All Her Fault: quando Sigmund Freud encontra o Código Penal — culpa, gênero e o teatro invisível da responsabilidade jurídica

09/04/2026 às 22:07
Leia nesta página:

Introdução

Há culpas que não nascem no ato — são cultivadas no olhar.

A série All Her Fault não é apenas um thriller psicológico; é um espelho inquieto onde o Direito parece olhar para si mesmo e hesitar. Quem é culpado quando a realidade se fragmenta em versões, memórias falhas e narrativas conflitantes? E mais: quem o sistema jurídico escolhe culpar?

A pergunta, que poderia parecer meramente dramática, é profundamente jurídica, filosófica e psiquiátrica. Afinal, o Direito não julga apenas fatos — julga pessoas, e pessoas são estruturas frágeis moldadas por traumas, cultura, linguagem e poder.

Entre o artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal — “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado” — e a prática cotidiana dos tribunais, há um abismo onde a presunção de inocência muitas vezes se dissolve em percepções subjetivas, vieses inconscientes e construções sociais.

E então surge o dilema:

a culpa é um dado objetivo ou uma narrativa socialmente construída?

Desenvolvimento

1. A culpa como construção psíquica: o tribunal interior

Para Sigmund Freud, a culpa nasce antes da lei: é produto do superego, essa instância psíquica que vigia, acusa e pune. Já Carl Jung sugeriria que a culpa também habita o inconsciente coletivo, vestida de arquétipos — a mãe negligente, a mulher perigosa, a figura que “falhou”.

Na psiquiatria, Aaron Beck demonstra como distorções cognitivas moldam percepções de responsabilidade. A mente não apenas interpreta o mundo — ela o distorce, frequentemente contra si mesma.

Agora, imagine isso transposto para o Direito.

O juiz, o promotor, o jurado — todos carregam seus próprios “tribunais interiores”. O processo penal, então, deixa de ser apenas um procedimento técnico e se torna um palco onde inconscientes dialogam em silêncio.

E aqui, Michel Foucault entra como um sussurro incômodo: o poder não apenas pune, ele produz verdades. O que chamamos de culpa pode ser menos uma descoberta e mais uma construção disciplinar.

2. Direito penal e a ficção da neutralidade

O artigo 13 do Código Penal brasileiro define o nexo causal: “o resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa”.

Parece objetivo. Matemático. Quase elegante.

Mas, como diria Friedrich Nietzsche, “não há fatos, apenas interpretações”.

No caso real de Caso Isabella Nardoni, a construção da culpa envolveu não apenas provas técnicas, mas também narrativas emocionais intensas, amplificadas pela mídia. A figura da madrasta foi rapidamente enquadrada em um arquétipo socialmente carregado.

Outro exemplo: o caso norte-americano de Casey Anthony trial. Absolvida apesar de fortes suspeitas, Casey foi julgada duas vezes — uma no tribunal, outra na opinião pública, onde foi eternamente condenada.

A neutralidade do Direito, então, começa a parecer uma promessa… otimista.

3. Psicologia social: quando todos julgam sem perceber

Os experimentos de Stanley Milgram e Philip Zimbardo revelam algo perturbador: pessoas comuns, em contextos específicos, podem assumir papéis de acusadores, juízes e carrascos com facilidade assustadora.

No tribunal do júri (art. 5º, XXXVIII, CF), onde leigos decidem sobre a vida de um réu, isso ganha contornos dramáticos.

A pergunta inevitável:

o júri decide com base em provas ou em narrativas emocionalmente convincentes?

Daniel Kahneman explicaria com seu Sistema 1 e Sistema 2: julgamentos rápidos, intuitivos e enviesados frequentemente dominam decisões complexas.

4. Gênero, culpa e o peso invisível da expectativa

“All Her Fault” não é um título inocente.

Há uma longa tradição histórica de atribuir culpa às mulheres — da histeria diagnosticada por Jean-Martin Charcot até as críticas de Simone de Beauvoir sobre a construção social do “Outro”.

No Direito brasileiro, embora formalmente igualitário (art. 5º, I, CF), estudos empíricos indicam que mulheres, especialmente mães, são julgadas com base em expectativas morais adicionais.

Se uma mãe falha, ela não falha apenas juridicamente — falha existencialmente.

Como diria Martha Nussbaum, emoções públicas influenciam decisões legais, especialmente em casos envolvendo vulnerabilidade e moralidade.

5. A verdade como ficção institucional

Bruno Latour argumenta que fatos científicos são construídos em redes de validação. No Direito, não é diferente.

A “verdade jurídica” é aquela que consegue sobreviver ao contraditório (art. 5º, LV, CF), não necessariamente a verdade ontológica.

Giorgio Agamben vai além: o estado de exceção transforma o julgamento em um espaço onde a norma e a decisão se confundem.

E então surge uma hipótese incômoda:

o processo não descobre a verdade — ele a produz.

6. Dados empíricos e realidade concreta

Segundo o CNJ, erros judiciais no Brasil ainda são subnotificados, mas casos de revisões criminais demonstram fragilidade probatória em decisões anteriores.

Nos EUA, o Innocence Project aponta que mais de 375 condenações injustas foram revertidas por DNA.

Estudos de psicologia jurídica indicam que testemunhos oculares têm alto índice de falibilidade.

Ou seja: a certeza jurídica frequentemente repousa sobre bases… humanas demais.

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Análise crítica: o teatro da culpa

Se Arthur Schopenhauer estivesse em um tribunal, talvez dissesse que julgamos não para encontrar a verdade, mas para aliviar o desconforto da incerteza.

O Direito, nesse sentido, funciona como uma espécie de ritual coletivo: alguém precisa ser culpado para que a ordem simbólica permaneça intacta.

E aqui mora a ironia:

quanto mais complexo o caso, maior a necessidade psicológica de uma resposta simples.

“All Her Fault” torna-se, então, menos uma acusação e mais uma confissão coletiva.

Conclusão

Entre o Código Penal e o inconsciente, entre a prova e a narrativa, o Direito caminha sobre uma corda bamba invisível.

A culpa, que deveria ser um conceito jurídico objetivo, revela-se uma entidade híbrida — jurídica, psicológica, social e filosófica.

Talvez a pergunta não seja apenas “quem é culpado?”, mas:

quem decide o que significa ser culpado?

E, mais inquietante ainda:

quantas “culpas” são apenas reflexos de nossos próprios medos projetados no outro?

O convite final não é à resposta, mas à inquietação.

Porque, no fundo, o maior risco não é condenar o culpado errado —

é acreditar, com absoluta certeza, que nunca erramos.

Bibliografia e referências

Direito e jurisprudência

Constituição Federal de 1988 (arts. 5º, I, LV, LVII, XXXVIII)

Código Penal Brasileiro (art. 13)

Caso Isabella Nardoni (STJ e TJSP)

Caso Casey Anthony (EUA)

CNJ – Relatórios sobre sistema penal

Psicologia e psiquiatria

Sigmund Freud – O Ego e o Id

Carl Jung – Arquétipos e o Inconsciente Coletivo

Aaron Beck – Terapia Cognitiva

Stanley Milgram – Experimentos de obediência

Philip Zimbardo – O Efeito Lúcifer

Filosofia e ciência

Friedrich Nietzsche – Além do Bem e do Mal

Michel Foucault – Vigiar e Punir

Martha Nussbaum – Political Emotions

Bruno Latour – A Vida no Laboratório

Giorgio Agamben – Estado de Exceção

Arthur Schopenhauer – O Mundo como Vontade e Representação

Daniel Kahneman – Rápido e Devagar

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um jurista, escritor, compositor, pensador e consultor contemporâneo brasileiro cuja obra se situa na interseção delicada de três campos que raramente coexistem harmoniosamente: o Direito, com sua rigidez institucional; a filosofia existencial, com suas indagações inquietantes; e a literatura, como veículo de expressão estética e reflexão profunda. Northon Salomão de Oliveira é conhecido por explorar a interseção entre o Direito e as Artes de forma bastante profunda e original. Ele não trata o Direito apenas como um conjunto de normas ou regras abstratas, mas como uma linguagem cultural e simbólica que dialoga com a estética, a literatura, a música e outras formas artísticas. Em sua abordagem, o Direito é entendido como uma experiência estética e filosófica, capaz de ser analisado e interpretado como uma obra de arte. Ele acredita que a prática jurídica, quando refletida criticamente, pode revelar dimensões existenciais, narrativas e simbólicas similares às presentes nas artes, como: Literatura e poesia: para mostrar como a linguagem jurídica carrega ritmo, metáforas e significados profundos, indo além da mera aplicação de normas. Música: como a estrutura, harmonia e dissonância podem espelhar conceitos de justiça, ordem e conflito social. Artes visuais e cinema: para explorar a ideia de narrativa, representação e interpretação dentro do Direito, como se cada caso ou decisão fosse uma obra em si. Ele transforma o estudo jurídico em algo mais poético e reflexivo, mostrando que o Direito não é apenas “técnico”, mas também cultural, estético e humano. Isso cria um campo fértil para ensaios, artigos e projetos interdisciplinares, aproximando juristas, filósofos e artistas. Sua trajetória combina a solidez de mais de 20 anos como servidor da Caixa Econômica Federal, com uma prática jurídica consistente, incluindo consultoria em Direito do Consumidor para empresas como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. Autor prolífico de artigos em portais como Jus Navigandi, Jusbrasil, Administradores, Amo Direito, sites de Associações e Colégios Notariais e Recanto das Letras, e de e-books sobre segurança jurídica do FGC e Etnomarketing, Northon emprega a literatura não como adorno, mas como instrumento de pensamento, convertendo temas jurídicos em narrativas existenciais que desafiam a hipocrisia institucional e celebram a responsabilidade individual. Seu estilo intelectual, entre a ironia elegante de Neil Tennant e a introspecção de Montaigne, dialoga com a firmeza de João Pessoa e o realismo desapegado de Schopenhauer, delineando uma filosofia de fundo agnóstico: sem afirmações dogmáticas sobre o transcendente, mas sem rejeição simplista, mantendo uma abertura silenciosa para o mistério e uma desconfiança saudável das certezas absolutas. Essa perspectiva, que ressoa com o Existencialismo e o Estoicismo moderno, enxerga a solidão como liberdade e privilegia uma leitura prática da vida, livre de misticismo exagerado ou ingenuidade materialista. Sua trajetória mostra uma busca constante por equilíbrio entre a objetividade das normas e a subjetividade da experiência humana, traduzida tanto em ensaios filosóficos quanto em textos literários e composições musicais. A mesma densidade se reflete em sua atuação artística no projeto Nyra Motta e os Maníacos, cover da banda americana de rock alternativo 10,000 Maniacs, unindo influências de sintetizadores (Pet Shop Boys, Vangelis) e rock progressivo (Pink Floyd) à sua produção, liderado por Nyra Motta, onde Northon contribui como colaborador criativo, guitarrista, violonista e compositor, ajudando a moldar a identidade sonora do grupo com um som que privilegia melodia, introspecção e densidade emocional. Influenciado por referências como Vangelis, Pet Shop Boys, Tears for Fears e Pink Floyd, ele busca não apenas compreender o mundo, mas situar-se conscientemente nele, escrevendo como quem não quer holofotes, apenas acende uma lâmpada em um quarto vazio e espera que alguém perceba. Northon não apenas analisa o sistema; ele o habita com a consciência de um filósofo e a sensibilidade de um artista, transformando a rigidez da lei na fluidez da experiência vivida. - Por Nyra Motta.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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