A Hora da Estrela e o Direito de Existir: quando A Hora da Estrela encontra o silêncio jurídico de Clarice Lispector

05/04/2026 às 11:22
Leia nesta página:

Este artigo propõe uma leitura jurídico-existencial de A Hora da Estrela, explorando a invisibilidade social da personagem Macabéa como metáfora da exclusão jurídica estrutural. A partir de dados empíricos, teorias filosóficas e reflexões críticas, investiga-se como o Direito lida — ou falha em lidar — com sujeitos que sequer são percebidos como titulares plenos de dignidade.

1. Introdução: o direito de existir antes do direito de reclamar

Macabéa não grita.

Não reivindica.

Não processa.

Ela apenas existe — ou tenta.

E talvez aí resida o problema mais profundo para o Direito: como proteger quem não sabe que pode ser protegido?

A Hora da Estrela não é apenas um romance. É uma espécie de espelho opaco, onde o Brasil olha para si mesmo e, por um instante desconfortável, reconhece aqueles que vivem à margem da própria narrativa social.

Macabéa não é exceção. Ela é estatística sem nome.

2. Invisibilidade jurídica: quando o sujeito não entra nem no radar

O Direito moderno se construiu sobre a ideia de sujeito de direitos: alguém capaz de agir, reivindicar, contestar.

Mas e quando o sujeito sequer se percebe como sujeito?

Segundo o IBGE, milhões de brasileiros vivem em condições de extrema vulnerabilidade, com acesso precário a direitos básicos como saúde, educação e trabalho digno. Muitos sequer têm documentação regular ou acesso à informação jurídica mínima.

Macabéa é esse retrato.

Ela trabalha, consome, sofre — mas não participa.

Aqui, o Direito encontra seu limite mais desconcertante:

a exclusão que não se manifesta como conflito, mas como ausência.

3. Filosofia da ausência: o ser que não é visto

O drama de Macabéa ecoa em diversas tradições filosóficas.

Para Martin Heidegger, o ser humano é um “ser-no-mundo”, lançado numa existência que precisa ser compreendida. Mas Macabéa parece não compreender nem a si mesma — ela habita o mundo como uma sombra sem espessura.

Já Jean-Paul Sartre diria que estamos condenados à liberdade.

Mas e quando nem a liberdade é percebida?

Macabéa não escolhe. Ela flutua.

E nessa flutuação, o Direito perde seu objeto, porque o Direito depende de tensão, de conflito, de reivindicação.

Sem isso, ele silencia.

4. O narrador e o juiz: quem tem o poder de dizer quem existe?

Rodrigo S.M., o narrador, não apenas conta a história — ele decide como ela será vista.

Há aqui um paralelo inquietante com o sistema jurídico.

O juiz, assim como o narrador, seleciona fatos, interpreta versões, constrói realidades jurídicas. Mas, diferente da literatura, o Direito deveria buscar justiça — não apenas coerência narrativa.

E se o sistema jurídico, como Rodrigo S.M., também estiver falando por aqueles que não conseguem falar?

Isso levanta uma questão delicada:

até que ponto o Direito representa — e até que ponto ele substitui?

5. Dados e realidade: Macabéas contemporâneas

A ficção de Clarice encontra eco brutal na realidade:

Mais de 40% da força de trabalho brasileira atua na informalidade

Milhões vivem abaixo da linha da pobreza

O acesso à Justiça ainda é limitado para populações vulneráveis

Programas como a Defensoria Pública tentam preencher essa lacuna, mas enfrentam:

sobrecarga estrutural

falta de capilaridade

barreiras culturais e informacionais

Macabéa, se existisse juridicamente, talvez nunca chegasse a um tribunal.

6. Direito e dignidade: o mínimo existencial como ficção?

A Constituição brasileira consagra a dignidade da pessoa humana como fundamento da República.

Mas o que isso significa para alguém como Macabéa?

O conceito de “mínimo existencial” busca garantir condições básicas de vida. No entanto, na prática, ele frequentemente se dissolve em abstrações.

Dignidade não pode ser apenas um princípio bonito.

Precisa ser uma experiência concreta.

Caso contrário, transforma-se em algo quase literário — belo, mas distante.

7. Um olhar estoico: entre resignação e resistência

Sob a lente estoica de Epicteto e Marco Aurélio, poderíamos ver em Macabéa uma forma de aceitação radical da realidade.

Ela não luta contra o mundo.

Ela simplesmente o suporta.

Mas há um perigo nessa leitura: romantizar a passividade.

O estoicismo verdadeiro não é submissão — é consciência.

E Macabéa não parece consciente de sua própria condição.

O Direito, portanto, não pode ser estoico.

Ele precisa ser inquieto.

8. A hora da estrela como metáfora jurídica

O momento final da obra — a “hora da estrela” — é paradoxal.

Macabéa só se torna visível no instante da morte.

É como se sua existência precisasse de um choque para ser reconhecida.

Quantas Macabéas jurídicas existem hoje?

Pessoas que só entram no sistema quando:

são vítimas de violência extrema

cometem algum delito

tornam-se estatística trágica

O Direito não deveria esperar o acidente para enxergar o indivíduo.

9. Conclusão: o Direito precisa aprender a ver

Se A Hora da Estrela nos ensina algo, é que a invisibilidade é uma forma de violência.

Não a mais ruidosa — mas talvez a mais persistente.

O desafio do Direito contemporâneo não é apenas resolver conflitos.

É identificar ausências.

É perceber quem não está na fila.

Quem não entrou com ação.

Quem não sabe que tem direitos.

Porque, no fim, a pergunta não é jurídica — é quase metafísica:

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quem tem direito de existir aos olhos do sistema?

E enquanto essa resposta não for universal,

o Direito continuará sendo, para muitos, apenas mais um silêncio.

Referências Bibliográficas

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).

FERRAJOLI, Luigi. Direitos e Garantias Fundamentais.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada.

EPICTETO. Manual.

MARCO AURÉLIO. Meditações.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade.

NUSSBAUM, Martha. Frontiers of Justice.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

O jurista, escritor e consultor brasileiro Northon Salomão de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela articulação entre Direito, filosofia, literatura, publicidade e marketing, além de economia, ciência, cultura e artes. Ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, desenvolveu uma carreira de perfil institucional, enquanto o Direito se consolidou, em paralelo, como campo de produção intelectual e atuação técnica. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, de onde presta consultorias a instituições como Track&Field, Arezzo e Cultura Inglesa. Paralelamente, mantém produção contínua de artigos em plataformas e veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua obra reúne 21 livros, organizados em quatro eixos. No campo técnico e de governança, destacam-se “A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC”, “Direito para Gestores”, “Marketing para Gestores” e “Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea”, voltados à estabilidade institucional, gestão de riscos, comunicação estratégica e tomada de decisão. Em uma segunda vertente, voltada às tensões contemporâneas, títulos como “Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático”, “Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial” e “Espaços: Os Novos Limites do Direito” analisam o impacto das transformações ambientais, tecnológicas e informacionais sobre o Direito e sobre a própria noção de autonomia. O núcleo ensaístico concentra a maior parte da produção, reunindo obras como “Lampejos”, “Vestígios”, “Fragmentos”, “Traços”, “Transições”, “Movimentos”, “Passagens”, “Ontologias”, “Núcleos”, “Mutações”, “Essências” e “Brasilis”. Nessas obras, o Direito atua como eixo estruturante e linguagem de fundo, combinando-se com temas como ontologia, cultura, bioética, literatura, cinema, metafísica, ciência, publicidade, linguagem e filosofia clássica e existencial, além de questões contemporâneas como inteligência artificial, ansiedade, futuro, segurança pública, corrupção e condição humana. Essa linha reflexiva se aprofunda em “Existências: Entre Sonhos e Abismos”. A produção se completa com “Pets: Justiça para os sem donos”, obra em que amplia o debate jurídico ao incluir a proteção de animais em situação de vulnerabilidade. Apesar da extensa produção e de um público leitor consolidado, Northon mantém postura discreta. “A obra deve ser maior que o autor”, afirma. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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