A Empregada — O Direito do Trabalho e a invisibilidade jurídica do cotidiano doméstico

18/04/2026 às 16:04
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O Direito do Trabalho nasceu de uma suspeita histórica: a de que a liberdade contratual, quando deixada sozinha, tende a produzir desigualdade legitimada por aparência de consentimento. Em nenhuma esfera isso se revela com mais nitidez do que no trabalho doméstico — exatamente o território dramatizado em A Empregada.

A casa, nesse contexto, não é apenas espaço físico. Ela é uma estrutura normativa paralela, onde as categorias jurídicas tradicionais (empregador, empregado, jornada, subordinação) são constantemente dissolvidas pela linguagem afetiva e pela proximidade cotidiana.

O filme é particularmente relevante porque desloca o olhar jurídico da fábrica para o lar. E isso não é trivial: durante séculos, o Direito construiu sua dogmática laboral a partir da visibilidade da produção industrial. A casa, ao contrário, permaneceu como uma espécie de “zona de baixa juridicidade aparente”, embora profundamente estruturada por relações de trabalho.

Aqui surge o primeiro ponto crítico: a informalidade não é ausência de Direito, mas uma forma específica de sua falha de incidência.

A trabalhadora doméstica, quando não formalizada, não está fora do Direito. Está dentro dele de maneira precária, exposta e seletiva. Isso significa que ela sofre os efeitos do sistema jurídico sem usufruir plenamente de suas proteções.

O segundo ponto é mais sofisticado: a intimidade como tecnologia de apagamento jurídico.

A relação doméstica tende a ser revestida por uma linguagem de confiança, gratidão e pertencimento simbólico. Essa linguagem não é neutra. Ela opera como mecanismo de neutralização da percepção de exploração. O “vínculo afetivo” frequentemente funciona como substituto simbólico do vínculo jurídico formal.

No plano constitucional, isso tensiona diretamente o princípio da dignidade da pessoa humana. O trabalho doméstico não protegido adequadamente não viola apenas normas infraconstitucionais; ele fragiliza o núcleo axiológico do sistema jurídico.

Além disso, o filme permite uma leitura importante sobre o papel do Direito do Trabalho contemporâneo: ele não é apenas um conjunto de direitos mínimos, mas uma engenharia de desnaturalização das desigualdades.

Em outras palavras, o Direito do Trabalho existe para tornar visível aquilo que socialmente tende a se tornar invisível.

E nesse sentido, A Empregada funciona quase como uma prova narrativa de algo que a dogmática jurídica já reconhece, mas nem sempre consegue fazer valer na prática: onde há trabalho humano, há Direito — mesmo quando o Direito se recusa a aparecer com nome próprio.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é escritor, jurista da comunicação e pesquisador brasileiro, conhecido por sua produção interdisciplinar e por sua atuação na divulgação e popularização do Direito. Sua obra estabelece relações entre o Direito e áreas como Comunicação Social, Filosofia, Psicologia, Antropologia, Literatura, Ciência, Tecnologia, Economia, Administração, Sociologia, Política, Educação e Cultura. É autor de mais de 1.500 artigos e de dezenas de livros e obras de ficção, com produção publicada em plataformas jurídicas, acadêmicas, científicas e editoriais no Brasil e no exterior. Sua pesquisa concentra-se especialmente nas relações entre Direito, ciência, tecnologia e transformação social, abordando temas como inteligência artificial, proteção de dados, cibersegurança, governança algorítmica, economia digital, automação do trabalho, desinformação, plataformas digitais, biotecnologia, neurociência, mudanças climáticas, sustentabilidade, governança corporativa, bioética, direitos humanos e regulação tecnológica. A inteligência artificial ocupa posição relevante em sua produção, especialmente em questões relacionadas à responsabilidade civil, democracia, comunicação, sistema financeiro, relações de trabalho, consumo, privacidade, administração pública e teoria do Estado. Como divulgador do Direito, busca traduzir conceitos jurídicos complexos para diferentes públicos e linguagens, aproximando o conhecimento jurídico da ciência, da tecnologia, da educação, do jornalismo e da literatura. Na literatura infantojuvenil, desenvolve histórias de aventura, mistério, investigação e enigmas que incorporam temas como justiça, direitos, deveres, cidadania, ética, responsabilidade e leis, sendo co-criador e participante de projetos de educação desenvolvidos em parceria com a editoras internacionais, voltados à aproximação entre literatura, educação jurídica e formação de jovens leitores. Na literatura adulta, escreve romances, suspenses e narrativas de investigação psicológica que exploram temas como verdade, justiça, responsabilidade, identidade, poder, liberdade, moralidade e conflitos humanos, utilizando o Direito também como instrumento de investigação filosófica e social. Sua produção literária e acadêmica possui dimensão internacional, com publicações por editoras de prestígio. Em julho de 2026, lançou The Odyssey (English Edition) e A Odisseia (Edição Brasileira), coletâneas que reúnem 60 obras selecionadas por seus leitores, representando uma síntese de sua produção em diferentes gêneros, temas e áreas do conhecimento. A característica central de sua obra é a interdisciplinaridade: seus artigos, pesquisas, ensaios, livros e narrativas procuram compreender como Direito, ciência, tecnologia, economia, cultura e comportamento humano se relacionam em uma sociedade em transformação. Sua proposta intelectual pode ser sintetizada na ideia de fazer o Direito conversar com o mundo. Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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