O Caso Preta Gil e a Nova Fronteira dos Direitos de Imagem

29/03/2026 às 16:42
Leia nesta página:

Introdução: A Imagem como Extensão da Alma e Ativo Financeiro

​No cenário contemporâneo, a imagem deixou de ser apenas um reflexo biométrico para se tornar o epicentro de uma complexa rede de direitos fundamentais e interesses econômicos. Quando falamos de Preta Gil, não estamos apenas diante de uma das maiores artistas do país, mas de um "corpo político" e uma marca bilionária que desafia as fronteiras entre o público e o privado.

​O embate jurídico em torno de sua imagem transpassa a mera autorização para publicidade; ele mergulha nas águas profundas do Direito da Personalidade, da Dignidade da Pessoa Humana e da exploração comercial desenfreada em tempos de algoritmos vorazes.

​1. A Natureza Jurídica da Imagem: Disponibilidade e Irrenunciabilidade

​O Código Civil Brasileiro, em seu Artigo 20, estabelece que a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade. No caso de figuras públicas como Preta Gil, surge o paradoxo: até onde vai o direito de informar e onde começa a violação do patrimônio imaterial?

​A doutrina clássica sempre defendeu a imagem como um direito indisponível. Contudo, a modernidade exige uma releitura. A imagem de Preta Gil é, simultaneamente:

  • Um Direito Fundamental: Protegido pelo Art. 5º, X da Constituição Federal.

  • Um Ativo Econômico: Sujeito a contratos de licenciamento que movimentam cifras astronômicas.

​2. O Caso Real: A Luta contra a Gordofobia e o Uso Indevido em Campanhas de Emagrecimento

​Um dos exemplos mais "bombásticos" e práticos da violação dos direitos de Preta Gil ocorre no submundo do marketing digital. A artista frequentemente é vítima de empresas que utilizam sua foto, sem autorização, para vender produtos de emagrecimento "milagrosos" ou procedimentos estéticos.

​Aqui, o dano é triplo:

  1. Dano Patrimonial: Pelo uso não remunerado de uma imagem com alto valor de mercado.

  2. Dano Moral (Direito à Identidade): Ao vincular a imagem de uma mulher que prega a aceitação do corpo a produtos que reforçam estigmas que ela combate publicamente.

  3. Dano Social: O engodo ao consumidor, que é levado a erro pela falsa chancela da celebridade.

​O Superior Tribunal de Justiça (STJ), através da Súmula 403, é implacável: "Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada de imagem de pessoa com fins econômicos ou comerciais". Ou seja, o dano é in re ipsa — o simples fato de usar a foto para vender já gera o dever de indenizar.

​3. Intimidade vs. Interesse Público: O Direito ao Esquecimento e à Narrativa Própria

​Recentemente, Preta Gil compartilhou sua jornada de luta contra o câncer. Juridicamente, isso levanta uma questão crucial: a exposição voluntária de uma vulnerabilidade retira a proteção sobre outros aspectos da intimidade?

A resposta é um retumbante não. O fato de a artista tornar pública sua condição de saúde não dá salvo-conduto para que tabloides ou usuários de redes sociais utilizem suas fotos hospitalares de forma sensacionalista ou desrespeitosa. A proteção do Artigo 11 do Código Civil garante que os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária permanente.

​4. A Responsabilidade Civil na Era dos Deepfakes e Algoritmos

​O futuro (que já é presente) traz desafios ainda mais sombrios. A inteligência artificial pode hoje recriar a voz e o rosto de Preta Gil para anúncios fraudulentos. A responsabilidade civil, nestes casos, deve ser lida sob a ótica da Teoria do Risco-Proveito. Plataformas que lucram com o tráfego gerado por imagens violadas devem ser solidariamente responsáveis pela curadoria do conteúdo, sob pena de conivência com o ilícito.

​"A imagem é o espelho da alma no mercado de consumo; quebrá-lo não é apenas um insulto, é um prejuízo à própria essência da liberdade individual."


​Conclusão: O Direito como Escudo da Autenticidade

​O caso Preta Gil serve como um "leading case" simbólico para o Direito Civil brasileiro. Ele demonstra que, na era da hiper-exposição, o Direito de Imagem é a última trincheira da dignidade. Proteger a imagem de Preta Gil não é apenas proteger uma celebridade; é garantir que nenhum cidadão tenha sua identidade sequestrada pela lógica do lucro desmedido.

​Bibliografia Consultada

  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

  • BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil).

  • BITTAR, Carlos Alberto. Os Direitos da Personalidade. Rio de Janeiro: Forense University.

  • FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil: Parte Geral e LINDB. Salvador: JusPodivm.

  • SARMENTO, Daniel. Dignidade da Pessoa Humana: Conteúdo Jurídico e Fenomenologia. Belo Horizonte: Fórum.

  • STJ. Súmula 403. Brasília: Superior Tribunal de Justiça.

  • TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil: volume único. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

O jurista, escritor e consultor brasileiro Northon Salomão de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela articulação entre Direito, filosofia, literatura, publicidade e marketing, além de economia, ciência, cultura e artes. Ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, desenvolveu uma carreira de perfil institucional, enquanto o Direito se consolidou, em paralelo, como campo de produção intelectual e atuação técnica. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, de onde presta consultorias a instituições como Track&Field, Arezzo e Cultura Inglesa. Paralelamente, mantém produção contínua de artigos em plataformas e veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua obra reúne 21 livros, organizados em quatro eixos. No campo técnico e de governança, destacam-se “A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC”, “Direito para Gestores”, “Marketing para Gestores” e “Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea”, voltados à estabilidade institucional, gestão de riscos, comunicação estratégica e tomada de decisão. Em uma segunda vertente, voltada às tensões contemporâneas, títulos como “Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático”, “Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial” e “Espaços: Os Novos Limites do Direito” analisam o impacto das transformações ambientais, tecnológicas e informacionais sobre o Direito e sobre a própria noção de autonomia. O núcleo ensaístico concentra a maior parte da produção, reunindo obras como “Lampejos”, “Vestígios”, “Fragmentos”, “Traços”, “Transições”, “Movimentos”, “Passagens”, “Ontologias”, “Núcleos”, “Mutações”, “Essências” e “Brasilis”. Nessas obras, o Direito atua como eixo estruturante e linguagem de fundo, combinando-se com temas como ontologia, cultura, bioética, literatura, cinema, metafísica, ciência, publicidade, linguagem e filosofia clássica e existencial, além de questões contemporâneas como inteligência artificial, ansiedade, futuro, segurança pública, corrupção e condição humana. Essa linha reflexiva se aprofunda em “Existências: Entre Sonhos e Abismos”. A produção se completa com “Pets: Justiça para os sem donos”, obra em que amplia o debate jurídico ao incluir a proteção de animais em situação de vulnerabilidade. Apesar da extensa produção e de um público leitor consolidado, Northon mantém postura discreta. “A obra deve ser maior que o autor”, afirma. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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