A revolução silenciosa: como a inteligência artificial está redefinindo as agências de publicidade (e os limites do direito)

23/03/2026 às 12:03

Resumo:


  • A inteligência artificial está transformando as agências de publicidade, potencializando a criatividade com algoritmos orientados por dados.

  • Essa evolução tecnológica levanta questões jurídicas sobre autoria, propriedade intelectual, responsabilidade civil e proteção de dados na publicidade.

  • O futuro das agências aponta para uma integração profunda com a tecnologia, automação de processos e profissionais híbridos, mantendo a criatividade humana como estratégica e valiosa.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

A inteligência artificial vem remodelando profundamente o setor publicitário, alterando não apenas processos criativos, mas também estruturas de responsabilidade, autoria e proteção de dados. Este artigo analisa os impactos dessa transformação sob a ótica jurídica, destacando os principais desafios relacionados à propriedade intelectual, responsabilidade civil e à Lei Geral de Proteção de Dados, além de refletir sobre o futuro das agências de publicidade diante da automação crescente.

Palavras-chave: inteligência artificial; publicidade; direito digital; responsabilidade civil; LGPD; direitos autorais.

1. Introdução: quando a criatividade ganha um copiloto digital

Imagine uma agência onde campanhas inteiras nascem em minutos, slogans surgem como faíscas elétricas e imagens são criadas sem câmera, estúdio ou fotógrafo. Esse cenário já não pertence ao futuro — ele habita o presente.

A inteligência artificial transformou as agências de publicidade em verdadeiros centros de processamento criativo orientados por dados. O que antes dependia exclusivamente da intuição humana agora é potencializado por algoritmos capazes de prever comportamentos e otimizar decisões.

Mas essa evolução tecnológica traz uma pergunta inevitável: o Direito está preparado para regular uma criatividade que não é mais exclusivamente humana?

2. A nova arquitetura das agências: do brainstorm ao algoritmo

As agências deixaram de ser apenas espaços de criação para se tornarem estruturas híbridas, onde tecnologia e estratégia caminham juntas.

Entre as principais mudanças, destacam-se:

automação de campanhas publicitárias;

personalização em massa baseada em dados;

uso de IA generativa na criação de conteúdo;

redução de equipes operacionais.

O modelo tradicional, baseado em grandes equipes criativas, cede espaço a estruturas mais enxutas, orientadas por performance. A agência moderna se aproxima mais de uma empresa de tecnologia do que de um estúdio criativo clássico.

3. Criatividade artificial: quem é o autor da ideia?

A inteligência artificial desafia um dos pilares do Direito: a autoria.

Se uma campanha é criada por um algoritmo, surgem questões inevitáveis:

quem detém os direitos autorais?

há originalidade em conteúdos gerados por IA?

pode haver plágio sem intenção humana?

A legislação brasileira, especialmente a Lei nº 9.610/98, ainda parte do pressuposto de que toda obra é fruto da criação humana. Isso cria uma zona cinzenta perigosa — um verdadeiro “limbo jurídico criativo”.

Na prática, empresas têm buscado resolver essa lacuna por meio de contratos, atribuindo a titularidade ao usuário ou à agência. Ainda assim, o tema permanece aberto e em evolução.

4. Responsabilidade civil: quando o erro vem do algoritmo

Se a criatividade pode ser automatizada, o erro também pode.

A utilização de IA na publicidade amplia os riscos jurídicos, especialmente em situações como:

4.1 Publicidade enganosa algorítmica

Sistemas podem gerar campanhas altamente persuasivas que ultrapassam limites legais sem intervenção humana direta.

4.2 Deepfakes e uso indevido de imagem

A clonagem digital de rostos e vozes pode violar direitos da personalidade, gerando indenizações relevantes.

4.3 Cadeia de responsabilidade

Quem responde pelo dano?

a agência?

o anunciante?

o desenvolvedor da IA?

A tendência jurídica é aplicar a responsabilidade objetiva, especialmente nas relações de consumo, ampliando o dever de cautela das empresas.

5. LGPD e publicidade: dados como combustível (e risco)

A inteligência artificial depende de dados — muitos dados.

Nesse contexto, a Lei Geral de Proteção de Dados torna-se peça central.

Entre os principais pontos de tensão:

coleta massiva de dados comportamentais;

criação de perfis detalhados de consumidores;

decisões automatizadas sem transparência.

A publicidade personalizada, quando mal conduzida, pode violar princípios fundamentais como finalidade, necessidade e transparência.

Em outras palavras: quanto mais inteligente a campanha, maior deve ser a responsabilidade jurídica por trás dela.

6. Regulação: entre o freio e o acelerador

O Brasil ainda não possui uma legislação específica para inteligência artificial na publicidade. No entanto, diversas normas já atuam como “freios regulatórios”:

Código de Defesa do Consumidor;

Lei de Direitos Autorais;

LGPD;

normas do CONAR.

O desafio é delicado: regular sem sufocar a inovação.

O Direito, aqui, atua como um maestro tentando equilibrar dois instrumentos poderosos — tecnologia e proteção jurídica — sem deixar que um silencie o outro.

7. O futuro das agências: desaparecimento ou reinvenção?

As agências não estão desaparecendo — estão mutando.

O futuro aponta para:

profissionais híbridos (criativo + analítico);

foco em estratégia e menos execução;

integração profunda com tecnologia;

automação quase total de processos operacionais.

Nesse novo cenário, a criatividade humana não desaparece — ela se torna mais estratégica, mais rara e, paradoxalmente, mais valiosa.

8. Conclusão: a publicidade entre códigos e códigos jurídicos

A inteligência artificial não está apenas mudando a publicidade — está reescrevendo suas regras invisíveis.

O Direito, por sua vez, corre para acompanhar essa transformação, tentando traduzir algoritmos em normas, dados em direitos e inovação em responsabilidade.

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No fim, permanece um equilíbrio delicado:

permitir que máquinas criem… sem que os humanos percam o controle.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais).

BRASIL. Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados).

CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária.

KPMG. Impactos da IA sobre o mercado de publicidade.

IDEAL MARKETING. Como a inteligência artificial está remodelando as agências de publicidade.

OAB. Inteligência artificial na publicidade: limites jurídicos e desafios de regulação.

FAS ADVOGADOS. IA e propriedade intelectual na publicidade.

ABA – Associação Brasileira de Anunciantes. Guia sobre IA na publicidade.

FORBES TECH. O futuro das agências na era da IA.

PODER360. Impactos da IA no mercado publicitário.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Especialização em Direito de Família & Sucessões 2019 - 2019 Damásio Eduacional Graduação em Direito 2014 - 2018 Toledo Prudente Centro Universitário

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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