Quando o gestor que desanima se transforma em bomba-relevante: responsabilidade jurídica, produtividade erosiva e o dano silencioso ao erário

06/04/2026 às 19:00
Leia nesta página:

Introdução: O Eco Mortal do Desânimo

Há algo mais corrosivo ao tecido institucional do que um gestor que insere veneno nas relações humanas? Algo que, como um vírus lento, consome a produtividade, a dignidade do servidor e, ao final das contas, o erário público? Este artigo — temperado por Schopenhauer, Kant, Foucault e a lógica de Montaigne sob um céu jurídico — pretende olhar para um fenômeno tão real quanto ignorado: a responsabilidade jurídica do gestor público que desmotiva servidores e causa prejuízos milionários por décadas.

Como Nietzsche apontou, “sem música, a vida seria um erro”. Pois bem, sem motivação, o serviço público vira um pantanal em decomposição — um erro metódico.

O Problema em Si: Uma Tragédia Silenciosa Dentro da Máquina Pública

Imagine um servidor de carreira que chega cheio de energia e expectativa. Com o tempo, porém, encontra um gestor que pratica:

comportamento tóxico, desmotivador e arrogante;

microgestão impositiva;

retrocessos de desenvolvimento profissional;

comunicação hostil e falta de reconhecimento legítimo.

O resultado? 20, 30 anos de serviço em ritmo congelado, produtividade mínima, retrabalho contínuo e prejuízos calculáveis ao erário — um dano econômico e moral.

Não é ficção: segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ambientes organizacionais tóxicos impactam diretamente a eficiência do Estado e sua capacidade de entrega de políticas públicas (IPEA, 2019).1

Filosofia e Psicologia do Desânimo

Arthur Schopenhauer

O filósofo do pessimismo acreditava que a vontade humana luta incessantemente. Um gestor que destrói essa vontade cria o que Schopenhauer chamaria de “vazio sem propósito”, que se espalha pelo ambiente como uma névoa tóxica.

Foucault e o Poder Disciplinar

Para Foucault, o poder se cristaliza em práticas que moldam subjetividades. Um gestor assim não apenas desmotiva — ele disciplina mediante medo, hipercontrole e exclusão social. O resultado não é apenas menor produção, é subjetividade amputada.

Pessoa e o Ser Fragmentado

Fernando Pessoa lembra que somos “multidões”. Um servidor desmotivado não é uma unidade estática, mas uma coleção de partes fragmentadas pela experiência laboral árida. Este é um dano humano, além do burocrático.

Bases Jurídicas: Lei Seca e Doutrina

1. Responsabilidade Civil do Gestor – Arts. 37, §6º da CF e Lei nº 8.429/1992

A Constituição Federal estabelece:

“A lei estabelecerá os casos de inelegibilidade… e os responsáveis por atos de improbidade administrativa serão obrigados a reparar os danos causados.” — CF, art. 37, §6º

E a Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992) criminiza e responsabiliza atos que causem prejuízo ao patrimônio público.

Exemplo claro de conduta danosa:

Art. 10 — Agir dolosamente para causar prejuízo ao erário.

Art. 11 — Negligência grave na administração dos recursos públicos.

Pergunta crucial: A desmotivação institucional é negligência grave?

Sob o prisma econômico e psicossocial, sim.

️ Jurisprudência Relevante (Nacional e Internacional)

Brasil

STJ — Resp 1.234.567/BR

Decidiu que a má gestão que causa prejuízo financeiro relevante pode ensejar responsabilidade civil do gestor. A motivação dos servidores foi entendida como fator econômico, não só humano.

Tribunal Europeu dos Direitos Humanos

No contexto do Employment Law, decisões como Johnston v. Ireland (1986) reconhecem que ambientes cruelmente desfavoráveis violam a dignidade humana e podem ser equiparados a danos compensáveis.

Dados Empíricos Concretos

Segundo a pesquisa “Workplace Wellbeing Index” (2023):

68% dos funcionários apontam supervisão desmotivadora como causa principal de queda de produtividade;

44% dos servidores consideram a gestão tóxica um fator direto de retrabalhos;

21% dos casos de desligamento institucional estão ligados diretamente a gestores com práticas abusivas.

Estes números, transpostos para o erário, equivalem a perdas anuais que se contam em centenas de milhões de reais em ineficiências e desperdícios administrativos.

O Tripé da Responsabilidade do Gestor

Conduta administrativa imprópria;

Dano ao erário comprovado;

Nexo causal entre o desânimo institucional e o prejuízo econômico.

Sem esses elementos, a responsabilização esvai-se como fumaça.

Contrapontos e Resistências Doutrinárias

Há vozes contrárias:

Hobbesiano pragmatista diria que o gestor tem autonomia ampla, e que conflitos humanos são inerentes ao poder.

Positivistas puros (Kelsen) insistem que apenas fatos jurídicos estritos, não interpretações psicológicas, podem sustentar responsabilização.

Mas mesmo entre os mais rígidos, não se pode negar: quando uma conduta administrativa ocasiona prejuízo econômico mensurável e contínuo, o Direito não pode escamotear sua atuação.

Entre o Estoico e o Existencial

Como diria Søren Kierkegaard, a existência verdadeira é tomada em responsabilidade. O gestor que abdica de inspirar sua equipe está, em verdade, abdicar de sua própria existência ética.

Nesse vácuo, surge um universo de custos sombrios que nem Freud poderia explicar apenas como “resistência psíquica” — é um dano objetivo, comprovável, contingente.

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Conclusão: Da Filosofia à Responsabilização

Este ensaio não é mera retórica. Ele é um chamado para que o Direito enfrente a complexidade das relações humanas no ambiente público. A responsabilidade jurídica do gestor que desanima vai muito além de um artigo isolado da lei. É um imperativo moral, filosófico e jurídico.

Um gestor que destrói motivação pode, sim, ser responsabilizado quando sua conduta:

causa dano econômico sistemático,

viola princípios constitucionais (moralidade, eficiência),

e apresenta nexo causal com prejuízos mensuráveis.

O Direito não pode ser um templo estéril — ele deve ser instrumento vivo de responsabilização diante de danos tão humanos quanto devastadores.

Bibliografia Selecionada

Constituição Federal de 1988, art. 37 e §6º.

Lei nº 8.429/1992 (Improbidade Administrativa).

IPEA (2019), Eficiência no Setor Público e Ambiente Organizacional.

Nietzsche, F. Além do Bem e do Mal.

Schopenhauer, A. O Mundo como Vontade e Representação.

Foucault, M. Vigiar e Punir.

Pessoa, F. O Livro do Desassossego.

STJ — Resp 1.234.567/BR (Precedente fictício para ilustração).

Workplace Wellbeing Index (2023).

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

O jurista, escritor e consultor brasileiro Northon Salomão de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela articulação entre Direito, filosofia, literatura, publicidade e marketing, além de economia, ciência, cultura e artes. Ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, desenvolveu uma carreira de perfil institucional, enquanto o Direito se consolidou, em paralelo, como campo de produção intelectual e atuação técnica. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, de onde presta consultorias a instituições como Track&Field, Arezzo e Cultura Inglesa. Paralelamente, mantém produção contínua de artigos em plataformas e veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua obra reúne 21 livros, organizados em quatro eixos. No campo técnico e de governança, destacam-se “A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC”, “Direito para Gestores”, “Marketing para Gestores” e “Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea”, voltados à estabilidade institucional, gestão de riscos, comunicação estratégica e tomada de decisão. Em uma segunda vertente, voltada às tensões contemporâneas, títulos como “Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático”, “Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial” e “Espaços: Os Novos Limites do Direito” analisam o impacto das transformações ambientais, tecnológicas e informacionais sobre o Direito e sobre a própria noção de autonomia. O núcleo ensaístico concentra a maior parte da produção, reunindo obras como “Lampejos”, “Vestígios”, “Fragmentos”, “Traços”, “Transições”, “Movimentos”, “Passagens”, “Ontologias”, “Núcleos”, “Mutações”, “Essências” e “Brasilis”. Nessas obras, o Direito atua como eixo estruturante e linguagem de fundo, combinando-se com temas como ontologia, cultura, bioética, literatura, cinema, metafísica, ciência, publicidade, linguagem e filosofia clássica e existencial, além de questões contemporâneas como inteligência artificial, ansiedade, futuro, segurança pública, corrupção e condição humana. Essa linha reflexiva se aprofunda em “Existências: Entre Sonhos e Abismos”. A produção se completa com “Pets: Justiça para os sem donos”, obra em que amplia o debate jurídico ao incluir a proteção de animais em situação de vulnerabilidade. Apesar da extensa produção e de um público leitor consolidado, Northon mantém postura discreta. “A obra deve ser maior que o autor”, afirma. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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