O Planeta em Juízo: quando o clima vira autor e o Direito réu (um ensaio de Direito Comparado sobre danos climáticos)

07/04/2026 às 21:12
Leia nesta página:

1. Prólogo: o dia em que o ar entrou com ação judicial

Imagine a cena. Não há partes visíveis na audiência. Nenhum autor de carne e osso, nenhum réu com gravata ajustada. Apenas o ar — invisível, saturado, cansado — ocupando o espaço. O juiz consulta os autos: gráficos, relatórios do IPCC, mapas de calor, vidas deslocadas. O silêncio pesa mais que qualquer prova pericial.

O Direito, essa máquina de organizar culpas e responsabilidades, começa a suar.

Não é ficção. É o mundo real disfarçado de distopia tímida.

Nos últimos anos, o planeta tem sido traduzido em petições iniciais. O clima, outrora metáfora literária, virou fato jurídico. E o Direito — sempre atrasado, sempre elegante em seu atraso — tenta acompanhar.

2. O problema: como responsabilizar o invisível (e o difuso)

Danos climáticos não têm rosto único. São uma coreografia global de emissões, decisões políticas, cadeias produtivas e omissões regulatórias.

Aqui nasce o drama jurídico:

Causalidade difusa: quem causou o quê?

Dano transnacional: onde ocorreu o prejuízo?

Responsabilidade fragmentada: quem responde — Estado, empresa, gerações passadas?

Como diria Kelsen, o Direito precisa de imputação clara. O clima ri disso.

E como lembraria Nietzsche, talvez o problema seja querer moralizar o que é estruturalmente trágico.

3. Direito comparado: o mundo começa a julgar o clima

3.1. Países Baixos — o caso Urgenda

O caso Urgenda Foundation v. State of the Netherlands (2019) é o marco zero do novo constitucionalismo climático.

A Suprema Corte holandesa determinou que o Estado reduzisse emissões com base em:

Direitos humanos (vida e bem-estar)

Princípio da precaução

Dever estatal de proteção

Aqui, o clima deixou de ser política pública e virou obrigação jurídica exigível.

Um eco de Dworkin: direitos não são sugestões — são trunfos contra maiorias inertes.

3.2. Alemanha — o futuro como sujeito jurídico

Em 2021, o Tribunal Constitucional alemão decidiu que a lei climática violava direitos fundamentais das futuras gerações.

Sim, o futuro ganhou voz jurídica.

A Corte entendeu que postergar reduções de emissões transfere ônus desproporcional ao amanhã.

Aqui, Kant parece sussurrar: agir de modo que tua ação possa valer como lei universal — inclusive no tempo.

3.3. Estados Unidos — litígios contra empresas

Nos EUA, cidades como Nova York e San Francisco processaram gigantes do petróleo (ExxonMobil, Chevron) por danos climáticos.

Argumentos centrais:

Responsabilidade civil por risco conhecido

Omissão de informação ao público

Externalização de custos ambientais

O problema? A jurisprudência ainda oscila entre:

Competência federal vs. estadual

Dificuldade de provar nexo causal direto

Como diria Hume, a causalidade é uma crença bem vestida — não uma certeza.

3.4. Brasil — um laboratório ainda tímido (mas promissor)

No Brasil, o tema ganha força:

ADPF 708 (Fundo Clima) — o STF reconheceu a omissão estatal e determinou a retomada de políticas climáticas

Art. 225 da Constituição Federal — direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado

Lei nº 12.187/2009 — Política Nacional sobre Mudança do Clima

O STF começa a construir algo próximo de um constitucionalismo climático tropical.

Mas ainda falta coragem institucional.

Ou, como diria Streck, falta levar o Direito a sério — especialmente quando o réu é o próprio Estado.

4. A responsabilidade civil climática: entre o clássico e o impossível

A estrutura tradicional exige:

Conduta

Dano

Nexo causal

Mas no clima:

A conduta é coletiva

O dano é global

O nexo é probabilístico

Solução? O Direito comparado ensaia alternativas:

4.1. Responsabilidade objetiva ampliada

Baseada no risco da atividade (indústrias fósseis, por exemplo)

4.2. Inversão do ônus da prova

Quem polui deve provar que não causou

4.3. Causalidade probabilística

Aceitação de evidência científica (modelos climáticos)

Aqui entra Amartya Sen: justiça não é perfeição abstrata, mas redução de injustiças concretas.

5. Filosofia do colapso: o Direito diante do abismo

Schopenhauer diria que o mundo é vontade cega — e o clima, sua consequência inevitável.

Cioran talvez completasse: “A lucidez é o único vício que nos torna livres — e infelizes.”

Já Byung-Chul Han apontaria: vivemos na sociedade do desempenho, incapaz de parar até destruir o próprio palco.

O Direito, nesse cenário, parece um jardineiro tentando podar um incêndio.

6. Dados empíricos: o processo já começou

Segundo o UNEP (2023):

Mais de 2.000 ações climáticas foram propostas no mundo

A maioria nos EUA, Europa e Austrália

Crescimento exponencial após 2015 (Acordo de Paris)

Segundo o IPCC:

Aumento médio de temperatura: ~1,1°C

Eventos extremos multiplicados

Impactos desproporcionais em países pobres

Thomas Piketty enxergaria aqui a desigualdade climática: quem menos polui, mais sofre.

7. Contrapontos: o risco do ativismo judicial climático

Nem tudo são aplausos.

Críticas relevantes:

Separação de poderes: tribunais invadem política pública

Dificuldade técnica: juízes não são climatologistas

Eficácia limitada: decisões simbólicas sem execução real

Habermas alertaria: legitimidade democrática não pode ser substituída por tecnocracia judicial.

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Mas o contra-argumento é brutal:

Quando o legislativo falha, o Judiciário se torna o último abrigo.

8. O Direito como narrativa: quem conta a história do clima?

No fundo, tudo é narrativa.

Quem define:

o que é dano

quem é vítima

quem é culpado

define o futuro.

Foucault diria que o poder está no discurso.

Bobbio lembraria que o problema não é justificar direitos, mas garanti-los.

E o clima… bem, o clima não espera.

9. Epílogo: o julgamento continua

Voltamos à audiência inicial.

O ar ainda está lá. Invisível. Irritado.

O juiz hesita.

Não por falta de lei. Mas por excesso de mundo.

O Direito chegou até aqui acreditando que tudo pode ser classificado, provado, decidido.

O clima responde com furacões.

E talvez, no fundo, a pergunta não seja jurídica.

Mas existencial:

até que ponto é possível responsabilizar alguém por um desastre que todos ajudaram a criar — e ninguém consegue parar?

Referências bibliográficas

IPCC. Sixth Assessment Report. 2021–2023.

UNEP. Global Climate Litigation Report. 2023.

Suprema Corte dos Países Baixos. Urgenda Foundation v. Netherlands. 2019.

Tribunal Constitucional Alemão. Decisão sobre Lei Climática. 2021.

STF. ADPF 708. Rel. Min. Luís Roberto Barroso.

BRASIL. Constituição Federal de 1988, art. 225.

BRASIL. Lei nº 12.187/2009.

DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério.

KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito.

STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição Constitucional.

SEN, Amartya. A ideia de justiça.

PIKETTY, Thomas. Capital e ideologia.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.

HUME, David. Tratado da natureza humana.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição.

HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia.

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

O jurista, escritor e consultor brasileiro Northon Salomão de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela articulação entre Direito, filosofia, literatura, publicidade e marketing, além de economia, ciência, cultura e artes. Ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, desenvolveu uma carreira de perfil institucional, enquanto o Direito se consolidou, em paralelo, como campo de produção intelectual e atuação técnica. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, de onde presta consultorias a instituições como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. Paralelamente, mantém produção contínua de artigos em plataformas e veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua obra reúne 21 livros, organizados em quatro eixos. No campo técnico e de governança, destacam-se “A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC”, “Direito para Gestores”, “Marketing para Gestores” e “Etnomarketing: Relevância na Administração Contemporânea”, voltados à estabilidade institucional, gestão de riscos, comunicação estratégica e tomada de decisão. Em uma segunda vertente, voltada às tensões contemporâneas, títulos como “Colapsos: Uma Odisseia Jurídica pelo Caos Climático”, “Ansiedades: O Direito com medo do futuro e do silêncio da inteligência artificial” e “Espaços: Os Novos Limites do Direito” analisam o impacto das transformações ambientais, tecnológicas e informacionais sobre o Direito e sobre a própria noção de autonomia. O núcleo ensaístico concentra a maior parte da produção, reunindo obras como “Lampejos”, “Vestígios”, “Fragmentos”, “Traços”, “Transições”, “Movimentos”, “Passagens”, “Ontologias”, “Núcleos”, “Mutações”, “Essências” e “Brasilis”. Nessas obras, o Direito atua como eixo estruturante e linguagem de fundo, combinando-se com temas como ontologia, cultura, bioética, literatura, cinema, metafísica, ciência, publicidade, linguagem e filosofia clássica e existencial, além de questões contemporâneas como inteligência artificial, ansiedade, futuro, segurança pública, corrupção e condição humana. Essa linha reflexiva se aprofunda em “Existências: Entre Sonhos e Abismos”. A produção se completa com “Pets: Justiça para os sem donos”, obra em que amplia o debate jurídico ao incluir a proteção de animais em situação de vulnerabilidade. Apesar da extensa produção e de um público leitor consolidado, Northon mantém postura discreta. “A obra deve ser maior que o autor”, afirma. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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