeito faz um cronograma digno de NASA, coloca oito horas de estudo por dia, faz mil metas, mil listas, mil controles. Só que ele esquece que tem trabalho, tem família, tem cansaço, tem imprevisto, tem dia ruim, tem dia em que a cabeça não funciona. E aí, quando ele não cumpre o cronograma, ele se sente fracassado. E esse sentimento de fracasso vira desânimo. E o desânimo vira abandono. O que sustenta a aprovação não é o plano mais bonito. É o plano mais possível.
E aqui eu vou te dar uma imagem bem simples: você não precisa estudar como um desesperado por três semanas e depois desaparecer por dois meses. Você precisa estudar como alguém que vai vencer por insistência. É melhor fazer pouco todo dia do que fazer muito por impulso e depois sumir. Porque a aprovação não é uma corrida de 100 metros, ela é uma ultramaratona que só é possível concluir com ritmo. Não se faz com explosão.
O terceiro ponto é a rega e a poda. E essa parte é mais importante do que parece. Regar é manter constância. É manter revisão. É manter contato com o conteúdo. É manter o cérebro aquecido. Mas podar é ainda mais difícil, porque podar significa cortar distrações, cortar excessos, cortar vaidades, cortar compromissos desnecessários, cortar o que te tira do eixo. E cortar dói. Porque você vai ter que dizer “não” para coisas que você gosta. Vai ter que faltar a eventos. Vai ter que se ausentar de encontros. Vai ter que abrir mão de algumas comodidades. Vai ter que escolher. E escolha, comandantes, sempre tem renúncia.
Só que aqui mora um erro comum: tem gente que poda demais. E aí o gramado morre. Porque podar demais significa cortar a vida. Cortar alegria. Cortar descanso. Cortar afeto. Cortar espiritualidade. Cortar corpo. Cortar tudo. E aí você fica só com estudo. Só com prova. Só com pressão. Só com cobrança. E isso é insustentável. Ninguém mantém constância vivendo em modo de guerra o tempo inteiro. O corpo, a mente, a alma não aguentam. E, por conseguinte, a pessoa não passa. Ou passa quebrada.
É por isso que eu insisto tanto na tríade: corpo, alma e fé. Corpo porque o corpo é o motor. Você pode ter o melhor material do mundo, mas se você dorme mal, se você não se alimenta direito, se você não faz o mínimo de atividade física, sua mente vai travar. E quando a mente trava, você começa a estudar duas horas e render dez minutos. E aí você entra no ciclo do desespero: “estou estudando e não estou rendendo”. E isso destrói a autoestima do concurseiro e do oabeiro.
Alma porque a jornada da aprovação é emocionalmente pesada. Você vai lidar com medo, com reprovação, com sensação de atraso, com cobrança interna, com a expectativa de familiares, com comparações, bem como com a sensação de que o mundo está andando e você está parado. E, se você não cuidar da alma, você vai começar a se punir por coisas que não são pecado, como descansar, como sair, como viver um pouco. E isso é injusto com você.
E fé porque é o que te segura quando o resultado ainda não veio. A fé é o que te dá sentido quando você está cansado. A fé é o que te lembra que você não é só uma máquina de aprovação. Que você é gente, é filho, é esposo, é pai, é mãe, é amigo, é alguém com uma história maior do que uma prova e principalmente um filho de um Deus extremamente benevolente e gracioso. E quando você perde isso, você perde o eixo. E quem perde o eixo não sustenta o caminho.
Outro ponto fundamental para cultivar a própria grama é aprender a celebrar pequenas vitórias. Isso parece besteira, mas não é. O concurseiro e o oabeiro têm um defeito terrível: eles só se permitem comemorar no dia da aprovação. E isso é uma forma de crueldade consigo. Porque a aprovação não é um dia. A aprovação é uma sequência de dias. E se você não celebra pequenos avanços — uma semana bem feita, um simulado melhor, uma revisão concluída, uma disciplina destravada — você vai viver o caminho inteiro como se estivesse sempre perdendo. E isso mata a motivação.
E aqui eu preciso dizer uma coisa que é meio impopular: motivação é superestimada. Motivação é boa, mas ela é volátil. Ela é emocional. Ela depende de humor, depende de energia, depende de estímulo. E a aprovação não pode depender disso. A aprovação depende de método e de repetição. Depende de fazer o básico com seriedade: assistir aula com atenção, revisar o que foi dado, e praticar de forma absurda. E praticar, comandante, é o verdadeiro adubo. Porque é na prática, no treino que você descobre se sabe ou se acha que sabe. É na prática que você aprende a pensar como a banca. É no treino que você entende onde está errando. E é na resolução de questões que você começa a se tornar apto para o dia D.
Eu repito aqui algo que eu acredito profundamente: não se corre maratona apenas lendo sobre maratona. Não se atravessa nadando Salvador–Mar Grande apenas lendo sobre natação. E não se passa em prova apenas acumulando conteúdo. No dia da prova, não vai ter PDF. Não vai ter videoaula. Não vai ter professor. Vai ter uma questão e um gabarito. E você vai precisar acertar. Então, a sua rotina precisa ser construída para isso. O estudo precisa ser orientado para performance, não para vaidade intelectual.
E, finalmente, existe um último ponto, que é o mais maduro de todos: gratidão. A grama eterna é a gratidão. Porque a gratidão não é ingenuidade. Gratidão não é se conformar. Gratidão não é desistir de crescer. Gratidão é reconhecer o que você tem hoje enquanto constrói o que você quer amanhã. É não transformar o presente em um lixo só porque você ainda não chegou no futuro. É entender que, mesmo na travessia, existe vida. Existe amor. Existe família. Existe aprendizado. Existe história. Existe caminho. E, muitas vezes, o caminho te forma mais do que a linha de chegada.
A aprovação é importante, sim. Ela muda a vida. Ela abre portas. Ela dá estabilidade. Ela dá respeito. Ela dá oportunidades. Mas ela não é Deus. Ela não é tudo. E se você fizer dela tudo, você vai pagar um preço invisível alto demais. O segredo, comandantes, não é só conquistar a grama verde. O segredo é conquistar e ter saúde para desfrutar. O segredo é chegar inteiro. O segredo é vencer e continuar sendo você.
Então, se eu pudesse fechar essa trilogia com uma frase, seria essa: não inveje o gramado do outro. Cultive o seu. Porque, no fim, é isso que separa quem passa e permanece de quem passa e se perde: a capacidade de caminhar com constância, com lucidez e com gratidão.