Educar para quê?

29/03/2026 às 11:26

Resumo:


  • Expansão da escolarização contrasta com fragilidades no processo formativo do estudante.

  • Avanços no acesso à escola convivem com aumento do atraso escolar.

  • Alfabetização na idade certa ainda é um desafio estrutural na educação brasileira.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

Expansão da escolarização contrasta com resultados qualitativos que expõem fragilidades no processo formativo do estudante.

Os dados mais recentes da educação brasileira revelam um quadro que exige atenção para além dos avanços já consolidados no acesso à escola. Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE indicam que o país praticamente universalizou a frequência escolar nas faixas etárias obrigatórias; no entanto, esse progresso convive com o aumento do atraso escolar, evidenciando que muitos estudantes não conseguem avançar de forma adequada ao longo da trajetória educacional.1

Um dos pontos mais críticos desse cenário está na alfabetização na idade adequada. Dados recentes divulgados pelo Ministério da Educação indicam que o Brasil alcançou, em 2025, 66% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental, superando a meta estabelecida para o período2. Trata-se de um avanço relevante, especialmente após os impactos da pandemia sobre a aprendizagem. Não obstante, o próprio indicador revela a persistência de um problema estrutural: cerca de um terço dos estudantes ainda não atinge o nível esperado de leitura e escrita nessa etapa fundamental.

Essa lacuna inicial tende a se ampliar ao longo da trajetória escolar, uma vez que o estudante que não consolida habilidades básicas de leitura e escrita nos primeiros anos encontra dificuldades crescentes para acompanhar os conteúdos das demais disciplinas, o que compromete seu desempenho global e aumenta as chances de reprovação, atraso escolar e eventual abandono.

Embora o Brasil apresente elevados índices de matrícula e disponha de um currículo nacional estruturado - BNCC, a efetivação, na prática, dessas diretrizes ainda é limitada.

O fato é que a progressiva defasagem idade-ano escolar não é, portanto, um fenômeno isolado, mas o resultado de um processo acumulativo de dificuldades de aprendizagem. À medida que o aluno avança sem domínio das competências essenciais, a escola deixa de fazer sentido concreto em sua experiência. Nesse contexto, a evasão escolar surge não apenas como consequência de fatores externos, mas também como expressão de um distanciamento entre o estudante e o próprio processo educativo.

Esse afastamento revela um problema mais profundo: a dificuldade de atribuição de sentido à experiência escolar. Quando a aprendizagem não se realiza de forma consistente e progressiva, o estudante tende a perceber a escola como um espaço desconectado de sua realidade e de suas perspectivas de futuro. A ausência de um percurso formativo sólido compromete não apenas o desempenho acadêmico, mas também a construção de um projeto de vida minimamente estruturado.

Nesse sentido, a discussão sobre qualidade da educação não pode se limitar a indicadores de acesso ou permanência, tampouco à análise isolada da idade escolar. É necessário compreender que tais elementos são manifestações de um problema mais amplo, relacionado à própria concepção de formação. Mesmo antes dos impactos da pandemia, os indicadores educacionais já apontavam fragilidades significativas na aprendizagem, o que evidencia que a crise não é circunstancial, mas estrutural3.

Ao longo da história, nunca se concebeu a educação como mera preparação para o mercado de trabalho. A formação humana sempre foi entendida em sentido mais amplo, abrangendo não apenas o desenvolvimento cognitivo e intelectual, mas também dimensões pessoais mais profundas, como a capacidade de discernimento, a construção de valores e a abertura ao sentido da própria existência. Ao reduzirmos a educação a finalidades imediatas, perdemos justamente aquilo que sustenta a continuidade da aprendizagem e o engajamento do estudante.

Por isso, a superação dos desafios atuais exige mais do que intervenções pontuais. É necessário recuperar uma concepção de formação que seja, de fato, integral, capaz de articular o desenvolvimento intelectual com dimensões mais amplas da experiência humana, inclusive aquelas relacionadas ao sentido, à interioridade e à orientação da vida. Somente a partir dessa base será possível não apenas melhorar os indicadores educacionais, mas restituir à escola sua função formativa mais profunda.

Para compreender a raiz da crise educacional, é necessário recuperar o sentido original da educação. Como amplamente reconhecido, na tradição clássica, especialmente na Grécia antiga, a paideia visava à formação integral do homem, não se limitando à transmissão de conhecimentos técnicos. Em Atenas, educar significava formar o cidadão em sua totalidade, e, para Aristóteles, a finalidade da educação era a formação do caráter e a orientação para a vida virtuosa.

Essa concepção foi incorporada pela tradição cristã, que, durante a Idade Média, compreendeu a educação como um processo de aperfeiçoamento integral, unindo razão e transcendência.

Com a modernidade, esse horizonte foi gradualmente substituído por uma visão mais utilitária. A educação passou a ser orientada por demandas práticas, sobretudo a partir da consolidação dos sistemas escolares nos séculos XIX e XX, quando se intensificou sua vinculação às necessidades do Estado e do mercado.

É nesse contexto que se insere o cenário atual. Embora a formação para o mercado corresponda a uma demanda legítima, ela revela uma compreensão reduzida da educação. Ao privilegiar finalidades imediatas, corre-se o risco de esvaziar seu conteúdo formativo mais profundo.

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Os dados contemporâneos refletem esse descompasso: ampliou-se o acesso à escola, mas muitos estudantes não desenvolvem habilidades fundamentais. Mais do que uma falha técnica, trata-se da perda do sentido da formação. Busca-se preparar para o mercado, mas sem a base intelectual e formativa necessária, o que gera um hiato entre escolarização e desenvolvimento real.

Superar esse quadro exige recuperar o sentido mais amplo da educação: formar o homem em sua integralidade. Isso não implica ignorar o trabalho, mas compreendê-lo como consequência de uma formação sólida. Sem isso, persistirá uma lacuna entre o que a escola oferece e o que a vida exige — uma lacuna que é, antes de tudo, humana.


  1. Indicadores educacionais avançam em 2024, mas atraso escolar aumenta. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43699-indicadores-educacionais-avancam-em-2024-mas-atraso-escolar-aumenta. Acessado em 29/03/2026.

  2. Brasil supera meta de alfabetização na idade certa. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2026/marco/brasilsuperameta-de-alfabetizacao-na-idade-certa. Acessado em: 29/03/2026.

  3. Divulgados os resultados do PISA 2022. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/acoes-internacionais/divulgados-os-resultados-do-pisa-2022. Acessado em: 20/03/2026.

    Relatório de resultados do SAEB 2023 – Dados de Proficiência. Disponível em: https://download.inep.gov.br/saeb/volume_1_dados_de_proficiencia.pdf. Acessado em 29/03/2026.

Sobre a autora
Fernanda Assaf

Advogada especialista em Direito Contratual pela PUC-SP. Pedagoga

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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