A decisão impossível: gerir entre o juridicamente possível e o economicamente desejável

17/04/2026 às 19:54
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O gestor como operador de contradições insolúveis

Há decisões que não escolhem apenas caminhos. Elas escolhem dores. E há gestores que, longe da imagem confortável do estrategista racional, tornam-se algo mais próximo de equilibristas em um fio estendido entre dois abismos: o da legalidade e o da eficiência econômica. De um lado, o Direito como arquitetura de contenção. Do outro, a economia como engenharia de maximização. No meio, o gestor. Não como herói. Mas como operador de contradições insolúveis.

1. O conflito estrutural: quando o sistema não converge

A modernidade corporativa pressupõe uma ilusão funcional: a de que o juridicamente possível e o economicamente desejável podem, em algum ponto, coincidir de forma estável. Essa premissa raramente sobrevive ao contato com a realidade.

O Direito não opera por maximização, mas por limitação. Ele não pergunta “o que é mais eficiente?”, mas “o que é permitido dentro de uma ordem normativa?”. Já a economia, especialmente sob a racionalidade neoliberal contemporânea, pergunta o inverso: “o que gera mais resultado com menos custo?”

Essa divergência não é acidental. É estrutural.

A tensão aparece com nitidez em temas como governança corporativa, compliance, responsabilidade civil empresarial e tomada de decisão algorítmica. O gestor não escolhe entre certo e errado. Ele escolhe entre o legalmente defensável e o economicamente atrativo, sabendo que raramente ambos ocupam o mesmo espaço.

2. O gestor como tradutor de mundos incompatíveis

O gestor contemporâneo deixou de ser apenas um administrador de recursos. Ele se tornou um tradutor intersistêmico.

De um lado, precisa decodificar normas jurídicas que operam com linguagem de dever-ser, precedentes e princípios. Do outro, precisa interpretar métricas financeiras que operam com projeções, riscos e probabilidades.

Essa tradução, porém, nunca é neutra. Toda tradução trai um pouco o original.

Quando o jurídico fala em prudência, o econômico lê como lentidão. Quando o econômico fala em eficiência, o jurídico percebe como risco. O gestor, então, não harmoniza. Ele administra ruídos.

3. A decisão impossível: não há síntese, há escolha trágica

A ideia de uma decisão “ótima” é uma herança matemática aplicada de forma imprópria ao campo organizacional complexo. Em muitos casos, não existe solução ótima. Existe apenas escolha trágica.

A decisão impossível ocorre quando:

o cumprimento integral da norma gera perda econômica relevante

a maximização econômica implica risco jurídico relevante

qualquer alternativa produz dano residual inevitável

Nesse cenário, o gestor não resolve o conflito. Ele o assume.

E assumir um conflito é mais pesado do que resolvê-lo.

4. A juridicização da empresa e a economia da incerteza

Nas últimas décadas, houve uma expansão silenciosa do Direito sobre o tecido corporativo. O fenômeno da juridicização da empresa transformou decisões estratégicas em potenciais eventos jurídicos.

Contratos deixaram de ser apenas instrumentos econômicos e passaram a ser sistemas de risco. Compliance deixou de ser departamento e tornou-se epistemologia organizacional.

Paradoxalmente, isso não eliminou a incerteza. Apenas a sofisticou.

O risco jurídico não desaparece. Ele se desloca. E, nesse deslocamento, a empresa passa a operar sob uma espécie de ansiedade estrutural permanente, onde cada decisão carrega uma sombra normativa futura.

5. A psicologia da decisão: o peso invisível do gestor

Do ponto de vista psicológico, o gestor vive um fenômeno pouco nomeado: a dissociação funcional.

Ele precisa acreditar simultaneamente em duas narrativas:

a de que está agindo conforme o Direito

a de que está preservando a viabilidade econômica

Quando essas narrativas entram em conflito direto, surge a zona mais delicada da governança: a decisão sob ambiguidade irreversível.

É nesse ponto que o erro deixa de ser técnico e se torna existencial.

6. O mito da neutralidade decisória

Uma das ilusões mais persistentes no ambiente corporativo é a ideia de neutralidade decisória. Como se fosse possível decidir sem valores, sem perdas e sem implicações morais.

Mas toda decisão que envolve Direito e economia carrega uma política implícita: o que será protegido e o que será sacrificado.

O gestor, portanto, não é neutro. Ele é um agente de distribuição de riscos, impactos e consequências.

7. A ética do inacabado

Talvez a única ética possível nesse cenário não seja a da certeza, mas a do inacabado.

Decidir entre o juridicamente possível e o economicamente desejável não é escolher o melhor caminho. É reconhecer que qualquer caminho carregará falhas, e ainda assim seguir adiante com responsabilidade por essas falhas.

A maturidade decisória, nesse contexto, não é eliminar contradições. É suportá-las sem autoengano.

8. Conclusão: o gestor como figura de fronteira

O gestor contemporâneo não é apenas um tomador de decisão. Ele é uma figura de fronteira.

Habita o intervalo entre sistemas que não conversam plenamente. O Direito exige estabilidade. A economia exige movimento. A gestão, então, se torna o espaço onde estabilidade e movimento tentam coexistir sem se anularem.

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A decisão impossível não é exceção. É método.

E talvez a verdadeira competência não esteja em resolver o insolúvel, mas em não fingir que ele desaparece depois da decisão.

Bibliografia

ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2008.

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Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um renomado jurista e escritor, com 20 anos na Caixa. Une o Direito com filosofia, literatura, publicidade/marketing, economia, ciência, cultura e artes, estabelecendo um diálogo singular entre normas e sensibilidade humana. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, prestando consultorias a instituições, como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. Explora temas existenciais, reflexivos, complexos e profundos. Publicou centenas de artigos em veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Além de dezenas de livros publicados na Amazon. Apesar do reconhecimento e de um público fiel, ele mantém uma espécie de reclusão erudita. Segundo ele próprio: "A obra deve ser maior que o autor": Contato: [email protected]

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