The Pitt: o estado de exceção como rotina institucional do Direito

18/04/2026 às 16:29
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The Pitt não é apenas uma série médica. Ela funciona como uma alegoria operacional do Direito contemporâneo sob pressão sistêmica contínua. O hospital, enquanto espaço de urgência permanente, se transforma em metáfora do próprio Estado moderno quando confrontado com escassez estrutural.

No pronto-socorro da narrativa, o tempo é uma variável jurídica invisível, mas determinante. Cada decisão médica carrega um paralelo normativo: escolher é também excluir, e excluir é produzir consequência jurídica indireta. A lógica da triagem médica se aproxima da lógica da ponderação de princípios, especialmente na tradição de Robert Alexy, onde a colisão entre valores exige decisões sob compressão racional.

A série revela algo mais profundo: o estado de exceção deixou de ser excepcional. Em termos próximos a Giorgio Agamben, o que deveria ser suspensão pontual da norma torna-se modo permanente de gestão da vida. O hospital opera nesse limiar onde regras existem, mas são constantemente dobradas pela urgência.

A dignidade da pessoa humana, princípio estruturante de muitos ordenamentos constitucionais, aparece tensionada não como conceito abstrato, mas como decisão concreta sob falta de recursos. Quem recebe atendimento primeiro? Quem espera? Quem não chega a tempo? O Direito, aqui, não é texto. É timing.

Também é possível ler The Pitt a partir de Michel Foucault e sua biopolítica. O hospital não apenas cura, mas administra vidas, distribui sobrevivência e organiza corpos em hierarquias silenciosas. O Direito se aproxima dessa lógica quando passa a gerir populações sob critérios de eficiência, custo e risco.

No limite, a série nos obriga a encarar uma pergunta desconfortável: quando tudo é urgência, o Direito ainda consegue ser forma de justiça ou apenas técnica de sobrevivência institucional?

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Boitempo, 2004.

ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Malheiros, 2008.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Martins Fontes, 1999.

KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Martins Fontes, 2009.

DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. Martins Fontes, 2002.

Sobre o autor
Northon Salomão de Oliveira

Northon Salomão de Oliveira é um renomado jurista e escritor, com 20 anos na Caixa. Une o Direito com filosofia, literatura, publicidade/marketing, economia, ciência, cultura e artes, estabelecendo um diálogo singular entre normas e sensibilidade humana. Desde 2019, está à frente do escritório Northon Advocacia, prestando consultorias a instituições, como Nestlé, Arezzo e Cultura Inglesa. Explora temas existenciais, reflexivos, complexos e profundos. Publicou centenas de artigos em veículos como Jusbrasil, JusNavigandi, Exame, Folha de S.Paulo e Administradores. Além de dezenas de livros publicados na Amazon. Apesar do reconhecimento e de um público fiel, ele mantém uma espécie de reclusão erudita. Segundo ele próprio: "A obra deve ser maior que o autor": Contato: [email protected]

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

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