Inteligência Artificial e o medo do futuro: a crise da justificabilidade no Direito e o risco de uma jurisdição sem consciência

12/04/2026 às 12:01
Leia nesta página:

1. Hipótese central: o medo do futuro como crise da justificabilidade

O ponto não é simplesmente que a inteligência artificial introduz riscos. O núcleo do problema é mais sutil e mais grave: a IA tensiona a exigência fundamental de justificabilidade das decisões jurídicas.

O Direito não se define apenas por decidir, mas por justificar racionalmente a decisão. Essa exigência está no coração do Estado de Direito:

Constituição Federal, art. 93, IX:

“Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões…”

A IA desloca essa exigência. Ela produz outputs altamente eficientes, mas frequentemente sem inteligibilidade normativa.

O medo do futuro, então, não é medo da automação.

É medo de um Direito que decide sem compreender e sem explicar.

2. Evidência empírica robusta: o déficit de explicabilidade

2.1 Opacidade estrutural

Stanford HAI (2024): sistemas de deep learning apresentam baixa interpretabilidade mesmo para seus desenvolvedores

Nature Machine Intelligence (2022): técnicas de explainable AI ainda são insuficientes para decisões críticas

2.2 Viés algorítmico mensurado

NIST (Face Recognition Vendor Test):

Taxas de erro até 100 vezes maiores para determinados grupos raciais

ProPublica (COMPAS):

Superestimação de risco para réus negros

Subestimação para réus brancos

2.3 Impacto no Judiciário brasileiro

CNJ (2023):

Mais de 140 projetos de IA em tribunais brasileiros

Ausência de padronização metodológica

Falta de protocolos uniformes de auditoria

3. Estrutura normativa: o Direito tentando conter o indeterminado

3.1 Constituição Federal

Art. 5º, LIV e LV: devido processo legal

Art. 5º, XXXV: acesso à justiça

Art. 93, IX: dever de fundamentação

3.2 LGPD (Lei 13.709/2018)

Art. 6º, VI: transparência

Art. 20: direito à revisão de decisões automatizadas

Problema técnico-jurídico:

O art. 20 não define o grau de explicação exigido. Revisão por quem? Com base em quê? Com que nível de inteligibilidade?

3.3 LINDB (Decreto-Lei 4.657/42)

Art. 20: decisões devem considerar consequências práticas

A IA amplia a capacidade preditiva, mas também amplia o risco de decisões baseadas em correlação, não em causalidade.

4. Jurisprudência aprofundada: anatomia das decisões

4.1 State v. Loomis (Wisconsin, 2016)

Tese central: admissibilidade de algoritmo opaco em decisão penal.

Ponto crítico: A Corte reconheceu explicitamente:

O algoritmo é proprietário

Não pode ser auditado pelo réu

Ainda assim, pode influenciar a decisão

Análise crítica: Há uma ruptura silenciosa do devido processo.

O réu não pode contestar plenamente a base da decisão.

4.2 Tribunal Constitucional Alemão (BVerfG, 2020)

Tese: limites à vigilância algorítmica estatal.

Fundamento:

Direito fundamental à autodeterminação informacional

Contribuição teórica: Reconhecimento de que o processamento automatizado já é, por si só, uma forma de intervenção estatal.

4.3 Brasil: reconhecimento facial e erro judicial

Casos concretos (Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo):

Prisões baseadas exclusivamente em reconhecimento facial

Posterior absolvição por erro de identificação

Base jurídica violada:

Art. 5º, LVII (CF): presunção de inocência

Art. 155 do CPP: prova deve ser produzida sob contraditório

Dado empírico: Relatórios independentes indicam concentração de erros em populações vulneráveis.

5. A crise da causalidade: o Direito diante de sistemas não lineares

A responsabilidade civil clássica pressupõe linearidade causal:

A → B → C

A IA opera em redes probabilísticas:

múltiplas entradas → múltiplos pesos → resultado não linear

Código Civil

Art. 927, parágrafo único: responsabilidade objetiva

5.1 Problema prático

Em um sistema de IA:

O resultado pode não ser reproduzível

O modelo pode evoluir após o evento

O nexo causal pode ser estatístico, não determinístico

5.2 Respostas doutrinárias

a) Responsabilidade por risco integral tecnológico

Ampliação do regime objetivo

b) Dever de governança algorítmica

Responsabilidade pela estrutura, não pelo resultado

c) Accountability distribuída

Responsabilidade compartilhada entre múltiplos agentes

6. Comparação internacional: modelos regulatórios

União Europeia — AI Act (2024)

Classificação por risco:

Inaceitável (proibido)

Alto risco (regulação rigorosa)

Baixo risco (regulação leve)

Exemplo: Reconhecimento facial em tempo real → altamente restrito

Estados Unidos

Abordagem fragmentada

Ênfase em inovação

Regulação setorial

Brasil

Projetos de lei em tramitação (ex.: PL 2338/2023)

Ausência de marco consolidado

7. O contraponto teórico: a IA como racionalidade ampliada

Corrente otimista sustenta:

IA reduz vieses humanos

Aumenta consistência decisória

Permite análise de grandes volumes de dados

No Judiciário:

Triagem automatizada reduz backlog

Precedentes são aplicados com maior uniformidade

8. Crítica estrutural: eficiência não substitui legitimidade

A legitimidade do Direito não decorre apenas de resultados corretos, mas de:

Transparência

Participação

Justificação

A IA pode produzir decisões eficientes, mas sem legitimidade democrática suficiente.

9. Aplicabilidade prática: arquitetura de contenção

9.1 Direito à explicação forte

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Reinterpretação do art. 20 da LGPD para exigir:

Explicação compreensível

Possibilidade real de contestação

9.2 Auditoria algorítmica obrigatória

Testes independentes

Publicidade de métricas de erro

Avaliação de impacto regulatório

9.3 Princípio da supervisão humana significativa

Decisões críticas devem:

Ter revisão humana efetiva

Não ser meramente homologatórias

9.4 Prova algorítmica qualificada

Admissibilidade condicionada a:

Transparência mínima

Taxa de erro conhecida

Possibilidade de contraditório técnico

10. Fechamento: o medo como sintoma de lucidez

O medo do futuro, nesse contexto, não é irracional.

Ele é um indicador de que o Direito percebe, ainda que tardiamente, uma transformação estrutural.

A inteligência artificial não elimina o Direito.

Mas obriga o Direito a confrontar seu próprio limite:

sua dependência da razão explicável.

Se o Direito aceitar decisões que não pode explicar,

ele não se torna mais eficiente —

ele se torna outra coisa.

E talvez o verdadeiro risco não seja um futuro dominado por máquinas,

mas um presente em que o Direito continua a decidir

sem saber exatamente por quê.

Bibliografia

Doutrina

PASQUALE, Frank. The Black Box Society

FLORIDI, Luciano. The Ethics of Information

BATHAEE, Yavar. The Artificial Intelligence Black Box and the Failure of Intent and Causation

Legislação

Constituição Federal de 1988

LGPD (Lei 13.709/2018)

Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014)

Código Civil (Lei 10.406/2002)

LINDB (Decreto-Lei 4.657/42)

Jurisprudência

State v. Loomis (EUA, 2016)

BVerfG (Alemanha, 2020) — vigilância algorítmica

Casos brasileiros de reconhecimento facial

Relatórios e estudos empíricos

Stanford HAI Report (2024)

NIST Face Recognition Vendor Test

OECD AI Policy Observatory (2023)

CNJ — Justiça em Números (2023)

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e consultor brasileiro, com atuação em Presidente Prudente e Curitiba. Sua trajetória profissional, construída ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, revela não apenas sólida experiência, mas uma visão multifacetada do Direito. Sua atuação distingue-se pela capacidade de entrelaçar o rigor técnico jurídico com reflexões oriundas da filosofia, da literatura, da economia, da ciência e das artes, estabelecendo um diálogo singular entre normas e sensibilidade humana. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, acumulando também experiência em consultorias prestadas a grandes instituições como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. No campo intelectual, destaca-se como ensaísta e articulista, explorando temas que transitam entre o Direito, a filosofia existencial e a literatura, sempre com densidade crítica e forte apelo reflexivo. Seus textos marcam presença em veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Sua produção bibliográfica, disponível na Amazon, é extensa e atravessa diferentes campos do conhecimento, com obras como Marketing para Gestores, Direito para Gestores, Etnomarketing – Relevância na Administração Contemporânea e A Segurança Jurídica do Fundo Garantidor de Créditos – FGC, além de títulos de cunho existencial como Existências, Colapsos, Movimentos, Ansiedades, Passagens, Fragmentos, Transições, Vestígios, Traços, Espaços, Brasilis e Núcleos. Sua escrita ultrapassa o tecnicismo jurídico. Ela tensiona o Direito com a economia, dialoga com a ciência e mergulha na condição humana sob a lente da filosofia existencial. Influenciado por correntes como o estoicismo — com seu foco no controle e na disciplina interior — e o existencialismo — com sua ênfase na responsabilidade pela própria essência —, constrói uma abordagem que confere profundidade tanto à prática profissional quanto à produção intelectual. Ao integrar essas correntes à prática cotidiana, Northon propõe uma visão em que o Direito deixa de ser apenas instrumento de controle e passa a atuar como ferramenta de compreensão das angústias, escolhas e potenciais da experiência humana. Suas obras funcionam como cartografias do existir. Exploram crises, transições e estruturas invisíveis da vida, organizando-se em eixos conceituais: Exploração existencial: Existências, Colapsos, Ansiedades, Fragmentos Dinâmicas de mudança: Movimentos, Passagens, Transições, Traços Identidade e contexto: Brasilis, Núcleos, Vestígios, Espaços O diferencial de seu trabalho está na humanização das normas. Em vez de uma aplicação fria da lei, propõe um Direito que dialoga com a experiência vivida — onde contratos têm contexto, conflitos têm narrativa e decisões têm impacto além do papel. Northon é como um advogado no centro de uma biblioteca infinita. Ao seu redor, não estão apenas códigos e jurisprudências, mas também filosofia respirando nas estantes, literatura sussurrando sentidos, economia desenhando curvas invisíveis e marketing decifrando comportamentos. Ele não consulta livros em busca de respostas prontas. Ele os tensiona. Permite que a lógica econômica teste a eficiência jurídica. Deixa o marketing questionar a narrativa por trás dos conflitos. Encosta conceitos jurídicos em metáforas literárias e observa o atrito — como quem mede valor, percepção e impacto simultaneamente. O resultado não é um parecer frio, nem uma estratégia isolada. É uma construção que entende que decisões jurídicas têm custo, posicionamento e consequência no mundo real. Que contratos não vivem apenas no papel — eles respiram no mercado. E que conflitos não são apenas técnicos — são humanos, reputacionais e, muitas vezes, estratégicos. Enquanto muitos advogados operam como técnicos em um laboratório de normas, ele se posiciona como um arquiteto de contextos: alguém que lê o Direito com precisão analítica, mas também com sensibilidade para mercado, narrativa e comportamento. E, nesse cenário, o silêncio típico da biblioteca desaparece. No lugar, surge um ruído invisível de ideias em colisão — como se cada página aberta disputasse não apenas a verdade, mas também relevância, valor e influência. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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