Luiz ruffato e a cidade invisível: “eles eram muitos cavalos” sob a lente do direito e da desigualdade urbana

02/04/2026 às 10:52
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Quando Luiz Ruffato publicou Eles Eram Muitos Cavalos (2001), ele não apenas entregou um romance fragmentário, mas um mosaico urbano pulsante, carregado de vozes marginalizadas e histórias invisíveis. Cada personagem, cada fragmento textual, é um grito contra a indiferença social, uma denúncia silenciosa que reverbera nas calçadas da metrópole e, paradoxalmente, também nos tribunais.

O livro é uma experiência literária que fragmenta a narrativa para refletir a fragmentação da vida urbana — vidas que se cruzam, se esbarram e, muitas vezes, desaparecem na pressa de uma cidade que não olha para seus habitantes mais vulneráveis. Mas, se olharmos sob a lente do Direito, vemos que Ruffato nos fornece um mapa crítico da desigualdade urbana e da invisibilidade social que o sistema jurídico muitas vezes ignora ou apenas cosmetiza.

A Desigualdade Urbana como Questão Jurídica

O Direito, em sua forma mais pura, deveria atuar como um instrumento de equidade. Porém, na prática, ele frequentemente se depara com cidades onde os direitos básicos — moradia, saneamento, transporte — são privilégio de poucos. Ruffato mostra isso com precisão quase fotográfica: a multidão anônima, os excluídos do sistema formal, os trabalhadores informais que vivem à margem das garantias legais.

No contexto jurídico, obras como Eles Eram Muitos Cavalos funcionam como uma lente crítica. Elas nos forçam a questionar: o que significa garantir o direito à cidade se milhões de pessoas permanecem invisíveis? Como o Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001) se aplica a quem é sistematicamente ignorado na produção urbana e no planejamento social? Ruffato nos obriga a refletir sobre a eficácia das normas quando a aplicação concreta depende de uma máquina estatal lenta e burocrática, muitas vezes desatenta à realidade dos mais pobres.

Fragmentação e Processos: Conexão com o Direito

A fragmentação narrativa de Ruffato se assemelha à fragmentação do acesso à justiça. Cada capítulo — curto, intenso, muitas vezes abrupto — remete aos pequenos processos que se acumulam nos tribunais, casos isolados que representam uma vida inteira de invisibilidade. É como se cada personagem fosse um processo judicial: um microcosmo de violações que, coletivamente, denunciam um sistema desigual.

Imagine o exemplo real de comunidades urbanas onde famílias vivem em áreas de risco sem título de propriedade. Cada ação judicial para regularizar imóveis é lenta, complexa e, muitas vezes, ineficiente. Assim como os personagens de Ruffato, essas famílias enfrentam barreiras invisíveis, que as tornam quase “fantasmas” diante da lei. Aqui, o Direito é chamado a ser mais que norma: é chamado a ser instrumento de visibilidade e justiça social.

Filosofia e Existência na Cidade Contemporânea

Ruffato não se limita a relatar desigualdade: ele provoca o leitor a refletir sobre a condição humana na metrópole. O Direito, por sua vez, também deve confrontar essa reflexão: até que ponto a norma é capaz de capturar a complexidade da vida urbana? A invisibilidade social não é apenas uma falha administrativa; é um dilema existencial. Quem é visto pelo Estado? Quem tem voz no tribunal? Quem não tem endereço fixo, muitas vezes, não tem cidadania plena.

A obra de Ruffato, ao fundir o detalhe erudito com o olhar cru da realidade urbana, nos obriga a pensar: o Direito não deve apenas punir ou regulamentar, mas também dar visibilidade, reconhecer o humano por trás de cada estatística, de cada processo, de cada ocupação irregular. Ruffato ensina que, na cidade, cada “cavalo” invisível carrega uma história de direito à dignidade que precisa ser ouvida.

Conclusão: Um Convite à Reflexão Jurídica

Eles Eram Muitos Cavalos não é apenas um romance; é um espelho das contradições urbanas que o Direito enfrenta diariamente. Ao unir literatura e justiça social, Ruffato nos oferece uma provocação: é possível criar um sistema jurídico que enxergue todos os cavalos da cidade, que reconheça e proteja os invisíveis, que dê voz à multidão fragmentada? Ou continuaremos tratando a invisibilidade como ruído, enquanto o Direito formal celebra sua própria ordem abstrata?

No fim, o leitor-jurista é convidado a refletir sobre o papel da norma, da jurisprudência e da política urbana na construção de cidades mais justas. Ruffato e o Direito caminham lado a lado: um denuncia, o outro precisa agir. E é nesse diálogo, muitas vezes tenso e desconfortável, que reside a verdadeira potência da literatura aplicada ao Direito.

Bibliografia

RUFFATO, Luiz. Eles Eram Muitos Cavalos. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da Cidade. Brasília, DF: Presidência da República, 2001.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cidade e a Lei: Direito, Desigualdade e Urbanização. Porto: Afrontamento, 2010.

HARVEY, David. Justiça Social e a Cidade. São Paulo: Editora Loyola, 2010.

LEFEBVRE, Henri. O Direito à Cidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista da comunicação e escritor brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros acadêmicos e de ficção. Sua produção transita por Direito, ciência, tecnologia, filosofia, psicologia, literatura, economia, administração, marketing, antropologia e cultura, com especial interesse pelas transformações contemporâneas e pelos temas de fronteira que emergem da interação entre esses campos. No âmbito acadêmico, investiga problemas situados na interseção entre o Direito e outras áreas do conhecimento, em busca de compreender fenômenos que desafiam as fronteiras tradicionais das disciplinas. Na literatura, desenvolve romances, suspenses e ficção jurídico-filosófica para diferentes faixas etárias, incluindo projetos educacionais desenvolvidos em parceria com prestigiadas editoras internacionais, como a Luso-brasileira Kotter e a britânica Camden House. Uma marca central de sua obra literária é retirar o Direito do papel meramente decorativo e transformá-lo em estrutura narrativa — com intensidade proporcional à maturidade do leitor: Para o público adulto, a lei assume a forma de atmosfera e fricção: tensiona a fronteira entre o moralmente correto e o juridicamente admissível, entre a verdade dos fatos e a verdade processual. Responsabilidade, prova, autoridade, poder e os pontos cegos das instituições tornam-se matéria-prima de conflitos e dilemas humanos. Para o público infantojuvenil, o Direito ganha forma de aventura e lógica material. Escrituras, testamentos e registros tornam-se peças de um quebra-cabeça investigativo — descobertas pela ação, pela curiosidade e pela resolução de problemas, nunca pela exposição técnica. Nessa concepção, o volume de Direito numa obra não se mede pela quantidade de artigos ou normas citados, mas pelo peso que uma regra exerce sobre as decisões dos personagens: a criança encontra a lógica da justiça na aventura; o adolescente descobre o peso das obrigações e das consequências; o adulto confronta os dilemas institucionais da vida real. Entre suas principais coletâneas estão The Odyssey (edição em inglês) e A Odisseia (edição brasileira), reunindo 60 obras selecionadas por seus leitores. Soma-se a esse percurso O Prédio que Aprendeu a Escutar, novo lançamento pela Kotter Editorial, que amplia sua investigação literária sobre os espaços, as relações humanas e as dimensões menos evidentes da experiência cotidiana. Sua produção estabelece, assim, uma ponte entre investigação intelectual e imaginação literária, fazendo do Direito um tribunal sem teto, aberto aos ventos da filosofia, aos relâmpagos da ciência, às tempestades da tecnologia, às profundezas da psicologia, às engrenagens da economia, aos espelhos da literatura e aos movimentos invisíveis que transformam a sociedade antes mesmo que a lei consiga nomeá-los. Desenvolve também projetos e propostas de obras voltados à renovação do pensamento jurídico, político e social no Brasil, estruturando uma ampla coleção analítica sobre os dilemas contemporâneos e futuros do país. Esses trabalhos articulam dogmática jurídica, sociologia, economia, filosofia e ciência de dados para diagnosticar problemas estruturais, interpretar as transformações institucionais e propor reformas profundas capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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