Carlos Drummond de Andrade e “A Rosa do Povo”: o Direito entre a Poesia e a Existência

03/04/2026 às 12:56
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Em meio ao caos de uma sociedade em transição, onde as leis tentam conter a liberdade humana e o Estado se ergue como vigilante silencioso, surge Carlos Drummond de Andrade, poeta de olhar agudo e coração inquieto, com sua obra A Rosa do Povo. Publicado em 1945, o livro não é apenas um monumento literário; é uma lente filosófica que nos permite enxergar o Direito como algo vivo, pulsante, e, sobretudo, humano.

Drummond nos convida a perceber o mundo pela fratura do cotidiano. Ele escreve em versos que cortam a indiferença: a guerra, a fome, o desamparo, mas também a esperança e a resistência. E é exatamente aí que o Direito encontra seu espelho. A lei, por mais técnica e formal que seja, não vive isolada da experiência humana. É moldada pelo sofrimento, pela injustiça, pelo erro, mas também pela coragem de quem luta para reconstruir uma sociedade mais justa.

A Rosa do Povo e o Direito: Entre a Crise e a Esperança

Tomemos um exemplo real: os tribunais brasileiros lidam diariamente com a tensão entre norma e realidade. O caso dos refugiados venezuelanos em Roraima é emblemático. A lei prevê direitos claros: acesso à saúde, educação e documentação. Na prática, a burocracia e o preconceito violam esses direitos constantemente. Drummond, se estivesse lá, talvez escrevesse um poema curto, cortante, que denunciasse essa injustiça silenciosa: a rosa floresce no povo, mas o Estado insiste em podar suas pétalas.

A obra de Drummond nos lembra que a interpretação jurídica não deve ser um ato mecânico, mas um exercício de empatia. Cada sentença é uma chance de reconhecer a dor do outro e afirmar a dignidade humana — tema que ecoa na filosofia do Direito contemporâneo e nas lições de Hans Kelsen e Ronald Dworkin. O Direito não é neutro; é ético, político e existencial.

Entre a Poética e o Pragmático: Justiça como Experiência

Não é apenas poesia: é pragmatismo existencial. Em A Rosa do Povo, Drummond mistura imagens de cidades devastadas e pessoas comuns, lembrando o jurista de que a legislação só encontra sentido quando aplicada na vida concreta. Imagine um juiz, no coração de São Paulo, analisando um caso de despejo. Ele tem a lei do lado: o proprietário tem direito de reaver o imóvel. Mas a poesia da vida humana — o medo, a incerteza, a desproteção — exige que o Direito se transforme em instrumento de humanidade, sem perder sua rigidez formal. É um equilíbrio delicado, quase filosófico, entre letra e espírito da lei.

A História que Drummond Nos Conta: Lições para o Jurista Contemporâneo

Conta-se que, durante a Segunda Guerra, Drummond lia jornais e escrevia cartas aos amigos, denunciando a injustiça e o absurdo. Seu olhar crítico é um chamado para os juristas contemporâneos: o Direito não deve ser cego diante da história. Ele deve dialogar com a realidade, com a ética e com a experiência do povo — afinal, a lei existe para regular vidas, não apenas para decorar páginas oficiais.

Ao ler A Rosa do Povo, o advogado, o juiz, o promotor ou o estudante de Direito se depara com a inquietante pergunta: estamos aplicando a lei ou estamos interpretando vidas? Cada caso é um verso, cada sentença é um poema de responsabilidade social. E a rosa, símbolo da obra de Drummond, floresce exatamente quando a justiça reconhece a humanidade que tenta subjugar.

Conclusão: O Direito como Poesia Ativa

Drummond nos ensina que a justiça não é apenas técnica: é existencial. Que o Direito não é neutro: é humano. Que cada lei, cada norma, cada decisão judicial carrega consigo a responsabilidade de construir ou destruir vidas. A Rosa do Povo é, portanto, mais do que poesia; é uma filosofia prática de Direito, um convite para que cada jurista veja além do código, além do tribunal, além da formalidade — enxergue a beleza e a dor do povo.

No fim, o leitor é deixado com a pergunta que atravessa os versos de Drummond: e se o Direito fosse, como a poesia, um ato de resistência e de esperança, capaz de florescer mesmo nas cidades desoladas? Talvez, nesse encontro entre lei e vida, o jurista encontre sua verdadeira vocação: ser, além de aplicador da norma, um cultivador da justiça.

Bibliografia

Drummond de Andrade, Carlos. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1945.

Dworkin, Ronald. Taking Rights Seriously. Cambridge: Harvard University Press, 1977.

Kelsen, Hans. Teoria Pura do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Hart, H.L.A. The Concept of Law. Oxford: Oxford University Press, 1961.

Bobbio, Norberto. Teoria da Norma Jurídica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista, escritor, compositor, pensador e consultor contemporâneo brasileiro cuja obra se situa na interseção delicada de três campos que raramente coexistem harmoniosamente: o Direito, com sua rigidez institucional; a filosofia existencial, com suas indagações inquietantes; e a literatura, como veículo de expressão estética e reflexão profunda. Northon Salomão de Oliveira é conhecido por explorar a interseção entre o Direito e as Artes de forma bastante profunda e original. Ele não trata o Direito apenas como um conjunto de normas ou regras abstratas, mas como uma linguagem cultural e simbólica que dialoga com a estética, a literatura, a música e outras formas artísticas. Em sua abordagem, o Direito é entendido como uma experiência estética e filosófica, capaz de ser analisado e interpretado como uma obra de arte. Ele acredita que a prática jurídica, quando refletida criticamente, pode revelar dimensões existenciais, narrativas e simbólicas similares às presentes nas artes, como: Literatura e poesia: para mostrar como a linguagem jurídica carrega ritmo, metáforas e significados profundos, indo além da mera aplicação de normas. Música: como a estrutura, harmonia e dissonância podem espelhar conceitos de justiça, ordem e conflito social. Artes visuais e cinema: para explorar a ideia de narrativa, representação e interpretação dentro do Direito, como se cada caso ou decisão fosse uma obra em si. Ele transforma o estudo jurídico em algo mais poético e reflexivo, mostrando que o Direito não é apenas “técnico”, mas também cultural, estético e humano. Isso cria um campo fértil para ensaios, artigos e projetos interdisciplinares, aproximando juristas, filósofos e artistas. Sua trajetória combina a solidez de mais de 20 anos como servidor da Caixa Econômica Federal, com uma prática jurídica consistente, incluindo consultoria em Direito do Consumidor para empresas como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. Autor prolífico de artigos em portais como Jus Navigandi, Jusbrasil, Administradores, Amo Direito, sites de Associações e Colégios Notariais e Recanto das Letras, e de e-books sobre segurança jurídica do FGC e Etnomarketing, Northon emprega a literatura não como adorno, mas como instrumento de pensamento, convertendo temas jurídicos em narrativas existenciais que desafiam a hipocrisia institucional e celebram a responsabilidade individual. Seu estilo intelectual, entre a ironia elegante de Neil Tennant e a introspecção de Montaigne, dialoga com a firmeza de João Pessoa e o realismo desapegado de Schopenhauer, delineando uma filosofia de fundo agnóstico: sem afirmações dogmáticas sobre o transcendente, mas sem rejeição simplista, mantendo uma abertura silenciosa para o mistério e uma desconfiança saudável das certezas absolutas. Essa perspectiva, que ressoa com o Existencialismo e o Estoicismo moderno, enxerga a solidão como liberdade e privilegia uma leitura prática da vida, livre de misticismo exagerado ou ingenuidade materialista. Sua trajetória mostra uma busca constante por equilíbrio entre a objetividade das normas e a subjetividade da experiência humana, traduzida tanto em ensaios filosóficos quanto em textos literários e composições musicais. A mesma densidade se reflete em sua atuação artística no projeto Nyra Motta e os Maníacos, cover da banda americana de rock alternativo 10,000 Maniacs, unindo influências de sintetizadores (Pet Shop Boys, Vangelis) e rock progressivo (Pink Floyd) à sua produção, liderado por Nyra Motta, onde Northon contribui como colaborador criativo, guitarrista, violonista e compositor, ajudando a moldar a identidade sonora do grupo com um som que privilegia melodia, introspecção e densidade emocional. Influenciado por referências como Vangelis, Pet Shop Boys, Tears for Fears e Pink Floyd, ele busca não apenas compreender o mundo, mas situar-se conscientemente nele, escrevendo como quem não quer holofotes, apenas acende uma lâmpada em um quarto vazio e espera que alguém perceba. Northon não apenas analisa o sistema; ele o habita com a consciência de um filósofo e a sensibilidade de um artista, transformando a rigidez da lei na fluidez da experiência vivida. - Por Nyra Motta.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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