Responsabilidade Civil por Maus-Tratos a Animais e Omissão: Quando o Silêncio Também Agride

12/04/2026 às 18:13
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O presente artigo analisa a responsabilidade civil decorrente de maus-tratos a animais no ordenamento jurídico brasileiro, com ênfase na omissão como forma juridicamente relevante de produção do dano. Parte-se da premissa de que a proteção animal, consolidada no art. 225 da Constituição Federal e na Lei nº 9.605/98, impõe deveres positivos de atuação tanto ao Estado quanto aos particulares. Investiga-se a possibilidade de configuração do dever de indenizar em hipóteses de inação diante de situações de crueldade, abandono ou negligência. Conclui-se que a omissão, quando vinculada a um dever jurídico de agir, deixa de ser neutralidade e passa a integrar o nexo causal do dano, configurando responsabilidade civil plena.

Palavras-chave: responsabilidade civil; maus-tratos; animais; omissão; dever de agir; direito ambiental.

1. Introdução

A expansão da tutela jurídica dos animais no direito brasileiro desloca o eixo tradicional da responsabilidade civil, historicamente centrado na relação intersubjetiva humana, para um campo mais amplo de proteção da vida não humana. Nesse cenário, os maus-tratos a animais deixam de ser compreendidos apenas como atos positivos de violência e passam a incluir condutas omissivas que perpetuam o sofrimento.

A questão central que orienta este estudo é: pode a omissão diante do sofrimento animal gerar responsabilidade civil?

A resposta exige a reconstrução do conceito de conduta juridicamente relevante no âmbito da responsabilidade civil contemporânea.

2. Fundamentos constitucionais e infraconstitucionais da tutela animal

A Constituição Federal de 1988, em seu art. 225, §1º, inciso VII, estabelece a vedação de práticas que submetam os animais à crueldade, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de proteção ambiental.

No plano infraconstitucional, a Lei nº 9.605/98 tipifica os maus-tratos, abusos, ferimentos e mutilações contra animais, reforçando a dimensão sancionatória da tutela jurídica.

Essa base normativa evidencia que a proteção animal no Brasil possui natureza jurídico-ambiental e ética, impondo deveres positivos de atuação, cuja violação pode ocorrer tanto por ação quanto por omissão.

3. A omissão como conduta juridicamente relevante

No Direito Civil, a responsabilidade por omissão não é automática. Exige-se a existência de um dever jurídico de agir e a possibilidade concreta de evitar o resultado danoso.

No contexto dos maus-tratos a animais, esse dever pode derivar de:

obrigação constitucional de proteção ambiental;

dever de guarda e responsabilidade do tutor;

dever estatal de fiscalização e proteção;

dever geral de solidariedade ambiental.

Assim, a omissão deixa de ser inércia neutra e passa a ser juridicamente qualificada quando o agente, podendo agir, opta por não impedir a ocorrência do dano.

4. Maus-tratos por omissão: abandono, negligência e sofrimento evitável

A doutrina e a jurisprudência ambiental têm ampliado o conceito de maus-tratos para abarcar condutas omissivas, como:

abandono de animais domésticos;

ausência de alimentação e cuidados básicos;

falta de atendimento veterinário necessário;

manutenção em condições degradantes.

Tais situações revelam que o dano não decorre apenas de agressões diretas, mas também da inércia prolongada diante de um estado de sofrimento previsível e evitável.

A negligência, nesse contexto, não é simples descuido: é produção continuada de sofrimento por ausência de intervenção.

5. Nexo causal e imputação na omissão

A responsabilidade civil por omissão exige a construção de um nexo causal normativo, baseado em juízo contrafactual: se o agente tivesse agido, o dano teria sido evitado ou reduzido?

Quando presentes:

dever jurídico de agir;

possibilidade concreta de intervenção;

previsibilidade do resultado;

a omissão integra o processo causal juridicamente relevante, permitindo a imputação do dano ao agente inerte.

Dessa forma, o silêncio deixa de ser ausência de conduta e passa a ser conduta juridicamente imputável.

6. Omissão estatal e responsabilidade por falha na proteção animal

A responsabilidade civil do Estado também pode ser configurada pela omissão no dever de proteção animal, especialmente quando há:

ausência de políticas públicas de controle populacional;

fiscalização ineficaz de maus-tratos;

inexistência de estruturas mínimas de acolhimento;

tolerância institucional à reincidência de práticas cruéis.

Nesses casos, a omissão estatal não é episódica, mas estrutural, revelando falha do serviço público e violação do dever constitucional de proteção ambiental.

7. Considerações finais

A responsabilidade civil por maus-tratos a animais, quando analisada sob a ótica da omissão, revela uma zona de tensão entre ética, Direito e invisibilidade social do sofrimento animal.

A omissão, longe de ser neutralidade jurídica, pode constituir forma silenciosa de perpetuação do dano, desde que presente o dever jurídico de agir.

O Direito contemporâneo, ao expandir sua tutela para além da ação direta, reconhece que também o não agir pode ferir — e, quando juridicamente qualificado, também pode gerar dever de reparar.

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Assim, o silêncio, no campo da proteção animal, não é ausência de linguagem jurídica, mas uma forma de causalidade socialmente produzida.

Referências básicas

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais).

DIAS, Edna Cardozo. Direito dos Animais.

LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais.

MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Direito Ambiental Brasileiro.

FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Responsabilidade Civil.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista, escritor e consultor brasileiro, com atuação em Presidente Prudente e Curitiba. Sua trajetória profissional, construída ao longo de mais de duas décadas na Caixa Econômica Federal, revela uma sólida experiência aliada a uma visão multifacetada do Direito. Sua atuação distingue-se pela capacidade de entrelaçar o rigor técnico jurídico com reflexões oriundas da filosofia, da literatura, da economia, da ciência e das artes, estabelecendo um diálogo singular entre normas e sensibilidade humana. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, onde também acumula experiência em consultorias prestadas a grandes instituições, como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. No campo intelectual, destaca-se como ensaísta e articulista, explorando temas que transitam entre o Direito, a filosofia existencial e a literatura, sempre com densidade crítica e apelo reflexivo. Seus textos marcam presença em veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores, além de integrarem seus livros publicados na Amazon: Existências, Colapsos, Movimentos, Ansiedades, Passagens, Fragmentos, Transições, Vestigios, Traços, Espaços, Brasilis, Núcleos, entre outros. Contato: (18) 99812.7830.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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