A paz que depende da bomba: direito internacional, disuasão nuclear e o paradoxo jurídico do fim do mundo (entre o art. 51 da onu e o silêncio de hiroshima)

15/04/2026 às 22:29
Leia nesta página:

INTRODUÇÃO — O DIREITO QUE REGULA O FIM SEM CONSEGUIR PROIBI-LO

Existe uma estranha arquitetura invisível sustentando o sistema internacional contemporâneo: a paz global não é garantida pela ausência de armas nucleares, mas pela certeza de que elas podem ser usadas.

É aqui que o Direito Internacional Público entra em colapso conceitual elegante — não um colapso explosivo, mas um colapso lógico.

Como pode um ordenamento jurídico proibir armas de destruição em massa enquanto depende, estruturalmente, da ameaça dessas mesmas armas para evitar guerras?

Essa é a tensão nuclear do próprio Direito:

a dissuasão como política de paz e a proibição como promessa normativa simultaneamente incompatíveis e coexistentes.

E no fundo, uma pergunta incômoda:

O mundo está em paz… ou apenas em suspensão estratégica do apocalipse?

1. A BASE JURÍDICA DO PARADOXO: O SISTEMA INTERNACIONAL EM DUPLO VÍNCULO

O regime jurídico das armas nucleares é fragmentado, quase esquizofrênico em sua estrutura normativa:

Carta da ONU (1945)

Art. 2(4): proíbe o uso da força nas relações internacionais

Art. 51: preserva o direito inerente à legítima defesa

Aqui nasce o primeiro paradoxo:

o Direito proíbe a guerra, mas preserva o direito de reagir com força extrema.

Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP, 1968)

Três pilares:

Não proliferação

Uso pacífico da energia nuclear

Desarmamento progressivo (Art. VI)

Mas com uma assimetria estrutural: cinco Estados nuclearmente reconhecidos (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido) mantêm arsenais legalmente tolerados pelo regime histórico do tratado.

Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN, 2017)

Proíbe posse, uso e ameaça de uso

Entrou em vigor sem adesão das potências nucleares

Resultado: dois sistemas jurídicos paralelos coexistindo sem convergência real.

2. DISUASÃO: A PAZ FUNDADA NA CAPACIDADE DE ANIQUILAÇÃO

A doutrina da dissuasão nuclear — especialmente a lógica da Destruição Mútua Assegurada (MAD) — é uma das mais perturbadoras construções racionais da modernidade.

Ela afirma, essencialmente:

“Ninguém aperta o botão porque todos sabem que todos podem apertar o botão.”

Não é paz.

É equilíbrio pelo terror.

Carl Schmitt enxergaria aqui o soberano absoluto: aquele que decide na exceção permanente.

Byung-Chul Han chamaria de “sociedade da ameaça silenciosa”, onde o controle não se dá pela repressão visível, mas pela internalização da catástrofe possível.

E Freud talvez não hesitasse:

é o Thanatos convertido em política internacional de estabilidade.

3. PSICOLOGIA DO IMPOSSÍVEL: A NORMALIZAÇÃO DO FIM

Stanley Milgram demonstrou que indivíduos comuns podem executar ações destrutivas sob autoridade legítima.

Zimbardo mostrou como estruturas institucionais deformam moralidades.

Agora amplie isso para Estados inteiros.

A dissuasão nuclear exige uma forma sofisticada de racionalidade psicológica coletiva:

Aceitar a possibilidade de extermínio como mecanismo de segurança

Conviver com arsenais capazes de eliminar civilizações inteiras

Normalizar a existência do “fim administrado”

Viktor Frankl alertaria: quando o sentido é substituído por cálculo de sobrevivência, a existência entra em colapso simbólico.

Erich Fromm chamaria isso de racionalidade necrofílica institucional.

4. O CASO JURÍDICO CENTRAL: A OPINIÃO CONSULTIVA DA CIJ (1996)

A Corte Internacional de Justiça, no parecer sobre armas nucleares, estabeleceu:

Uso de armas nucleares é geralmente contrário ao Direito Internacional Humanitário

Devem respeitar proporcionalidade e distinção

Existe obrigação de negociar desarmamento (Art. VI do TNP)

Mas o ponto crítico:

A CIJ não conseguiu afirmar categoricamente a ilegalidade absoluta do uso em circunstâncias extremas de legítima defesa.

Esse “não fechamento” jurídico não é falha técnica.

É o reconhecimento de um limite ontológico do Direito.

Quando a questão envolve a possibilidade de extinção da humanidade, o sistema jurídico hesita — porque qualquer resposta absoluta pode ser irrealizável no mundo político.

5. CASOS REAIS: O DIREITO APÓS O FOGO

Hiroshima e Nagasaki (1945)

Estimativa: até 200 mil mortos imediatos

Colapso jurídico pós-guerra sem responsabilização penal internacional direta

️ Testes nucleares no Pacífico (EUA/França)

Impactos ambientais e humanos duradouros

Litígios envolvendo Estados insulares e o princípio da precaução

️ Chernobyl (1986) e Fukushima (2011)

Demonstração do risco sistêmico nuclear

Expansão do Direito Ambiental para uma lógica de catástrofe global

Ulrich Beck define isso como:

“sociedade mundial de risco fabricado pela própria modernidade”

6. FILOSOFIA DO ABISMO: ENTRE KANT, HOBBES E O VAZIO ESTRATÉGICO

Hobbes: o Estado como Leviatã, monopolizando a violência para evitar o caos

Kant: a paz perpétua como horizonte racional

Nietzsche: a política como expressão da vontade de poder

Agamben: o estado de exceção como norma oculta do sistema

Sartre: liberdade condenada à escolha sem garantias

Mas no nuclear, todos colapsam num ponto comum:

a paz não é ausência de guerra, mas gestão da possibilidade de aniquilação total.

7. O DIREITO COMO MEMBRANA DE CONTENÇÃO DO INIMAGINÁVEL

Assine a nossa newsletter! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos

O Direito Internacional opera aqui como uma membrana simbólica entre civilização e extinção.

Ele tenta organizar três níveis simultâneos:

Proibição normativa (TPAN)

Regulação estratégica (TNP)

Exceção legítima (Art. 51 da ONU)

Mas nenhum desses níveis elimina a dissuasão.

O que o Direito faz é mais sutil e mais inquietante:

ele transforma o apocalipse em linguagem jurídica administrável.

8. A IRONIA FINAL: A PAZ QUE PRECISA DO MEDO

A dissuasão nuclear produz uma lógica circular:

Se o medo falhar → guerra nuclear

Se o medo funcionar perfeitamente → paz instável

Se a crença na paz for total → colapso do sistema de dissuasão

Ou seja: o sistema depende da credibilidade do impossível.

Slavoj Žižek resumiria com precisão brutal:

a ideologia aqui não mascara a realidade — ela é a realidade funcionando.

CONCLUSÃO — O DIREITO DIANTE DO SEU PRÓPRIO LIMITE EVOLUTIVO

A tensão entre defesa nacional, dissuasão e proibição de armas de destruição em massa revela algo desconfortável:

o Direito Internacional não está falhando em impedir o nuclear.

Ele está funcionando exatamente como foi projetado:

como sistema de contenção imperfeita de um risco que ele não pode eliminar sem alterar sua própria estrutura política.

E talvez a pergunta mais importante não seja jurídica, mas civilizatória:

é possível um Direito que proíba o fim, sem depender da ameaça do fim para existir?

Ou estamos apenas vivendo dentro de uma sofisticada engenharia normativa onde a paz é, na prática, o intervalo técnico entre duas possibilidades de extinção?

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

Carta das Nações Unidas (1945)

Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968)

Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (2017)

CIJ, Legality of the Threat or Use of Nuclear Weapons (1996)

BECK, Ulrich — Risk Society

FOUCAULT, Michel — Vigiar e Punir / Microfísica do Poder

FREUD, Sigmund — Além do Princípio do Prazer

FRANKL, Viktor — Em Busca de Sentido

HOBBES, Thomas — Leviatã

KANT, Immanuel — À Paz Perpétua

NIETZSCHE, Friedrich — Genealogia da Moral

SARTRE, Jean-Paul — O Ser e o Nada

BYUNG-CHUL HAN — Sociedade do Cansaço

ZIZEK, Slavoj — Living in the End Times

AGAMBEN, Giorgio — Estado de Exceção

SÁGAN, Carl — Pale Blue Dot

MILGRAM, Stanley — Obedience to Authority

ZIMBARDO, Philip — The Lucifer Effect

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista da comunicação e escritor brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros acadêmicos e de ficção. Sua produção transita por Direito, ciência, tecnologia, filosofia, psicologia, literatura, economia, administração, marketing, antropologia e cultura, com especial interesse pelas transformações contemporâneas e pelos temas de fronteira que emergem da interação entre esses campos. No âmbito acadêmico, investiga problemas situados na interseção entre o Direito e outras áreas do conhecimento, em busca de compreender fenômenos que desafiam as fronteiras tradicionais das disciplinas. Na literatura, desenvolve romances, suspenses e ficção jurídico-filosófica para diferentes faixas etárias, incluindo projetos educacionais desenvolvidos em parceria com prestigiadas editoras internacionais, como a Luso-brasileira Kotter e a britânica Camden House. Uma marca central de sua obra literária é retirar o Direito do papel meramente decorativo e transformá-lo em estrutura narrativa — com intensidade proporcional à maturidade do leitor: Para o público adulto, a lei assume a forma de atmosfera e fricção: tensiona a fronteira entre o moralmente correto e o juridicamente admissível, entre a verdade dos fatos e a verdade processual. Responsabilidade, prova, autoridade, poder e os pontos cegos das instituições tornam-se matéria-prima de conflitos e dilemas humanos. Para o público infantojuvenil, o Direito ganha forma de aventura e lógica material. Escrituras, testamentos e registros tornam-se peças de um quebra-cabeça investigativo — descobertas pela ação, pela curiosidade e pela resolução de problemas, nunca pela exposição técnica. Nessa concepção, o volume de Direito numa obra não se mede pela quantidade de artigos ou normas citados, mas pelo peso que uma regra exerce sobre as decisões dos personagens: a criança encontra a lógica da justiça na aventura; o adolescente descobre o peso das obrigações e das consequências; o adulto confronta os dilemas institucionais da vida real. Entre suas principais coletâneas estão The Odyssey (edição em inglês) e A Odisseia (edição brasileira), reunindo 60 obras selecionadas por seus leitores. Soma-se a esse percurso O Prédio que Aprendeu a Escutar, novo lançamento pela Kotter Editorial, que amplia sua investigação literária sobre os espaços, as relações humanas e as dimensões menos evidentes da experiência cotidiana. Sua produção estabelece, assim, uma ponte entre investigação intelectual e imaginação literária, fazendo do Direito um tribunal sem teto, aberto aos ventos da filosofia, aos relâmpagos da ciência, às tempestades da tecnologia, às profundezas da psicologia, às engrenagens da economia, aos espelhos da literatura e aos movimentos invisíveis que transformam a sociedade antes mesmo que a lei consiga nomeá-los. Desenvolve também projetos e propostas de obras voltados à renovação do pensamento jurídico, político e social no Brasil, estruturando uma ampla coleção analítica sobre os dilemas contemporâneos e futuros do país. Esses trabalhos articulam dogmática jurídica, sociologia, economia, filosofia e ciência de dados para diagnosticar problemas estruturais, interpretar as transformações institucionais e propor reformas profundas capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

Leia seus artigos favoritos sem distrações, em qualquer lugar e como quiser

Assine o JusPlus e tenha recursos exclusivos

  • Baixe arquivos PDF: imprima ou leia depois
  • Navegue sem anúncios: concentre-se mais
  • Esteja na frente: descubra novas ferramentas
Economize 17%
Logo JusPlus
JusPlus
de R$
29,50
por

R$ 2,95

No primeiro mês

Cobrança mensal, cancele quando quiser
Já é assinante? Faça login
Publique seus artigos Compartilhe conhecimento e ganhe reconhecimento. É fácil e rápido!
Colabore
Publique seus artigos
Fique sempre informado! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos