Noemi Jaffe e o Direito que Não Vê

01/04/2026 às 19:43
Leia nesta página:

1. Uma história que começa onde o Direito costuma terminar

Há histórias que o Direito arquiva — e há histórias que o Direito deveria jamais esquecer.

No livro O Que os Cegos Estão Sonhando?, de Noemi Jaffe, somos conduzidos por uma memória fragmentada, herdada, reconstruída. Não é apenas o relato de uma sobrevivente do Holocausto, mas uma arqueologia emocional: camadas de dor, silêncio e tentativa de compreensão.

E aqui começa o incômodo jurídico.

O Direito adora fatos objetivos. Datas. Provas. Testemunhos coerentes.

Mas o que fazer quando a verdade chega em estilhaços?

2. O Direito e sua obsessão pela clareza: uma cegueira institucional?

O sistema jurídico moderno foi construído sobre um ideal iluminista: a razão como farol. A prova como lente. A verdade como destino.

Mas Jaffe nos entrega outra coisa:

uma verdade que não se apresenta — ela sussurra, falha, hesita.

E então surge a pergunta que ecoa como um martelo em sala de audiência:

o Direito está preparado para lidar com memórias imperfeitas?

No processo penal, por exemplo, o testemunho é frequentemente elevado à categoria de prova-chave. No entanto, a psicologia do testemunho já demonstrou que a memória não é um arquivo fiel — é uma narrativa em constante reconstrução.

Casos reais, como condenações injustas posteriormente revistas por DNA, mostram que testemunhos convictos podem estar profundamente equivocados. A convicção não é sinônimo de verdade.

O Direito, nesse ponto, muitas vezes se comporta como um juiz que exige nitidez de um espelho quebrado.

3. A dor como prova: o que não está nos autos, mas deveria estar?

No livro, há uma tensão permanente entre o vivido e o narrado. Entre o trauma e a linguagem. Entre o que aconteceu e o que pode ser dito.

O Direito tradicional tende a ignorar essa zona cinzenta.

Mas pensemos:

Como provar o trauma?

Como mensurar o silêncio?

Como indenizar aquilo que sequer consegue ser plenamente narrado?

No Brasil, a jurisprudência já avançou em reconhecer o dano moral in re ipsa em determinadas situações. Porém, ainda há uma resistência estrutural em compreender que nem toda dor é traduzível em palavras organizadas e lineares.

O testemunho fragmentado não é necessariamente frágil — pode ser, na verdade, o único formato possível da verdade.

4. A responsabilidade de lembrar: o Direito como guardião da memória coletiva

Há um ponto crucial na obra de Jaffe: a memória não é apenas individual — ela é um dever.

E isso dialoga diretamente com o Direito.

Após atrocidades históricas, como o Holocausto, surgiram instrumentos jurídicos internacionais que não apenas punem, mas também preservam a memória:

Crimes contra a humanidade são imprescritíveis em muitos sistemas.

Tribunais internacionais funcionam como arquivos vivos da barbárie.

Leis de memória (como na Alemanha) criminalizam a negação histórica.

Aqui, o Direito deixa de ser apenas um julgador e se torna um curador da memória humana.

Mas há um perigo silencioso:

quando o Direito esquece, ele não apenas falha — ele permite que o horror se repita.

5. Uma provocação necessária: e se o Direito também estivesse sonhando?

O título da obra carrega uma metáfora perturbadora: cegos que sonham.

Sonhar sem ver. Imaginar sem referência visual. Construir imagens a partir do invisível.

E se o Direito for, em certa medida, esse cego?

Julgando sem compreender totalmente

Decidindo com base em narrativas incompletas

Buscando objetividade em um mundo essencialmente subjetivo

Talvez o maior risco não seja a falta de provas, mas a ilusão de que elas bastam.

6. Um caso prático: quando a memória falha — e o sistema também

Nos Estados Unidos, o projeto Innocence Project revelou dezenas de casos de condenações injustas baseadas em testemunhos equivocados.

No Brasil, embora menos sistematizado, há exemplos de revisões criminais que demonstram o mesmo fenômeno.

Em muitos desses casos:

Testemunhas estavam absolutamente seguras

O Judiciário confiou na narrativa

A verdade biológica, anos depois, desmentiu tudo

O problema não é apenas humano — é estrutural.

O Direito ainda opera como se a memória fosse um registro, quando na verdade ela é uma ficção necessária.

7. Conclusão: o Direito precisa aprender a escutar o silêncio

A obra de Noemi Jaffe não oferece respostas fáceis — e isso é justamente o que a torna indispensável ao pensamento jurídico.

Ela nos ensina que:

Nem toda verdade é linear

Nem toda prova é visível

Nem toda justiça nasce da certeza

Talvez o futuro do Direito não esteja em exigir mais clareza, mas em aprender a conviver com a ambiguidade.

Porque, no fim das contas, o maior risco não é julgar mal.

É acreditar que se está vendo tudo, quando na verdade se está apenas sonhando.

Bibliografia

JAFFE, Noemi. O Que os Cegos Estão Sonhando?. São Paulo: Editora 34.

ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais.

FERRAJOLI, Luigi. Direito e Razão: teoria do garantismo penal.

BADDELEY, Alan. Memória Humana: teoria e prática.

LOFTUS, Elizabeth. Eyewitness Testimony.

BRASIL. Código de Processo Penal.

BRASIL. Constituição da República Federativa de 1988.

Tribunal Penal Internacional. Estatuto de Roma.

GARAPON, Antoine. Bem Julgar: ensaio sobre o ritual judiciário.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Especialização em Direito de Família & Sucessões 2019 - 2019 Damásio Eduacional Graduação em Direito 2014 - 2018 Toledo Prudente Centro Universitário

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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