Entre o Fogo e a Norma: o Direito diante do colapso climático e o julgamento silencioso da humanidade

05/04/2026 às 20:41
Leia nesta página:

1. Prólogo: o dia em que o céu caiu — e ninguém percebeu

Era uma terça-feira comum. Em algum ponto da Amazônia, uma árvore centenária tombava em silêncio, engolida por chamas que não conhecem Constituição, tratados ou princípios. Ao mesmo tempo, em salas climatizadas, juristas discutiam cláusulas, competências e conflitos federativos.

A tragédia não era a queda da árvore. Era a ausência de julgamento.

O Direito, esse edifício racional erguido ao longo de séculos, parecia subitamente deslocado — como se tentasse regular um universo que já mudou de leis. E talvez tenha mesmo.

Como advertiria Friedrich Nietzsche, “não há fatos, apenas interpretações”. Mas e quando o fato é o colapso do clima?

2. O Direito diante do Antropoceno: quando a norma chega atrasada

A ciência já não sussurra — ela grita. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que o aquecimento global já ultrapassa 1,1°C em relação aos níveis pré-industriais. Eventos extremos se tornaram rotina.

Mas o Direito? Caminha com passos de séculos.

Aqui emerge uma tensão clássica: o Direito é, por natureza, reativo. Ele responde a fatos consumados. Contudo, a crise climática exige antecipação, prevenção, quase uma forma de “profecia normativa”.

Hans Kelsen construiu uma teoria pura do Direito, afastando-o de moralidades e contingências. Mas o clima não respeita pureza teórica. Ele invade. Ele colapsa. Ele exige impureza — exige ética, política e urgência.

Já Ronald Dworkin nos lembraria que o Direito deve ser interpretado como integridade, um sistema moral coerente. Pergunta-se: há integridade possível em um sistema que tolera a destruição das condições de sua própria existência?

3. Lei seca em um mundo em chamas: o que diz o Direito brasileiro

O ordenamento jurídico brasileiro não é silencioso. Ele é, paradoxalmente, eloquente — e negligenciado.

Constituição Federal de 1988:

Art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado…”

Impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo.

Lei nº 12.187/2009 (Política Nacional sobre Mudança do Clima):

Estabelece compromissos voluntários de redução de emissões.

Introduz instrumentos econômicos e regulatórios.

Lei nº 9.605/1998 (Crimes Ambientais):

Tipifica condutas lesivas ao meio ambiente.

No plano internacional:

Acordo de Paris: compromisso global de limitar o aquecimento a bem abaixo de 2°C.

Princípios como responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

O problema não é ausência de norma. É ausência de realidade normativa.

Como diria Michel Foucault, o poder não está apenas nas leis, mas nas práticas. E as práticas, hoje, contradizem o texto.

4. O paradoxo existencial: o homem julga o mundo que o julga

Há algo de profundamente inquietante nisso tudo.

O ser humano criou o Direito para organizar o mundo. Agora, o mundo reage — com secas, enchentes, incêndios — como se estivesse julgando o próprio criador.

Søren Kierkegaard falava do “salto de fé”. Talvez estejamos diante de um salto jurídico: abandonar a ilusão de controle e reconhecer a vulnerabilidade estrutural da civilização.

Arthur Schopenhauer veria nisso a manifestação cega da vontade — um impulso destrutivo inerente à existência. Já Buda apontaria o apego como raiz do sofrimento: apego ao crescimento infinito em um planeta finito.

E Carl Sagan, com sua lucidez cósmica, lembraria:

“A Terra é um ponto azul pálido.”

Um ponto que está aquecendo.

5. Casos reais: quando o Direito começa a acordar

Apesar do cenário sombrio, há fissuras de luz.

1. Caso Urgenda (Holanda):

A Suprema Corte holandesa obrigou o governo a reduzir emissões.

Fundamentação: direitos humanos.

2. Caso Juliana v. United States (EUA):

Jovens processaram o governo por omissão climática.

Argumento: direito a um clima estável.

3. STF e o Fundo Clima (Brasil):

O Supremo Tribunal Federal reconheceu a omissão estatal na execução do fundo.

Clima elevado a direito fundamental implícito.

Esses casos sinalizam algo revolucionário: o clima está deixando de ser política pública para se tornar questão de justiça.

6. Filosofia do abismo: o Direito pode salvar o futuro?

Immanuel Kant falava do dever moral universal. Mas como aplicá-lo a gerações futuras que ainda não existem?

Norberto Bobbio dizia que o problema dos direitos humanos não é justificá-los, mas protegê-los.

Hoje, o desafio é mais radical: proteger direitos de quem ainda não nasceu — contra danos que já começaram.

Fernando Pessoa escreveu:

“O homem é do tamanho do seu sonho.”

Mas e quando o sonho é pequeno demais para conter o futuro?

7. A virada necessária: um Direito climático ou o fim do Direito?

O Direito climático não pode ser apenas um ramo. Ele precisa ser uma nova lente.

Isso implica:

Princípio da precaução radical

Responsabilização intergeracional

Governança global efetiva

Integração entre ciência e norma

Talvez seja necessário um novo paradigma, algo que Albert Einstein sugeriria:

“Não podemos resolver problemas com o mesmo tipo de pensamento que os criou.”

8. Epílogo: o julgamento invisível

A árvore caiu. O fogo consumiu. O processo não foi instaurado.

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Mas o julgamento acontece — silencioso, inexorável.

Não nos tribunais.

Não nas cortes internacionais.

Mas na própria continuidade da vida.

O Direito ainda pode ser ponte. Ou pode ser ruína elegante.

A escolha, como sempre, não está na norma.

Está no intérprete.

E, talvez, no tempo que ainda nos resta.

Bibliografia

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 12.187/2009 (Política Nacional sobre Mudança do Clima).

BRASIL. Lei nº 9.605/1998 (Crimes Ambientais).

IPCC. Sixth Assessment Report, 2021-2023.

UNITED NATIONS. Paris Agreement, 2015.

KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito.

DWORKIN, Ronald. Levando os Direitos a Sério.

BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação.

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano.

SAGAN, Carl. Pálido Ponto Azul.

EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo.

Julgamento Urgenda Foundation v. Netherlands (Suprema Corte Holandesa).

STF. ADPF 708 (Fundo Clima).

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

O jurista, escritor e consultor brasileiro Northon Salomão de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela articulação entre Direito, filosofia, literatura, publicidade e marketing, além de economia, ciência, cultura e artes. Ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, desenvolveu uma carreira de perfil institucional, enquanto o Direito se consolidou, em paralelo, como campo de produção intelectual e atuação técnica. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, de onde presta consultorias a instituições como Track&Field, Arezzo e Cultura Inglesa. Paralelamente, mantém produção contínua de artigos em plataformas e veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua obra reúne 21 livros, organizados em quatro eixos. No campo técnico e de governança, destacam-se “A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC”, “Direito para Gestores”, “Marketing para Gestores” e “Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea”, voltados à estabilidade institucional, gestão de riscos, comunicação estratégica e tomada de decisão. Em uma segunda vertente, voltada às tensões contemporâneas, títulos como “Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático”, “Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial” e “Espaços: Os Novos Limites do Direito” analisam o impacto das transformações ambientais, tecnológicas e informacionais sobre o Direito e sobre a própria noção de autonomia. O núcleo ensaístico concentra a maior parte da produção, reunindo obras como “Lampejos”, “Vestígios”, “Fragmentos”, “Traços”, “Transições”, “Movimentos”, “Passagens”, “Ontologias”, “Núcleos”, “Mutações”, “Essências” e “Brasilis”. Nessas obras, o Direito atua como eixo estruturante e linguagem de fundo, combinando-se com temas como ontologia, cultura, bioética, literatura, cinema, metafísica, ciência, publicidade, linguagem e filosofia clássica e existencial, além de questões contemporâneas como inteligência artificial, ansiedade, futuro, segurança pública, corrupção e condição humana. Essa linha reflexiva se aprofunda em “Existências: Entre Sonhos e Abismos”. A produção se completa com “Pets: Justiça para os sem donos”, obra em que amplia o debate jurídico ao incluir a proteção de animais em situação de vulnerabilidade. Apesar da extensa produção e de um público leitor consolidado, Northon mantém postura discreta. “A obra deve ser maior que o autor”, afirma. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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