Entre Heranças e Conflitos: Lições Jurídicas e Humanas de Dois Irmãos, de Milton Hatoum

02/04/2026 às 08:52
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Quando lemos Dois Irmãos, de Milton Hatoum, somos puxados para o turbilhão silencioso de uma família marcada por rancores, ciúmes e rivalidades que se arrastam por gerações. Mas além de ser um romance sobre irmãos, Hatoum nos dá uma aula disfarçada de Direito: disputas patrimoniais, conflitos de identidade e relações familiares que parecem pedir intervenção judicial. É como se a obra sussurrasse: “o Direito está nos detalhes que você acha que são apenas afetivos”.

Herança, Direito e Tragédia Familiar

No cerne do romance, a disputa entre Yaqub e Omar não é apenas sobre amor, ódio ou ressentimento; é sobre territórios simbólicos e concretos — casas, negócios, objetos de valor e, principalmente, reconhecimento. No Direito civil brasileiro, conflitos assim frequentemente terminam em litígios sobre inventário, meação e legítima.

Inventário e partilha: O conflito entre irmãos ao dividir a herança de pais é um clássico no Judiciário. No Brasil, o Código Civil (arts. 1.784 a 2.027) estabelece regras claras sobre herança, mas nada que impeça o rancor de se estender ao tribunal.

Legítima e colação: Hatoum descreve o ressentimento silencioso de irmãos quando percebem que a justiça formal nem sempre coincide com a justiça emocional. Na prática, o Direito exige colação e respeita a legítima, mas a percepção de injustiça persiste, muitas vezes inflamando disputas judiciais.

Exemplo prático: No Tribunal de Justiça de São Paulo, um caso de 2021 envolveu dois irmãos disputando uma herança de imóveis deixados pelos pais. A questão central não era apenas o valor patrimonial, mas a posse simbólica — quem “merecia” mais atenção e reconhecimento familiar. Uma disputa que poderia muito bem ter saído de Dois Irmãos.

Identidade e Representação Legal

Além da herança, Hatoum nos leva a refletir sobre identidade e representação. A forma como cada irmão se posiciona — com orgulho, ressentimento ou silêncio — tem equivalência no Direito. Advogados e magistrados sabem que, em disputas familiares, quem age primeiro, quem documenta e quem reivindica frequentemente tem vantagem, mesmo que a lei seja clara.

Capacidade civil e representação: O conflito entre irmãos e pais também remete à discussão sobre interdição, tutela e representação legal de incapazes, quando o patrimônio precisa ser protegido sem exacerbar tensões familiares.

Filosofia, Direito e a Tragédia da Própria História

O que Dois Irmãos nos ensina é que o Direito não é apenas código e norma: é psicologia traduzida em regra. Hatoum mostra que, muitas vezes, o juiz não decide apenas sobre bens, mas sobre mágoas acumuladas, narrativas familiares e injustiças percebidas. Aqui, a filosofia se encontra com a lei: como resolver uma disputa em que a injustiça não é legal, mas existencial?

Exemplo prático de reflexão jurídica: No Superior Tribunal de Justiça, já se discutiu em diversos precedentes que conflitos familiares podem ser mitigados por mediação e conciliação — dispositivos que respeitam a lei, mas também a complexidade humana.

Conclusão: Entre a Literatura e o Tribunal

Ao fechar Dois Irmãos, percebemos que o Direito é, muitas vezes, a extensão formal de histórias como a de Hatoum. Cada inventário não resolvido, cada briga silenciosa por reconhecimento, cada disputa de legado emocional é, de alguma forma, um drama judicial esperando para acontecer. Ler Hatoum com olhar jurídico é perceber que a lei não existe apenas nos livros, mas na vida das pessoas, nas casas que habitamos e nos laços que quebramos ou preservamos.

Se o Direito fosse uma narrativa, ele seria uma história de irmãos, heranças e ressentimentos, como a de Hatoum. Mas, ao mesmo tempo, oferece ferramentas para transformar o conflito em resolução, a tragédia em aprendizado, e o ressentimento em mediação — porque até no tribunal, a humanidade insiste em marcar presença.

Bibliografia

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

BRASIL. Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002.

STJ. Jurisprudência consolidada sobre inventário, partilha e mediação familiar. Disponível em: https://www.stj.jus.br/⁠�.

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Civil: Direito de Família e Sucessões. São Paulo: Malheiros, 2019.

GOMES, Orlando. Contratos, Família e Sucessões: Aspectos Contemporâneos. Rio de Janeiro: Forense, 2018.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Especialização em Direito de Família & Sucessões 2019 - 2019 Damásio Eduacional Graduação em Direito 2014 - 2018 Toledo Prudente Centro Universitário

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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