“A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector: o Direito e a invisibilidade estrutural

16/04/2026 às 13:41
Leia nesta página:

Em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, não há crime, não há litígio, não há tribunal.

Há algo mais grave.

Há ausência.

Macabéa não é vítima de uma ilegalidade específica. Ela é vítima de um sistema que sequer a enxerga. Sua existência transcorre à margem de qualquer proteção efetiva, como se o Direito operasse em uma frequência seletiva, incapaz de captar certos corpos, certas vidas, certas narrativas. Não se trata de exclusão formal, mas de uma espécie de falha ontológica: para o sistema, Macabéa não chega a existir como sujeito jurídico pleno.

E aqui se revela um fenômeno estrutural: a invisibilidade jurídica.

O Direito brasileiro, densamente povoado por garantias constitucionais, convive com um paradoxo inquietante. A promessa de universalidade normativa não se converte em universalidade empírica. Entre o texto e a vida, abre-se um abismo. E é nesse intervalo que vidas como a de Macabéa se dissolvem.

A Constituição fala em dignidade, igualdade material e acesso à justiça. Mas, como já advertia Pierre Bourdieu, o Direito também funciona como um campo de poder, onde o acesso às suas ferramentas simbólicas é profundamente desigual. Não basta que o direito exista; é preciso que ele seja reconhecido, apropriado e mobilizado. Macabéa não reivindica direitos porque não foi socializada para sequer concebê-los como possibilidade.

Essa é a forma mais sofisticada de exclusão: não a negação explícita, mas a ausência de pertencimento.

Sob outra lente, Hannah Arendt já havia identificado algo semelhante ao falar do “direito a ter direitos”. Antes de qualquer garantia específica, há uma condição anterior: ser reconhecido como alguém que pode aparecer no espaço público, que pode ser visto, ouvido, considerado. Macabéa falha nesse requisito inaugural. Ela não é negada; ela é ignorada.

E o que o Direito faz diante disso?

Silencia.

O sistema jurídico, nesse contexto, não oprime necessariamente por ação, mas por omissão estruturada. A violência aqui não é espetacular, não é visível, não produz escândalo. Ela opera em baixa intensidade, mas de forma contínua, como uma espécie de anestesia social. Trata-se do que Michel Foucault chamaria de uma microfísica do poder: mecanismos difusos que regulam quem importa e quem pode ser descartado sem ruído.

Macabéa não é um “caso”. E talvez resida aí o problema.

O Direito foi treinado para reagir a conflitos, a violações identificáveis, a sujeitos que demandam. Mas o que fazer com aqueles que não chegam sequer a entrar no radar institucional? Como operar diante daquilo que não se apresenta como demanda, mas como ausência?

A resposta, muitas vezes, é a inércia.

E a inércia, no plano estrutural, não é neutralidade. É escolha.

No Brasil, dados reiterados sobre acesso à justiça revelam que parcelas significativas da população sequer procuram o Judiciário, seja por desconhecimento, descrença ou barreiras materiais. A Defensoria Pública, embora essencial, ainda não alcança todos os territórios e sujeitos. O resultado é um sistema que, embora formalmente aberto, funciona na prática como um espaço de entrada restrita.

Macabéa, nesse cenário, não é exceção. Ela é regra invisível.

Sua morte não é apenas biológica. É a culminância de uma trajetória marcada por sucessivas não-inscrições no mundo jurídico. Ela não foi protegida, não foi ouvida, não foi sequer percebida como alguém que poderia demandar proteção.

Ela morre como viveu: fora do campo de visão.

O Direito falha não apenas quando decide mal.

Falha, sobretudo, quando não chega.

E talvez o maior desafio contemporâneo não seja produzir novas normas, mas desenvolver uma sensibilidade institucional capaz de perceber aqueles que não gritam, que não litigam, que não aparecem. Uma espécie de escuta jurídica do silêncio.

Porque há vidas que não chegam aos autos.

E, ainda assim, são julgadas todos os dias pela indiferença.

Bibliografia

Clarice Lispector. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Hannah Arendt. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Pierre Bourdieu. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

Michel Foucault. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

Luigi Ferrajoli. Direito e Razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.

Boaventura de Sousa Santos. Para uma Revolução Democrática da Justiça. São Paulo: Cortez, 2007.

Conselho Nacional de Justiça. Justiça em Números (relatórios anuais).

Defensoria Pública da União. Relatórios institucionais sobre acesso à justiça.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é jurista da comunicação e escritor brasileiro, autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros acadêmicos e de ficção. Sua produção transita por Direito, ciência, tecnologia, filosofia, psicologia, literatura, economia, administração, marketing, antropologia e cultura, com especial interesse pelas transformações contemporâneas e pelos temas de fronteira que emergem da interação entre esses campos. No âmbito acadêmico, investiga problemas situados na interseção entre o Direito e outras áreas do conhecimento, em busca de compreender fenômenos que desafiam as fronteiras tradicionais das disciplinas. Na literatura, desenvolve romances, suspenses e ficção jurídico-filosófica para diferentes faixas etárias, incluindo projetos educacionais desenvolvidos em parceria com prestigiadas editoras internacionais, como a Luso-brasileira Kotter e a britânica Camden House. Uma marca central de sua obra literária é retirar o Direito do papel meramente decorativo e transformá-lo em estrutura narrativa — com intensidade proporcional à maturidade do leitor: Para o público adulto, a lei assume a forma de atmosfera e fricção: tensiona a fronteira entre o moralmente correto e o juridicamente admissível, entre a verdade dos fatos e a verdade processual. Responsabilidade, prova, autoridade, poder e os pontos cegos das instituições tornam-se matéria-prima de conflitos e dilemas humanos. Para o público infantojuvenil, o Direito ganha forma de aventura e lógica material. Escrituras, testamentos e registros tornam-se peças de um quebra-cabeça investigativo — descobertas pela ação, pela curiosidade e pela resolução de problemas, nunca pela exposição técnica. Nessa concepção, o volume de Direito numa obra não se mede pela quantidade de artigos ou normas citados, mas pelo peso que uma regra exerce sobre as decisões dos personagens: a criança encontra a lógica da justiça na aventura; o adolescente descobre o peso das obrigações e das consequências; o adulto confronta os dilemas institucionais da vida real. Entre suas principais coletâneas estão The Odyssey (edição em inglês) e A Odisseia (edição brasileira), reunindo 60 obras selecionadas por seus leitores. Soma-se a esse percurso O Prédio que Aprendeu a Escutar, novo lançamento pela Kotter Editorial, que amplia sua investigação literária sobre os espaços, as relações humanas e as dimensões menos evidentes da experiência cotidiana. Sua produção estabelece, assim, uma ponte entre investigação intelectual e imaginação literária, fazendo do Direito um tribunal sem teto, aberto aos ventos da filosofia, aos relâmpagos da ciência, às tempestades da tecnologia, às profundezas da psicologia, às engrenagens da economia, aos espelhos da literatura e aos movimentos invisíveis que transformam a sociedade antes mesmo que a lei consiga nomeá-los. Desenvolve também projetos e propostas de obras voltados à renovação do pensamento jurídico, político e social no Brasil, estruturando uma ampla coleção analítica sobre os dilemas contemporâneos e futuros do país. Esses trabalhos articulam dogmática jurídica, sociologia, economia, filosofia e ciência de dados para diagnosticar problemas estruturais, interpretar as transformações institucionais e propor reformas profundas capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

Leia seus artigos favoritos sem distrações, em qualquer lugar e como quiser

Assine o JusPlus e tenha recursos exclusivos

  • Baixe arquivos PDF: imprima ou leia depois
  • Navegue sem anúncios: concentre-se mais
  • Esteja na frente: descubra novas ferramentas
Economize 17%
Logo JusPlus
JusPlus
de R$
29,50
por

R$ 2,95

No primeiro mês

Cobrança mensal, cancele quando quiser
Já é assinante? Faça login
Publique seus artigos Compartilhe conhecimento e ganhe reconhecimento. É fácil e rápido!
Colabore
Publique seus artigos
Fique sempre informado! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos